sábado, 27 de março de 2021

a origem da música

 

Segundo a mitologia, assim teria surgido a música: certa vez, Pã  se apaixonou por uma Ninfa. Pã é o oposto do  Minotauro. Ambos são a junção  da animalidade com o homem, porém de forma inversa. Enquanto no Minotauro  a parte animal ocupa o lugar onde deveria  estar a cabeça pensante humana, em Pã  a parte  animal vigora  da cintura pra baixo. Em Pã as pernas  são  as “pulsões de vida”  a movê-lo. A cabeça de Pã é humana ,  porém ela não é  repressora dos  impulsos  vitais. Por isso,   também fazia parte do cortejo de  Dioniso celebrando   a arte e a vida. No Minotauro, ao contrário, onde deveriam estar ideias, dominava  a fúria do touro. No animal  touro essa fúria é expressão do instinto. Porém no Minotauro essa fúria se tornou  barbárie   a serviço da parte humana acéfala. A sede de sangue do Minotauro não vinha da parte que era touro ,  os touros são herbívoros;  a sede de sangue  vinha  da parte humana com mentalidade de  besta, a mesma mentalidade que hoje vemos na   besta-fascista. Enquanto o  Minotauro é movido pela pulsão de morte,  Pã segue as pulsões da vida, pulsões  que unem o homem ao seu corpo, para assim formarem um todo intensamente vivo ( isso explica, segundo alguns,  o nome “Pã”, que significa “todo”, dando origem também ao termo “panteísmo” ).

Voltando ao desejo de Pã  pela Ninfa. Rejeitando a aparência de Pã , a Ninfa não correspondeu e fugiu  , sem ao menos ouvir o  que Pã  queria dizer.  Pã a seguiu , desejando  apenas expressar para ela  aquilo que ele mesmo nem sabia ao certo como falar. Mas  a Ninfa entrou  num lago e pediu que as Nereidas , divindades aquáticas,  a escondessem  de tal forma que  Pã nunca a encontrasse. As Nereidas  metamorfosearam    a Ninfa num feixe de  caniços de bambu. Pã  chegou ao lago procurando  pela Ninfa ,  não a encontrou. Pela primeira vez, Pã ficou triste, sentindo uma  dor como nunca sentiu.  A dor tinha por causa   algo que estava dentro dele e que ele precisava expressar (  “ex-pressio”: “pressionar  para fora”). A parte pensante de Pã teve então uma ideia para tentar curar aquele sofrimento: Pã  pegou o feixe de caniços  , os amarrou e começou a soprar dentro deles. Embora fossem  apenas sons, tais sons diziam mais do que as palavras que ele queria dizer à Ninfa.  E assim nasceu a música, ao mesmo tempo arte e cura. “Sopro” é , em grego, “Pneuma” ( “spiritus” , em latim). Sem que Pã soubesse , seu espírito penetrou no corpo metamorfoseado da Ninfa, que enfim  lhe correspondeu sob a forma de música. Com a arte, Pã curava a dor e afirmava a vida , pois na   música a Ninfa lhe fazia companhia.


“Sem a música, a vida seria um erro”. (Nietzsche)


“A palavra abriu o roupão para mim: ela quer que eu a seja”. (Manoel de Barros)


(imagem: “O lago das Ninfas”/ Monet)



-  O relato que fiz narra a origem da música de sopro, música dionisíaca , ancestral sonoro das diversas espécies de flauta e instrumentos de sopro , como o sensível e intenso sax de Pixinguinha e John Coltrane,  Pneumas em estado puro. As músicas nascidas da corda, músicas apolíneas, têm outra origem.




 






















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