quinta-feira, 15 de maio de 2025

O que é um afeto?

 

                                                       O QUE É UM AFETO?[1]

 

Há três ideias que são muito confundidas e empregadas como se fossem sinônimas, mas que na verdade se diferem quando as analisamos   mais de perto. As ideias são: emoção, sentimento e afeto. Essas ideias estão profundamente ligadas às vivências cotidianas, não sendo, portanto, algo meramente teórico. Daí a importância de sabermos distinguir essas ideias, tanto na vida pessoal quanto no campo profissional, sobretudo para aqueles que têm atividades criativas as mais diversas envolvendo o afeto, o sentimento e a emoção das pessoas.

Etimologicamente, “emoção” significa “ser movido”. Por exemplo, quando nosso rosto fica vermelho de vergonha, isso acontece porque nosso sangue é movido até à superfície da pele. Quando nossos pelos se eriçam de medo, é como se eles fossem movidos por um vento. A emoção é um movimento físico que acontece no corpo[2]. A emoção também pode gerar uma aceleração dos batimentos cardíacos, uma respiração ofegante e outros aspectos fisiológicos que podem ser aferidos por equipamentos[3]. A emoção é algo tão profundamente ancestral em nós, que ela envolve até mesmo movimentos involuntários que podem afetar os órgãos internos. Por isso, emoções fortes podem adoecer, tanto a mente quanto o corpo

Em geral, as emoções são os traços físicos que os sentimentos deixam, como se fossem as pegadas que um passante deixa na areia. Na verdade, sentimento e emoção andam juntos, eles se acompanham.

Hoje, há um longo debate acerca das seguintes questões: os sentimentos são naturais ou são construções culturais? Os sentimentos têm uma origem natural que é ressignificada de forma diferente conforme as culturas? Não há uma resposta única em relação a essas questões que envolvem diversas áreas de estudo. Mas é certo que sentimentos e emoções têm relação com comportamentos que remontam à origem do processo de hominização. Os autores parecem concordar que emoções e sentimentos são sentidos/vividos individualmente, porém recebem forte carga de codificação social[4].

Parece haver um lugar privilegiado no qual os sentimentos se deixam ver de forma mais direta. Esse lugar é o rosto, a face. Saber reconhecer um sentimento no rosto de alguém requer aprendizagem social, e esse é o princípio da empatia. Os psicopatas, por sua vez, são desprovidos dessa capacidade social associada aos sentimentos e emoções.

Enfim, medo, angústia, amor, alegria, ciúme, tristeza, etc. são sentimentos da alma que também se traduzem como emoção no corpo. Sentimentos e emoções surgem das situações da vida, possuindo uma natureza social e psicológica.

A palavra “afeto” deriva de um termo latino que significa “ser tocado”. Há uma proximidade entre o afeto e o sentimento, porém eles não significam a mesma coisa e nem são vividos da mesma maneira. Por exemplo, há um livro de Sartre que se chama A náusea. Na vida concreta, em meio aos encontros que fazemos com pessoas e coisas, podemos viver situações que geram náusea. Se a náusea for forte, podemos até passar muito mal. Mas quando lemos o livro de Sartre, não estamos diante de situações concretas, já que entramos em um mundo construído pelas palavras. Porém, quando lemos o livro e entramos em contato com as descrições que o autor faz de certas situações, também sentimos náusea! Mas essa náusea sentida foi produzida pela palavra literária, pela palavra artística, e não por pessoas ou coisas concretas. Apesar disso, a náusea que sentimos ao ler o livro é real:  como realidade do afeto.

O afeto é o sentimento depurado das condicionantes psicológicas, para assim ser recriado como experiência estética. Na literatura, o afeto está, ao mesmo tempo, na palavra e em nós. Portanto, o afeto não é puramente subjetivo ou psicológico, uma vez que ele é expresso em uma materialidade criada para dar-lhe vida, como o corpo da  palavra na literatura, o corpo das tintas na pintura, o corpo dos sons na música.

Portanto, toda arte expressa afetos.  A música é feita de sons que produzem afetos. A pintura é composta por paisagens e seres pintados que geram afetos. Quando olhamos uma noite estrelada podemos ter vários sentimentos: admiração, encantamento, espanto, sublimidade... À medida em que as horas avançam, o dia amanhece e aquela noite estrelada desaparece, vai embora, nunca mais retorna, e passa a viver apenas em nossa memória. Mas quando olhamos a pintura Noite Estrelada sobre o Ródano, de Van Gogh, vários afetos podem ser despertados, inclusive esses afetos podem reavivar os sentimentos guardados em nossa memória de alguma noite estrelada que já vivemos.

Uma imagem contendo Interface gráfica do usuário

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(Imagem 1: “Noite estrelada sobre o Ródano”, de Van Gogh. Acrescentei os versos do poeta Keats à pintura de Van Gogh)

Mas enquanto a noite estrelada que vimos no passado passou e foi embora, a noite estrelada que Van Gogh pintou nunca passa: ela conquistou a eternidade. Não a eternidade de uma vida após a morte, e sim a eternidade de uma vida que nunca morre, uma vida (re)criada como arte. É por isso que essa obra é conservada: o que se conserva nela não são apenas as tintas, mas o afeto que as tintas expressam. Sabe-se que as tintas que Van Gogh empregou para pintar não eram de boa qualidade. Mas a riqueza das obras não está nas tintas em sua materialidade, a riqueza se encontra nos afetos que Van Gogh eternizou em suas pinturas.

Quando a vereadora Marielle Franco era viva, a visão da porta do seu gabinete gerava vários sentimentos acompanhados de emoções, pois era uma porta na qual estavam colados adesivos com diversas mensagens que traduziam a luta de Marielle por justiça, igualdade e dignidade. Hoje, essa mesma porta se tornou parte do acervo do Museu da Maré. Através da porta, Marielle revive e nos afeta, pois a porta expressa afetos que mantêm viva a luta de Marielle.

 

Tela de jogo de vídeo game

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(Imagem 2: a porta do gabinete da vereadora Marielle Franco)

 

Enquanto os sentimentos podem desaparecer quando alguém não os sente mais, ou quando aquele que os viveu deixa de existir, os afetos permanecem nos signos criados para serem seu corpo. Quando era parte do gabinete da vereadora Marielle, a porta não era percebida como signo, já que ela era usada segundo sua função. Mas a realidade semiótica já estava nela, porém apenas em potência, da mesma maneira que o afeto está em potência nos sentimentos que vivemos em nossa vida cotidiana.

Enquanto pintava o quadro Noite Estrelada sobre o Ródano, certamente Van Gogh sentia sentimentos que o emocionavam, sentimentos esses acompanhados de emoções que faziam seu coração bater mais rápido e sua respiração ofegar. Mas Van Gogh não ficou restrito apenas aos sentimentos e à vida psicológica subjetiva, ele se agenciou com as tintas e as fez de corpo para com elas recriar o Céu Estrelado que via. Ele fez a potência se tornar ato: ele transmutou o sentimento em afeto, de tal maneira que aquilo que ele viu e sentiu sobreviveu a ele mesmo, oferecendo-se como arte para que a gente, ao ver o quadro, também veja e sinta o que ele viu e sentiu. Nunca a gente vai conseguir ver o céu que ele viu pessoalmente e que lhe gerou sentimentos, a gente vê através do quadro o céu que Van Gogh pintou ao transmutar seus sentimentos em afeto partilhado. Ao olharmos o quadro, a gente não vê o céu que Van Gogh viu pessoalmente, a gente vê a visão do céu que Van Gogh eternizou, eternizando a si mesmo no corpo expressivo das tintas.

Arthur Bispo do Rosário viveu imensas dificuldades na vida, dificuldades sociais, financeiras, preconceitos, exclusões...Tais dificuldades produziram sentimentos e emoções demolidores, mais do que ele, ou qualquer um de nós, poderia suportar. Bispo do Rosário surtou, desmoronou por dentro...Foi através da arte, bordando afetos, que ele conseguiu de alguma maneira pôr-se de pé novamente. O afeto é conquista de saúde: ele também pode ter um efeito clínico.

Imagem digital fictícia de personagem de desenho animado

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(Imagem 3: “Manto”, de Arthur Bispo do Rosário. Aberto, o Manto se assemelha às asas de uma borboleta, como se expressasse a metamorfose do sentimento em afeto)

 

Em seu livro Arte Poética, Aristóteles se debruça sobre as artes, sobretudo o teatro grego, para argumentar acerca de qual seria a principal “finalidade” da arte. Para ele, a principal função da arte é produzir uma catarse.  Essa palavra vem do grego katharsis, que significa “limpeza”, “purificação”. Originalmente, essa palavra designava o efeito que a água do mar produz em quem se banha nela. Pois o sal da água do mar sara feridas no corpo, além de ajudar igualmente a sarar feridas na alma. A água do mar limpa, purga.

Aristóteles transpôs essa palavra para aplicá-la ao efeito que a arte produz em quem entra em contato com ela. A arte tem a potência de expurgar os sentimentos represados e reprimidos, liberando a energia retida por emoções negativas. A arte libera essa energia emocional, provocando dessa maneira o efeito catártico.

 No palco, os atores não estão sentido raiva, ódio e rancor de verdade. Sobre o palco, há afetos que os atores expressam mediante seus gestos, expressões faciais e voz. O afeto artístico é o sentimento reelaborado. Na vida, os sentimentos negativos podem adoecer quem os sente, ou provocar violências que podem resultar até mesmo em crime (como os crimes de ódio e vingança). Mas ao entrarem em contato com esses sentimentos transformados em afetos artísticos, essa experiência pode exatamente levar o espectador a perceber os efeitos perniciosos dos sentimentos e emoções, quando eles nos fazem de marionetes, roubando nossa autonomia. Por isso, o teatro grego tinha igualmente uma dimensão política, uma política dos afetos em favor da democracia.

Uma obra de arte não é sentimentalismo, tampouco é algo apenas pessoal. Uma obra de arte é afeto, isto é, transformação do sentimento pela reelaboração estética que cria um mundo que amplia e potencializa nossa sensibilidade e pensamento, fazendo-nos sentir e pensar. Somente a arte tem a capacidade de dar concretude aos afetos, possibilitando que possamos partilhar o que sentimos e aprendermos com isso, como conhecimento[5] e autoconhecimento.

Não é errado chamarmos de “afeto” os sentimentos que sentimos em nossa vida pessoal no encontro com situações e pessoas. Porém, a obra de arte depura esses sentimentos e os transmuta em afetos, isto é, em signo. É por esse motivo que uma obra de arte, ou um objeto exposto em uma exposição, expressam afetos[6]. E tanto quanto os sentimentos, os afetos de uma obra de arte também podem nos produzir intensas emoções, porém nos permitindo pensá-las através de um pensar do qual também participam ativamente a sensibilidade e o corpo.

Pensar os afetos através das artes pode ter um efeito positivo na nossa relação com nossos sentimentos e emoções, levando-nos a ser menos passivos e dominados por eles , aprendendo a reelaborá-los para que potencializem nossas ideias e ações, tanto no campo pessoal quanto profissional.

Nietzsche dizia que os artistas são “os médicos da civilização”. Creio que podemos interpretar essa frase de Nietzsche no sentido que estamos apresentando aqui neste texto. O artista trabalha sobre si mesmo, inclusive empregando seu inconsciente. Ele não fica refém de seus sentimentos, e é por isso que não se deve reduzir o sentido de uma obra artística à dimensão pessoal e biográfica do criador. Sem dúvida, Van Gogh teve medos, inseguranças, raivas, decepções... Mas sua obra não é um efeito desses sentimentos. Ao contrário, sua arte é transmutação desses sentimentos em afetos depurados do aspecto meramente psicológico, subjetivo e pessoal. E é por isso que as obras dele nos afetam tanto e, através delas, podemos ver o quanto que elas são um exercício de superação, transmutação e potencialização da vida.

Deleuze ensina que “a literatura é uma saúde”. Podemos acrescentar ainda: não apenas a literatura é uma saúde, mas todas as artes o são, desde que nelas possamos experimentar e viver o afeto.

 

 

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton luiz.

[2] “Emoção” também tem por sinônimo “afecção”.

[3] O “detector de mentiras”, por exemplo, não analisa o aspecto semântico da fala, mas o registro emocional aferível por movimentos involuntários do corpo.

[4] Uma boa referência contemporânea sobre esse tema é este livro: Ces émotions qui nos fabriquent – Ethnopsychologie des émotions  ( Essas emoções que nos fabricam – Etnopsicologia das emoções) , de Vinciane Despret (Editora Le Seuil, 2001). Infelizmente, essa obra ainda não está traduzida para o português. Mas a autora do livro não chega a fazer essa distinção entre emoção, sentimento e afeto que apresentamos aqui, cuja referência principal é a obra Ética, de Espinosa. Não por acaso, a psiquiatra Nise da Silveira, idealizadora do Museu de Imagens do Inconsciente, também se apoia em Espinosa ao empregar a arte como elemento terapêutico (embora essa distinção que estamos fazendo aqui também não se encontra diretamente no livro de Nise sobre Espinosa, cujo título é: Cartas a Espinosa ( participei recentemente, fazendo uma palestra, do lançamento de uma nova edição desse livro).

[5] Não por acaso, a palavra “musa” significa: “conhecimento que vem das artes”, pois as Musas eram as divindades associadas às artes. Não apenas os poetas, os atores e os cantores evocavam as Musas para os auxiliarem na criação de suas artes, os primeiros filósofos igualmente pediam a inspiração das Musas, mostrando assim que pensar também é uma forma de arte.

[6] O objeto exposto e que expressa afetos se torna o que Deleuze, inspirando-se em Artaud, chama de “Corpo Sem Órgãos”. Aqui, “órgão” é tudo aquilo que se explica por uma função utilitária. Quando é exposto, um objeto se torna um corpo expressivo que não pode ser explicado apenas pela ideia de função, isto é, mediante um sentido utilitário ou “orgânico”. Quando Espinosa, em sua Ética, afirma que “Ninguém sabe tudo o que pode um corpo”, ele também está se referindo a ações que não se explicam pelo aspecto orgânico e funcional do corpo, incluindo a ação de nos afetar de ideias e emoções agenciadas. Quando a bailarina dança, por exemplo, ela põe em ação seu Corpo Sem Órgãos; quando a cantora canta, igualmente é seu Corpo Sem Órgãos que se expressa por ela. Quando o poeta escreve seus versos, o corpo da palavra não se explica mais pela funcionalidade da gramática, uma vez que a palavra, ela também, se torna um Corpo Sem Órgãos, um corpo expressivo.  A porta que pertencia ao gabinete da vereadora Marielle Franco, e que agora está exposta no Museu da Maré, não é mais um corpo com uma função utilitária, uma vez que ela agora se tornou um Corpo Sem Órgãos, um “corpo sem função utilitária”, um corpo expressivo que expressa ideias e afetos. A realidade expressiva-afetiva do Corpo Sem Órgão não é uma diminuição do corpo funcional-orgânico; ao contrário, é uma potencialização.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Pepe

 

Espinosa ensina que é equivocada a ideia de que “os fins justificam os meios”. As maiores atrocidades políticas da história foram feitas com base nesse dogma, pois muitas vezes quando os meios são obtidos, os fins são esquecidos, traídos ou   vendidos, muito antes de serem alcançados.  

Para Espinosa, são os meios que são decisivos: são os meios escolhidos que determinam os fins.  Se o fim que escolhermos alcançar for a justiça social visando   uma sociedade mais igualitária , inclusiva e  fraterna, nunca podem ser meios para tal fim coisas como dogmatismo ( religioso ou político)  ,  “tecnicismo mercadológico” ou a concentração de poder .

O meio é o caminho a ser feito e criado, muitas vezes abrindo rochas e enfrentando desertos. Como diz Manoel de Barros: “Não preciso do fim para chegar.”

O simpático fusquinha azul de Pepe Mujica é mais do que um meio de transporte : o simpático fusquinha representa a  simplicidade , a generosidade e a modéstia escolhidas como meios para transportar uma vida que, exemplo para todos nós,  uniu a teoria à prática.

 Como ele mesmo dizia: “Pobre é quem precisa de muitas coisas para viver, e rico é quem escolhe a simplicidade do necessário.”







sábado, 10 de maio de 2025

O tato / delírio ôntico

 

Dos cinco sentidos que possuímos , o tato é o mais ancestral.Muitos seres vivos não têm olhos e nem ouvidos, porém possuem algum tipo de tato. Pois não existe ser vivo que não possua tato. É pelo tato que o ser vivo toca e é tocado.

De tato  vem “contato” enquanto “tato mútuo”.  Não só os corpos fazem contato quando se abraçam, também fazem contato as almas quando se entendem mutuamente.

A palavra “afeto” se origina de um verbo latino que significa “ser tocado”. Assim, o afeto é uma questão de tato: tato consigo, tato com os outros, tato com o universo. Muitas vezes, não basta ter olhos e ouvidos para compreender uma situação, é preciso ter tato.

Solidariedade, tolerância, justiça, conviver democrático das diferenças...Tudo isso pressupõe , primeiramente, tato social. Ser empático, por exemplo,  é ter a sensibilidade tocada pela existência do outro, já a falta  dessa forma de tato humano caracteriza  os psicopatas.

De tato também vem “intuição”. Pois enquanto a “dedução” é um procedimento lógico-abstrato, a intuição é um contato imediato e concreto com  realidades externas e  internas.

Todos os outros sentidos vieram do tato. O gosto, por exemplo, é o segundo sentido mais ancestral, e nasceu também do tato. Sentimos  o gosto quando algo toca/afeta nossa língua e boca.

Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno. E ninguém descobre a importância do ler e do pensar se não desenvolver, antes, o gosto pela leitura e pelo pensar. Pois o gosto não é algo meramente teórico, o gosto está envolvido com nossa vida e nossas ancestralidades  corpóreas .

Mesmo a visão, considerada o sentido mais intelectual e espiritual, mesmo ela nasceu do tato! Isso aconteceu há milhões de anos , e tem por personagem  um ancestral nosso que vivia debaixo d’água. Ao ser afetado/tocado pela luz, esse ancestral conseguiu fazer com que parte da pele dele se especializasse em sintetizar as ondas luminosas. Ele passou essa capacidade  para seus descendentes e, com a evolução, surgiu  uma abertura ao mundo visível:  nasceu a visão. Sem a inventividade desse ancestral submerso nas cristalinas águas, não teria podido  surgir Platão e sua contemplação do Mundo Celeste...

Ninguém melhor do que Clarice Lispector compreendeu essa potência  inesgotável do tato enquanto “(re)descoberta do mundo”.

Ela dizia que escrever não é retirar de dentro da cabeça ideias prontas  já conhecidas e pensadas. Escrever é pôr-se na ponta dos pés, elevando-se o máximo possível , mas sem perder o con-tato com a terra.

Depois , esticar os braços e mãos o máximo que pudermos , para  com a ponta dos dedos do pensamento tocar e colher, com o tato do afeto, o fruto que nasceu da árvore mais alta, e que parecia, aos olhos,  inalcançável.

 

“O mais profundo é a pele.” ( Valéry)

“É pelo tato que a fonte do amor se abre.”(Manoel de Barros)

“A visão  é o tato do espírito”.  (Fernando Pessoa)




 

 

O livro de Clarice é apenas uma sugestão. Manoel de Barros, por sua vez, dizia que poesia é "delírio ôntico". Enquanto o "delírio mórbido" é delírio por poder movido pelo ressentimento e pelo ódio que negam a realidade, o "delírio ôntico" é enriquecimento e potencialização da realidade . "Ôntico" tem por raiz o termo "on", que é "ser" em grego. Assim, o delírio ôntico é criação de novos sentidos para o estar e o ser. Creio que é de um delírio ôntico que se trata quando Belchior diz que "meu  delírio é por coisas reais", pois "amar e mudar as coisas me interessam mais":



sábado, 3 de maio de 2025

A lápide

 

Espinosa dizia que a filosofia não é uma reflexão sobre a morte, e sim sobre a vida, sua  pluralidade e potência . A Vida nunca termina: ela se metamorfoseia.

Recentemente conversando com uma amiga, partilhei com   ela como eu gostaria que fosse a metamorfose que me fizesse permanecer na Vida.

Não ambiciono outra vida no “Além”. Queria continuar numa vida que vicejasse aqui no seio da Mãe-Terra, como a vida verdejante de uma árvore.

Amo livro e árvores. O livro é para a  árvore o mesmo que a borboleta é para a  lagarta: pois o  papel que um dia foi árvore , no livro ele ganha as asas da palavra.

Contudo, para quem escreve um livro a continuidade conquistada é apenas “letral”, porém  metamorfosear-se  numa árvore é fazer parte do  Livro da Vida.

Como amo viver, espero que ainda esteja muito distante o meu “desacontececer”  ( “desacontencer” é criação de Manoel de Barros ). Mas quando eu “desacontecer”, não quero  ir para debaixo do chão. Prefiro que envolva meu corpo o fogo de que fala  Heráclito , fogo-arquetípico da Vida Imortal.

Assim, não é ao nada das cinzas  que serei reduzido, e sim ao que houver  em  mim de sumo e adubo. Depois quero ser lançado nas raízes de uma amendoeira , ser sorvido por ela e dela fazer parte. Pois a amendoeira é minha árvore favorita.

A amendoeira é prima das oliveiras, e veio clandestina do Oriente  como semente  incrustada na madeira de uma  nau portuguesa que atravessou os oceanos. Nas terras sábias do Oriente, onde  Sherazade derrotou  o patriarcal Sultão, a amendoeira era conhecida como “a árvore mais resistente”.  

Mas não desejo ser lançado nas raízes de uma  amendoeira vivendo em terreno cercado com dono e proprietário, nem quero que seja  uma amendoeira perto de estradas por onde passam carros neuróticos , apressados. Também prefiro que não seja  uma amendoeira isolada,  inalcançável .

Queria então que fosse meu  novo corpo  uma amendoeira que fizesse parte da Floresta da Tijuca, um espaço amplo , horizontado, sem cercados.

Não queria que fosse     uma  amendoeira perto de trilhas muito frequentadas, prefiro uma  amendoeira que somente poderá ser encontrada  por aqueles que amam descobrir caminhos novos: e que a estes a amendoeira possa oferecer sombra e  proteção .

Entrarei pelas raízes e atravessarei o tronco; me multiplicarei depois pelos galhos  até alcançar  a verdez dos brotos. Quero estar perto dos ninhos, sobretudo os de bem-te-vis e  pardais, para quem sabe me tornar um deles e pôr para correr os carcarás...

E que a lápide a dizer quem fui não traga meu nome ou datas: que a lápide  seja  apenas a amendoeira florescendo em maio, mês em que nasci.

 

 

“Sou tua árvore da guarda e simbolizo teu outono pessoal.

Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura.”

( esta epígrafe escolhida para o texto que escrevi é de  “Fala, amendoeira”, de Drummond; pintura: “Amendoeira em flor”/ Van Gogh)



"Por coisas singulares entendo coisas que são finitas e têm existência determinada. E se vários indivíduos concorrem em uma ação de forma que todos juntos são causas de um efeito, considero-os todos, nesta medida, como uma coisa singular."(Espinosa)









quinta-feira, 1 de maio de 2025

Dia do Trabalhador

 

No livro “1984”,  George Orwell mostra que  um  poder t1rano não se mantém apenas com a violência física, ele também se serve da violência simbólica : apagando  certas palavras  do uso público para assim tentar eliminar  também da realidade seu sentido e prática.

Parece estar acontecendo isso com a palavra “trabalhador”, que o poder do Capital tenta apagar colocando no lugar “colaborador” ,isto é,  colaborador do Capital .

Quando a França foi ocupada pelos n4zistas, eram chamados de “colaboradores” os franceses que , de forma submissa, faziam o que os dominadores n4zistas mandavam.

Não por acaso, o nome “colaborador” nasceu da boca dos patrões para designar o trabalhador que não se envolvia com sindicatos, greves, luta por direitos... “Colaborador” é, na visão do Capital, o “trabalhador homem de bem”.

No dia de hoje,  O Globo e Folha falam em   “Dia do Trabalho” , que é algo vazio, abstrato, “sem gente dentro”,  diria o poeta Manoel de Barros. O curioso é que em outras datas comemorativas eles não dizem “Dia da Medicina”, mas “Dia do Médico”, ou “Dia da Advocacia”, e sim “Dia do Advogado”, ou ainda “Dia do Ensino”, mas “Dia do Professor”. Por que no dia de hoje  a mídia corporativa tenta esconder aquele que  exerce o trabalho?  

Além disso, médico, advogado , professor também são trabalhadores: cada atividade é exercida para produzir saúde, justiça, conhecimento...Pode-se, claro, com elas ganhar dinheiro, porém o dinheiro assim ganho vem do trabalho, da produtividade com coisas reais. O Capital, ao contrário, não trabalha: ele explora quem trabalha.  

Uma das palavras mais bonitas em grego é “eudaimonia”. No coração dessa palavra está o nome “Daimon”, pois “eudaimonia” é : “estar na companhia de um bom Daimon”.  Em português,  “eudaimonia” é   “felicidade”.

 Para os gregos, assim como para nossos indígenas, a felicidade não é propriedade egoica de um indivíduo, a felicidade é agenciamento coletivo: impossível o indivíduo ser feliz se a pólis está triste, tampouco pode o indivíduo ter saúde com a pólis  doente.

O Daimon é aquele que, fazendo-nos companhia, ajuda nas travessias. Mas o Daimon só nos faz companhia se aprendermos a ser companhia.

“Companhia” vem de “com-pane”. E “pane” é, em português, “pão”. Assim, fazer companhia é  saber “dividir o pão”. Companheiros: “aqueles que dividem o pão”.

Há o pão que alimenta o corpo: quando esse falta, vem a fome.  Quando um povo não aceita  ser rebanho de tir4nos,  nasce nele    a fome por outro pão: o pão da dignidade e da justiça, pão que  tem o fermento da arte, da educação e da poesia,   pão que alimenta a luta.

 Creio que “colaborador” e “empreendedor” são termos que propagam a ideologia  de que o outro não é um companheiro, mas um “competidor”.

Mas ser trabalhador  é saber-se companheiro das lutas comuns de todo trabalhador pela conquista e partilha dos dois pães: o que alimenta o corpo e o que nutre/liberta o espírito.



Os filmes de Ken Loach são sempre uma ótima pedida para dias como hoje. Terra e Liberdade é um dos meus preferidos:




 

quarta-feira, 23 de abril de 2025

A espada de São Jorge

 

Durante a pandemia perdi uma tia muito querida, uma segunda mãe para mim,  e sei que muitas amigas e amigos passaram por uma dor assim , com perdas semelhantes.

Algum tempo depois, tive um sonho muito marcante com essa minha tia. No sonho, ela me dava de presente um pequeno vaso com duas folhas de Espada de São Jorge , um caderno e uma caneta .  Ela não disse nada, mas seu gesto e expressão  diziam muito. Depois, ela me abraçou calorosamente e se foi...

A Espada de São Jorge  representa não apenas  luta contra a opressão ( tanto as opressões físicas como as  simbólicas), ela  também simboliza proteção. Foi  com ela que São Jorge enfrentou o “Dragão da Maldade”,  como dizia o cineasta Glauber Rocha.

Atena, a deusa da sabedoria, também emprega uma espada assim nas lutas contra o monstro da ignorância  e suas obscuras e diferentes faces.  E Thêmis, a deusa da justiça, igualmente segura  uma espada semelhante, instrumento da dignidade.

A espada de São Jorge também é lança de Ogum-Zumbi que não se curva à Casa-grande; essa espada também pode ser  o fio de Ariadne com o qual Bispo do Rosário bordou suas resistências criativas; e libertário é  quem escreve tendo uma espada assim transformada em caneta,  lápis, giz.

A primeira coisa que fiz quando acordei na manhã seguinte ao sonho   foi ir a uma loja de plantas aqui do bairro . Encontrei num cantinho um pequeno vaso com duas folhas de Espada de São Jorge . Elas precisavam de luz, água, enfim, cuidados. Eram as Espadas de São Jorge mais parecidas com aquelas que minha tia me presenteou desde a eternidade.

Também comprei um caderno e uma caneta semelhantes àqueles que minha querida ancestral me deu, e é nele que anoto meus escritos ( antes de digitá-los).

Todo dia cuido dessas Espadas de São Jorge e penso em minha querida tia. Elas cresceram rapidamente, tanto que precisei trocar de vaso para não impedir o horizontamento delas. De duas folhas que eram   , agora se multiplicaram: já são oito ! Elas também já  floriram,  recebendo  a visita de um beija-flor...E hoje pela manhã , bem cedinho, notei que ganhei um presente:   outra folhinha nova está brotando...

Com perseverança diária, precisamos  regar  tudo o que precisa ser regado: planta, ideia, afeto, ação, liberdade. Para que em  tudo isso encontremos uma  espada, um instrumento de resistência e luta,  que nos proteja dos “dragões da maldade”...

 

(Imagem: “São Jorge”/ Kandinsky)








 

domingo, 20 de abril de 2025

Cristo e os Colegiantes

 

Cristo também foi um prisioneiro político. Os poderosos de então diziam ser Cristo um “subversivo” . Esses poderosos compraram com dinheiro um dissimulado para ser o traidor e acusador de Cristo.

Depois o exército e a polícia da época colocaram   em marcha a vingança ressentida dos poderosos: Cristo foi então  preso e torturado, e os torturadores torturavam Cristo zombando e rindo.

Alguns torturadores de Cristo zombavam de sua dor imitando seus gemidos, tal como recentemente um fã de torturadores imitou, zombando ,  o sofrimento daqueles que a pandemia vitimou.

Antes de ser julgado, Cristo já estava condenado, pois o ódio sempre condena antecipadamente o amor quando vai julgá-lo, sobretudo quando o amor se torna uma prática revolucionária.

Porém , as ações de Cristo , como as de Zumbi e Dandara, continuam vivas naqueles aos quais os poderosos chamam de “subversivos”, ontem e hoje.

Espinosa foi xingado, ameaçado e excomungado .  E foi no seio de uma comunidade que procurava imitar  as ações de Cristo que Espinosa encontrou apoio e guarida. Essa comunidade se autointitulava “Os Colegiantes” , pois para eles Cristo era o mestre cuja lições pediam um aprendizado diário e constante, um aprendizado realizado através de ações, mais do que pela leitura da Bíblia .

“Jesus” , termo hebraico, é um nome; porém “Cristo” , palavra grega, é uma condição que vai além da questão religiosa, e isso talvez explique porque Deleuze chama Espinosa de “o Cristo dos filósofos”.

Entre os Colegiantes, Espinosa se sentiu de alguma forma parte daquela comunidade,   mas não pelo aspecto religioso, e sim  ético-político . Mesmo porque os Colegiantes  não tinham  igreja, padres, sacerdotes ou pastores.  Eles  procuravam imitar , em ações e não em palavras, Cristo e Francisco. Enfim, era uma comunidade composta por Júlios e Júlias Lancellottis.


( imagens : “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado pela polícia durante evento que o padre fazia na Semana Santa para auxiliar  os moradores de rua e sem teto)





 

 




 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Manoel de Barros : o monturo

 

Dia desses uma turma me perguntou qual poema de Manoel de Barros eu mais gosto. Respondi que eram muitos os poemas... Mas para não deixar a turma sem resposta, mencionei o poema no qual Manoel fala de um “monturo”.

Notei um ponto de interrogação no rosto de muitos alunos, e um deles me perguntou: “Professor, o  que é um monturo?” Antes que eu respondesse , outro aluno abriu rapidamente o celular e digitou alguma coisa. Voltando-se para mim, falou: “Professor, a Inteligência Artificial do google está dizendo que  ‘monturo é um monte de lixo’ ”.

Com humor, retruquei : “um monturo não é exatamente um monte de lixo,  talvez a IA não tenha sensibilidade para entender essa diferença”, e a turma, concordando , riu.

Prossegui dizendo que o poeta não fala de um monturo literal, mas de realidades que podem se tornar um monturo. Para continuar explicando  o que era um monturo, precisei narrar o poema, que diz mais ou menos o seguinte:  

Passando certa vez por um lugar ermo, Manoel viu um monturo. Num  monturo estão coisas que já deram sentido a uma vida, coisas que eram   partes de um todo,mas que agora são apenas fragmentos que a natureza recolheu sem julgamento ou desprezo.

No monturo podiam ser  vistos:  os cacos do que sobrou de uma taça que outrora já esteve repleta de vinho  ; os restos de um diário cujos dias anotados há muito viraram passado   ;  a metade de uma concha que talvez já tenha guardado uma pérola dentro; as penas que já voaram  no céu aberto como partes de uma asa; a casca seca de uma cigarra que já encheu de cantos a floresta; a mortalha  de folhas amarelas que vicejaram  verdes  na primavera; os  ponteiros parados de um relógio que já marcaram horas apressadas ; um pé de chinelo solitário e  roído pelos anos em  seu solado gasto ; um álbum de retrato cujas fotos  o esquecimento apagou.

Junto a esses restos  também estavam: cacos de certezas que pareciam inquebrantáveis ; farrapos de verdades que pareciam eternas...

Mas debaixo do monturo aconteceu uma surpresa, um “milagre poético”: sob os cacos e pedaços, uma semente ainda estava inteira . E depois de a chuva regar o monturo e o sol o aquecer, o tempo sarou o monturo e deu à semente forças para germinar.

      Da semente brotou  um caule em  rascunho  . O caule   se enroscou e subiu por um pequeno raio de sol que furou a noite do monturo. E do túmulo que o monturo era, a perseverante  semente fez dele um útero do qual nasceu uma flor: um reluzente  lírio.

 

 

"Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético.”

(Manoel de Barros)

 “A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia,

 e pela dor eu descobri o poder da alegria.”

(Belchior)

 

(imagem: “O semeador”/ Van Gogh)



 






sexta-feira, 11 de abril de 2025

ética e deontologia

 

Os jornais estão dizendo : “políticos se reúnem no Conselho de Ética da Câmara para votarem a cassação do  deputado Glauber Braga”.  Porém, a palavra “ética” está mal-empregada nesse caso. O termo adequado é “deontologia”, que significa: “conjunto de obrigações que pauta  uma prática profissional”, seja ela qual for.

“Ética” vem de “éthos”: “caráter” ( enquanto disposição da alma). O correto então seria dizer: “ Comissão de Deontologia Parlamentar”, e não “Conselho de Ética”.

Qualquer grupo , para manter-se coeso, estabelece obrigações de conduta para os indivíduos que dele fazem parte. Até mesmo facções crimin0s4s, nas quais o cr1me é “profissional” ,  têm deontologias, às vezes até mesmo escritas, como se fossem um regimento!

Porém, nada há de ético nessas facções, embora possam   haver julgamentos. Por exemplo,  quando o b4ndido de uma facção fere as “regras” da qu4drilha , é sempre outro b4ndid0 que vai julgá-lo ( no chamado “tribunal do cr1me”), e não um homem justo e ético, pois homens éticos não fazem parte de facções.  Ou seja,  julgar segundo “regras” estabelecidas por eles  até b4ndidos podem fazê-lo. O que b4ndidos nunca podem fazer  é agir de forma ética.

A ética é uma disciplina da filosofia, e é ela que nos permite questionar facciosos que se travestem de parlamentares para fazerem negociatas com o erário público.

Há políticos “profissionais” , mas não há éticos profissionais, pois ninguém pode ser justo ou honesto por profissão, já que ser ético é uma questão de caráter, e não de competência profissional, lícita ou ilícita.

Como diz Oscar Wilde: “Às vezes o voto da maioria nada mais é do que a vitória da f4cção mais numerosa”, como essa f4cção parlamentar sem caráter que quer  cassar o mandato do combativo e corajoso deputado Glauber Braga.

A deontologia profissional é legítima e necessária, claro. Mas ela é somente letra no papel se o profissional não tiver ética. E ética não é uma competência técnica, mas uma disposição humana, empática, solidária, justa e politicamente emancipadora. 

 

#Glauberfica.




 

sábado, 5 de abril de 2025

A flor do ipê

 

Ela se chamava Maria Madalena. Nasceu na favela Nova Holanda, de pai desconhecido. Aos 13 foi abusada,  ficando grávida do traficante do lugar. Mas pouco viveu o recém-nascido: secou a semente antes do broto desabrochar.

Aos 15 Maria Madalena foi viver na rua, sendo usada como   put4 por  muitos que só a queriam explorar : seguranças, policiais... vários se aproveitavam dela   sob a máscara de fingir ajudar;  havia ainda os autointitulados “homens de bem” , que tinham prazer  em a apedrejar.

Aos 18 ela parecia ter 30 a mais: enquanto a anestesiavam etílicos sonhos, vinha o tempo feito um ladrão roubar seus anos, sem dó , sem pena.

Padres, pastores, pais de santo, ungidos...todos diziam que a poderiam recuperar.

Um chegou a  dizer que sua vida era castigo, culpa de outra vida, karma a lhe pesar.

Maria Madalena pegou de novo barriga, novamente a perdeu. Seu corpo era todo ferida, mas lhe doía mais a alma que enlouqueceu.                                    

Numa fria madrugada, ela caiu junto a um ipê perto da Lapa, entre sacos de lixo e urina de cão.

Ela caiu perto da raiz, e só a aurora testemunhou sua transmutação: o ipê a sorveu para dentro de si, a limpou de toda sujeira mundana, sarou-lhe as feridas insanas, a alimentou com seiva até  Madalena com o ipê se fundir.

Naquela manhã , uma nova flor  de vívida cor púrpura  o ipê ao céu fez florir.

 

( A flor do ipê é uma das poucas que floresce durante todo o ano, mesmo no inverno. O ipê nos ensina que é possível ser resistente, sem perder a beleza.

Nossos indígenas diziam que o ipê protegia Pindorama, a ancestral Mátria. Na mitologia tupi-guarani, um dos sentidos de Pindorama é: “terra onde os maus são vencidos” .  

Os colonizadores tentaram acabar com o ipê, porém não conseguiram. Então, descobriram que podiam ganhar dinheiro sangrando uma árvore chamada pau-brasil, cuja resina avermelhada corre no tronco da árvore como em nossas veias o sangue.

Foi a partir do comércio dessa resina cor de sangue que a terra explorada ganhou novo nome, sendo então chamada de “Brasil” pelos seus algozes.

Na boca dos pseudonacionalistas  de hoje , “Brasil”  continua sendo  o nome da vítima explorada , como a  “Madalena”  da história, oferecida por eles  ao colonizador-patriarcal  da hora: Trump.

Nada contra o verde e amarelo, mas prefiro  a bandeira da autêntica independência e resistência que os ipês pintam   em púrpura, rosa, branco e amarelo, as cores ancestrais de nossa Mátria-Pindorama)


"Se o homem é formado pelas circunstâncias, 

é necessário formar as circunstâncias humanamente."

  (K. MARX E F. ENGELS, A Sagrada Família )