Rousseau é um dos maiores pensadores da democracia. Uma de suas
principais lições, mais atual do que nunca, diz mais ou menos o seguinte: o que
garante o espírito democrático de uma sociedade, e distingue os cidadãos livres
dos tiranos, é o princípio da maioria.
Mas há dois sentidos para maioria
: um sentido derivado e um sentido
originário e primeiro (do qual o sentido
derivado depende).
No sentido derivado, a maioria é
uma noção quantitativa expressa pelo “maior número”. Numa eleição, os
vencedores são os que obtêm maior número de votos. Se os derrotados forem não democráticos, podem querer se vingar
ressentidamente , não aceitando o resultado e fazendo ameaças ( como fez o miliciano
em 22), pondo em risco toda a sociedade.
Já na acepção originária ou
primeira, “maioria” tem um sentido qualitativo enquanto princípio ou regra
constitutiva da vida democrática, e antecede a prática quantitativa e numérica
eleitoral do voto.
Essa acepção primeira de maioria
pode ser assim enunciada: “Todos devem estar de acordo que ganhará as
eleições , e governará , o partido ou coligação que obtiver o maior número de votos, a partir da
decisão livre e soberana do povo.” Aqui, a
expressão “todos” indica uma maioria qualitativa, e envolve todos os
cidadãos como membros da pólis, antes mesmo de haver a definição de ganhadores
e perdedores , segundo a quantidade de
votos.
Os tiranos são aqueles que não
aceitam essa regra qualitativa da vida democrática : o inimigo deles não é
tanto o oponente em uma eleição, mas o princípio democrático que serve de base e
legitima uma eleição. O resultado de uma eleição é quantitativo e se mede por votos, mas o princípio
democrático que fundamenta toda eleição é qualitativo e anti-tirânico.
O tirano não tem a qualidade
democrática para conviver com a democracia: do ponto de vista dessa qualidade ,
a mentalidade do tirano é sempre “pequena”, mesmo quando eleito por um maior
número.
Mas a mera soma numérica de mentalidades pequenas forma
apenas um rebanho ( ou “a facção mais numerosa”, no dizer de Oscar Wilde),
nunca alcançando a qualidade pensante pressuposta pela mentalidade democrática
ampla e heterogênea.
Não foram os gregos, e sim os povos indígenas da América Latina que inspiraram Rousseau a pensar e defender o princípio constitutivo de toda sociedade democrática: foi com os indígenas que o filósofo aprendeu acerca da “democracia originária”.

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