sexta-feira, 12 de março de 2021

tangentes

 

Segundo a matemática, um triângulo possui três pontos singulares ( também chamados de “pontos extraordinários”) e uma quantidade indefinida de pontos regulares ou  “ordinários”. Os pontos singulares do triângulo são aqueles que ocupam os três vértices, ao passo que os pontos ordinários são os que estão nos lados do triângulo. Já um quadrado possui quatro pontos singulares e uma quantidade indefinida de pontos ordinários em seus quatro lados. Uma linha reta possui dois pontos singulares: os que estão no início e no fim da linha, entre os quais se encontra uma quantidade indefinida de  pontos ordinários. Os pontos singulares/extraordinários são aqueles nos quais se expressa uma diferença , enquanto os pontos ordinários se comportam como uma massa indistinta e homogênea, como um rebanho. E o círculo, quantos pontos singulares/ordinários ele possui? À primeira vista, parece que o círculo é destituído de pontos singulares, refém ele parece ser de pontos  ordinários apenas . Costuma-se comparar nossa vida a um círculo: “o círculo da vida”. Estaria então nossa vida refém da ordinariedade? Será que o rebanho vence a singularidade? O ordinário tem mais poder que o extraordinário? Mas o círculo guarda um segredo, tanto na matemática quanto na vida: qualquer ponto dele pode se metamorfosear em ponto singular/extraordinário, desde que por ele passe uma tangente.  “Tangente” significa: “o que toca e afeta”. Como diz o poeta Manoel de Barros, uma tangente é o que “nos desabre”. Tangente é o que vem de fora, como um sopro de coisa nova e inesperada que fende o círculo estreito das verdades fechadas. Numa tangente , o ponto pertencerá, ao mesmo tempo, ao círculo e à linha que vem de fora.  Tangente também pode ser uma ideia libertária que desfaz o círculo no qual se fechava, crendo-se derrotada, a nossa mente. Tangente também pode ser  a poesia que abre a palavra acostumada e nela põe sentido novo. A própria vida surgiu em nosso planeta como uma tangente que abriu o círculo opaco da matéria, e nela pôs olhos , ouvidos e bocas como abertura ao mundo. Uma tangente é como o fio de Ariadne: fende o círculo de morte dos labirintos onde a inação nos prende. Sem dúvida, não é fácil vencer a ordinariedade e seus rebanhos. Porém não se pode esquecer que, enquanto houver vida e história humana, as tangentes sempre emergem com sua força renovadora e fendem o círculo do mesmo  para fazer entrar um pouco de ar de fora. Mas as tangentes não existem prontas, elas não caem do céu. Na maioria das vezes, somos nós mesmos que precisamos criar nossas próprias  tangentes, e isso não se faz sem luta. Toda  tangente faz  o círculo da vida e da história saírem da imobilidade e girarem para o lado certo, para assim avançarmos.






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