terça-feira, 19 de maio de 2015

manoel de barros: da necessidade de aprender a desaprender




Não sou da informática,
sou da invencionática.

Manoel de Barros


(trecho do livro)

Uma influência especial em Manoel de Barros: Paul Klee. Manoel de Barros se apropria, à sua maneira, da Máquina de Chilrear de Klee, e a faz de ferramenta de sua oficina poética . Este pintor ensinou-lhe a necessidade de "aprender a desaprender" - que define muito bem o que aqui chamaremos de devir-criança, e que tão presente está na obra de Manoel de Barros: “palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Por isso, completa o poeta,

Palavras
Gosto de brincar com elas.
Tenho preguiça de ser sério.

De sua parte, Paul Klee impôs a si mesmo uma espécie de “desaprendizagem”. Embora ele desenhasse de forma precisa e técnica, esta mesma precisão e técnica tornou-se uma fôrma e prisão para as imagens que ele queria exprimir. Uma fôrma/prisão que precisava ser quebrada para que , livres, as imagens pudessem fluir. Então, ele passa a desenhar com a mão esquerda. O artista descobriu-se novamente criança nesta mão: cada desenho era o desenhar de novo nascendo ─ fazendo-se como novidade, experiência e descoberta. Ao desaprender as formas e códigos da mão direita, Paul Klee redescobriu a pintura e a ele mesmo: reencontrou a alegria da criança cujo brincar e inventar é a coisa mais séria e verdadeira. Assim como a arte de Paul Klee,

A poesia tem a função de pregar a prática 
da infância entre os homens.



Paul Klee, Travessuras










sexta-feira, 8 de maio de 2015

o pote (manoel de barros)




A desgrandeza é de Deus.

Manoel de Barros


No poema Aventura o personagem  é um pote que Manoel de Barros  encontra abandonado encostado à natureza. Jogado ali de   barriga vazia para cima, o pote continha apenas , naquele estado de abandono, a presença da ausência do que outrora  o fazia repleto, cheio, desejável;e que o tornava  parte da mesa matinal de quem se alimentara do conteúdo que o pote entesourava. Findo este conteúdo , ficou vazio o pote: sem poder guardar a si mesmo, sem ter outra coisa a ofertar senão o vazio , o pote fora rejeitado, esquecido, abandonado pelos homens e suas utilidades, de tal maneira que apenas a natureza o quis. O pote já não  servia para nada, a não ser para metamorfoses, pois é isto que a natureza produz em tudo aquilo que, ao encostar nela, sofre um contágio, uma comunhão: "depois desse desmanche em natureza, as latas podem até namorar com as borboletas", diz o poeta. 

Houve um intervalo de tempo entre o primeiro encontro do poeta com o pote  e um outro encontro que veio a seguir. Neste intervalo , um passarinho passou voando atoamente  sobre o pote e cuspiu uma semente em seu  ventre vazio. Ali já havia areia e cisco trazidos pelo vento. Houve então um rascunho de coisa nova, um  encantamento , um poema: no ventre do pote milagrou  uma vida, nasceu um pé de rosas que ali desabrochou. "As chuvas e os ventos deram à gravidez do pote forças de parir".E onde antes crescia o vazio, agora crescia o amor: "se a gente não der o amor ele apodrece dentro de nós". E repleto ficou o pote da beleza que se oferta  sem nada pedir em troca.











quinta-feira, 7 de maio de 2015

pop'filosofia

(trecho do livro)


                                          INTRODUÇÃO À FILOSOFIA

                                                     

  
                                                          Serás menos escravo do amanhã,
                                                                              se  te tornares dono do presente.
                                                                         
                                                                                Sêneca

                                  
  
Dar uma definição rápida do que significa a filosofia não é tarefa fácil. Oriunda do grego, a palavra “filosofia”  nasceu da reunião de duas outras palavras: “philo”  e “sophia”. Em português, “philo” significa tanto “amor” como “amizade”. Isso quer dizer que a filosofia não é apenas algo intelectual ou racional, pois ela se nutre também de uma dimensão afetiva, expressa exatamente pelo termo “philo”.
“Sophia”, por sua vez, significa “sabedoria”. Assim, uma definição simples e geral da filosofia seria: “amor ou amizade pela sabedoria”. Visto dessa maneira,o filósofo não é apenas amigo da sabedoria, ele não é apenas um intelectual, ele também é um enamorado, uma vez que ele ama o que o faz ser o que ele é.
“Sophia” não é só teoria, fórmulas, razões.Ela também é Vida, Arte, Poesia.São a essas coisas que o filósofo dedica amor, são a essas coisas que ele se declara:ele  não se declara apenas falando, ele se declara também agindo, fazendo,criando; e faz disso seu modo de vida.
Sophia também pode ser um nome próprio. "Sophia",ou "Sofia", é o belo nome que muitos pais escolhem para chamarem a quem trazem à vida. Todavia,“Teoria” é tão abstrato que alguém vivo não se deixa chamar assim, tampouco  pode ser o nome de alguém “razão” ou “ciência”. Não dá para imaginar alguém se chamando “razão”!(embora muitos imaginam encarná-la e serem donos exclusivos dela...).
Assim, tal como uma pessoa que existe, a sabedoria só atende se for chamada pelo seu nome.Se alguém a chamar apenas de "razão" ou "ciência" ela não atenderá, ela não virará seu rosto para quem assim a chamar,mesmo que grite, mesmo que,com poder,ordene. Mas assim como uma pessoa é mais do que seu nome, a sabedoria é mais do que sabedoria, ela também é generosidade,coragem, modéstia,invenção.São nessas coisas que se pode  reconhecer também  a sabedoria.
Mas que sabedoria é esta? Em primeiro lugar, é preciso não confundir filosofia com ciência. A filosofia não é uma ciência, embora todas as ciências tenham saído dela. A Física, a Biologia, a Matemática, a História, a Medicina, a Economia...todas essas disciplinas nasceram da filosofia. Mas Física, Biologia, Matemática, etc, não são sabedorias, e sim formas de conhecimento.
A principal diferença entre a sabedoria da filosofia e o conhecimento da ciência  repousa no fato de que todo conhecimento científico  pressupõe um objeto. Por exemplo, nosso corpo pode ser objeto de conhecimento da Física, da Biologia, da Química, da Medicina, etc. Cada ciência faz um “recorte” sobre nosso corpo, para assim torná-lo objeto de conhecimento.  Ao fazer isso, a ciência perde de vista o todo, já que  nosso corpo não é apenas uma realidade física, biológica ou química, mas a reunião disso tudo e mais outras coisas. Ao realizarmos esse tipo de afirmação, buscando assim o todo ou a “essência”, entramos sem dúvida na filosofia...Ou melhor,nos damos conta de que nunca podemos sair dela.Pois enquanto a ciência disseca a realidade em partes separadas e estanques, criando assim um conhecimento especializado, a filosofia une e liga cada parte ao todo.Este todo não é um todo fechado à maneira de um círculo. Se o fosse, não seria o todo, mas apenas um conjunto, um  conjunto de coisas. E um conjunto de coisas também pode ser um objeto de estudo da ciência.
Por isso, o que a filosofia evoca e pensa nunca é um todo fechado.  Enfim, enquanto a ciência cria especializações, a filosofia procura por sua vez promover integrações. Integrar não é meramente somar ou adicionar. Integrar é fazer viver cada parte no todo que pode tornar cada parte   mais viva,uma vez que a faz viver ligada,unida,sem perder sua singularidade e diferença.
Durante o século XIX,  no auge do positivismo, muitas dessas ciências citadas não apenas desconsideravam a filosofia, como também afirmavam que ela não possuía nenhuma serventia para a humanidade. Muitas dessas ciências quiseram substituir a filosofia. Foi a época da ideologia cientificista (que Machado de Assis, no livro O Alienista, ironizara tão bem). Imperou nesse período o chamado “reducionismo”[1]. Ou seja, cada ciência achava que o objeto por ela estudado não era uma parte da realidade, mas a realidade inteira. Assim, os químicos achavam que tudo podia ser explicado quimicamente (inclusive os sentimentos humanos). Os biólogos, por sua vez, achavam que todo comportamento humano, inclusive aqueles considerados os mais nobres (como os comportamentos morais e éticos) , nada mais eram do que o efeito de condicionantes biológicos. No direito, por sua vez, esse reducionismo marcou o surgimento do positivismo na França, quando a lei escrita, posta pelo Estado, passou a ser considerada a única fonte de direito, tornando-se depois, o positivismo, uma ideologia. Radicalizando essa visão, Napoleão retirou o ensino de filosofia nas faculdades de direito da França.
Todavia,mais do que fazer de uma parte a verdade do todo,o que tal procedimento positivista fazia era tomar uma parte como um todo à parte.E o mais absurdo nos reservava o século XX, quando uma parte da filosofia,a Lógica, passou a pretender ser a filosofia inteira: tudo aquilo que não era lógico foi considerado palavra vazia sem sentido. Mas talvez não exista nada mais sem sentido do que a loucura, a loucura racional, de uma lógica que queira, enquanto parte, ser o todo... “Uma razão insone engendra monstros”, ensina-nos Shakespeare .
Assim, o retorno da filosofia como um tipo de saber necessário ao médico, ao biólogo, ao economista,ao museólogo, ao profissional do direito, etc, pode ser explicado  a partir da necessidade de esses profissionais integrarem suas atividades em uma perspectiva mais ampla, integrando-as à sociedade, e levando em conta não apenas o conhecimento técnico e especializado, mas também os valores éticos. Enfim, uma visão mais ampla da medicina enriquece a própria medicina e o médico que a exerce; assim como uma visão que integre o direito em uma perspectiva mais ampla do que a mera tecnalidade jurídica, enriquece igualmente o próprio direito e aqueles que se dedicam ao seu estudo e exercício profissional.
Mas se a sabedoria da Filosofia não possui objeto, no sentido em que o conhecimento da ciência o possui, então o que exatamente a Filosofia estuda?
A filosofia enquanto sabedoria espelha intimamente as principais atividades da alma humana.  Esta possui quatro atividades principais: pensarconheceragir e sentir. O conhecer é atividade realizada pela razão ou inteligência ( em seu sentido mais amplo); o agir, por sua vez, é uma atividade exercida pela vontade; enquanto o sentir é uma atividade realizada pela  parte de nossa alma designada como desejo ( ou sensibilidade). Razão, vontade e desejo são faculdades da alma humana. O pensar é uma atividade ou potência exercida pelo pensamento ( em grego,”nous”).Assim, pensar não é a mesma coisa que conhecer. Por exemplo, conhecer o direito é uma atividade que diz respeito à Ciência Jurídica. Mas pensar o direito é uma atividade exercida no âmbito da Filosofia Jurídica. Conhecer a vida é atividade da Biologia,ao passo que pensá-la cabe à Filosofia da Vida.Por isso, o pensar não é atividade de uma faculdade específica,uma vez que ele é uma atividade, um processo, que concerne à alma como um todo.
A parte da filosofia que trata do conhecer chama-se Epistemologia ( ou Teoria do Conhecimento).[2] A epistemologia é a parte da filosofia que interessa principalmente às ciências na medida em que estas procuram refletir sobre os seus métodos e procedimentos. O “objeto” da epistemologia é o próprio conhecer (enquanto atividade das ciências), e não o objeto que cada ciência  isolada estuda. Assim, embora a filosofia também exerça um tipo de conhecimento, este se difere daquele exercido pela ciência.  Enquanto o conhecimento, na ciência, aplica-se a um objeto, o conhecimento que a filosofia realiza se aplica sobre o próprio conhecimento da ciência, estudando principalmente como ele ocorre e quais suas bases.
A Ética e a Moral são as duas disciplinas filosóficas  que se ocupam do agir humano.  Por isso, estas são as disciplinas da filosofia que mais interessam  à Economia, à Política e ao Direito, pois estas três ciências  estão intimamente associadas ao agir humano, ou seja, à vontade enquanto faculdade.
 O sentir é uma atividade da alma humana  estudada por uma disciplina da filosofia intitulada Estética . Alguns desdobram o sentir também em fazer. Em grego, fazer se diz “poiésis”, nascendo assim o termo poética. O fazer da poética não é o mesmo que o agir da ética. Nesta, trata-se do agir humano,ao passo que o fazer da poética concerne ao criar uma obra de arte. E aqui pode nascer uma questão decisiva:se a obra a ser criada é  a própria vida que se leva, surge então uma íntima relação entre a arte e a ética, entre a poesia e como agimos/vivemos,nascendo assim o que Foucault chamava de “estética da existência”, que é, na verdade, uma “poética da existência”. Aqui, não apenas o fazer e o agir se revelam como arte, como também o próprio pensar: este se mostra então como criação e produção de sentido para a vida.
Por tratar das maneiras e capacidades da alma humana de sentir, a Estética interessa principalmente às artes ( pintura, cinema, música, poesia, etc.). Desse modo, através da Estética  a filosofia realiza uma interseção com as artes. É por isso que podemos afirmar que a filosofia não está apenas nos livros de filosofia, mas também nos filmes, nas músicas, nas poesias e nas pinturas ¾ na medida em que essas artes , tocando a nossa sensibilidade, faz-nos também pensar.
 É preciso deixar claro que o pensar, o conhecer, o agir e o sentir não são atividades  estanques. Afinal, para agir, por exemplo, é preciso sentir. Por outro lado, muitos danos podem ocorrer quando agimos sem pensar. E quem pensa sem sentir não pensa verdadeiramente.
Na história da filosofia vemos os filósofos discordarem sobre qual atividade é a mais importante. Os racionalistas, por exemplo,   conferem total supremacia à razão e pouca relevância à sensibilidade. Por este motivo, eles acreditam que somente podemos conhecer algo de verdade se nos afastarmos de nossa sensibilidade.  Por outro lado, há filósofos que   tendem a dar maior importância ao desejo e à sensibilidade,denunciando os excessos da razão.
 Conforme dizia o escritor Balzac, “quando a forma predomina, desaparece o sentimento”. Em nossa alma, a razão é a faculdade mais formal de todas. Daí seu perigo quando se confunde o pensar com o mero conhecer.
Então, através da Epistemologia a filosofia oferece elementos para as ciências compreenderem melhor seus métodos e procedimentos; por intermédio da Moral e da Ética a filosofia  estabelece um diálogo sobretudo com a Política e o Direito , fornecendo elementos críticos para se compreender tais atividades e estabelecer suas finalidades;  pela Estética ( e pela Poética)  a filosofia explora o mesmo território que as artes também exploram: a nossa sensibilidade. Mas de todas as atividades da alma a que mais caracteriza a filosofia é exatamente o pensar. O pensar é a mais importante atividade da filosofia justamente porque  ele não interessa apenas à filosofia, mas a todos enquanto conhecemosagimos e sentimos.  Portanto, sempre que procuramos seja pensar o que sentimos, seja pensar como e porque agimos  ou pensar o que conhecemos,  de imediato começamos a filosofar.
Pensar, enfim, é questionar.  A filosofia é a arte do questionamento.Pensar também é conceber. Conceber é criar. De conceber nasce "conceito": " o que foi concebido, gerado, produzido".Assim, um conceito nunca é achado pronto, ele nunca é ou está dado. Ele também é produzido, inventado. Aqui, poesia e filosofia encontram um rico diálogo, pois "inventar aumenta o mundo"(Manoel de Barros).












[1] “Reducionismo” significa: reduzir a complexidade e heterogeneidade  da realidade a apenas um aspecto, que é utilizado então para explicar tudo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

a arte das fugas





Eu pertenço de andar atoamente.

Manoel de Barros


A arte barroca também é a arte das fugas. Bach, o grande mestre barroco,  faleceu praticamente debruçado sobre uma Arte da Fuga que ele desejava produzir, deixando-a inacabada. As fugas se fazem a partir de uma linha que faz variar um tema, produzindo neste um sentido novo. A fuga implica um tema. A fuga é uma composição contrapontística. Fugir é , tanto na arte como na vida, compor-se com outro elemento em fuga, um outro ponto ou voz, de tal modo que é sempre compondo-se que se foge, e nunca isolando-se. Para haver a relação contrapontística, é necessário um tema comum aos elementos em fuga, tema este que os une em suas diferenças.
A fuga é uma repetição do tema expressa nos pontos diferentes em fuga. E todo ponto que foge, o faz em contraponto com outro que expressa o mesmo tema que o primeiro, mas em uma variação que se relaciona assimetricamente com o primeiro. A relação contrapontística da fuga é um agenciamento. É por isso que toda fuga é polifônica: ela possui múltiplas vozes, e cada uma diz o mesmo tema de forma diferente. Somente de forma contrapontística é que uma voz tem o que dizer. Isso a livra de emitir uma mera opinião que a isola ou a põe em choque com outras vozes, sem composição. O amor, a amizade e toda forma de relação somente potencializam aqueles que os vivem, e não os adoecem, quando se tornam temas para fugas que se fazem em ponto e contraponto, em composição.Quem assim vive, sua voz não emite mais uma opinião meramente pessoal ou egóica, uma vez que ela se torna a expressão de um tema que somente de forma polifônica, agenciado, se pode dizer e viver o sentido.
Deleuze e Guattari definem o desejo como linha de fuga .O desejo é contrapontístico, polifônico. O tema a partir do qual o desejo produz sua linha de fuga é sempre a vida. A vida é o tema para fugas polifônicas para aqueles que se afirmam no agenciamento que aumenta ainda mais a potência do desejo e, com ele, a potência da própria vida como tema. A linha da linha de fuga nunca se fecha em um contorno: ao contrário, ela impede que o tema se feche nele mesmo. A fuga não vem de fora do tema, ela lhe é imanente, e constitui o ponto onde o tema se expande, diferenciando-se internamente, aumentando de potência. A fuga não é um mero fugir ou escapar: ela faz fugir o próprio tema, desterritorializando-o em relação a si mesmo.Ao contrário do louco, que cria mundos paralelos, o artista/criador inventa mundos sem paralelo:"Inventar aumenta o mundo", já dizia Manoel.
 Deleuze e Guattari querem dizer que onde há o desejo sempre há uma linha de fuga que faz variar o tema que imaginávamos o mesmo. Assim, o desejo é produção de novas possibilidades para o que imaginávamos nunca poder ser de outra forma, a começar por nós mesmos.
Triste é aquele que quer fugir de si mesmo. E quem a isso quer, não faltam os meios: o prazer alienado e narcísico, os fanatismos religiosos ou de mercado ( ou a combinação de ambos) para isso servem; as anestesias ( químicas , sociais , midiáticas, políticas...) também funcionam para quem quer fugir de si mesmo, bem como as MBA’s em autoconhecimento ,ministradas por seus gurus e mestres bem pagos ; igualmente podem servir para fazer fugir de si mesmo o vender-se em troca das medalhas, dos títulos, das propriedades e bens, dos afetos e favores que fazem a glória de Mefistófeles. Em contraste, a prática de afirmação de si e autêntico autoconhecimento é linha de fuga que amplia e potencializa o que verdadeiramente somos. No autêntico autoconhecimento, somos o tema e a variação do tema, nascendo dessa variação um novo tema.O autoconhecimento, como virtude da alma, da qual nascem a generosidade e a salut, não é meio para obtenção de medalhas ou prêmios, pois a virtude, a virtu, é o próprio prêmio, assim como o verdadeiro prêmio do autêntico músico não se mede por quantos discos ele vende, mas pela potência de variação que ele foi capaz de produzir em um tema ,com o qual ele se liga sem interesse, apenas por afeto e amor à música.E isto que não se pode quantificar com números constitui a verdadeira riqueza.
A fuga sem um tema que com ela fuja é um mero fugir de si mesmo, ao passo que um tema sem uma fuga que o faça variar é como uma identidade rígida, máscara mortuária.Fugir não é se afastar, mas fazer avançar a partir de onde se está. E é sempre em um processo que estamos.Uma coisa é fugir de si mesmo, outra é fazer fugir si mesmo lá mesmo onde estamos, para assim fazermos do nosso existir uma singular expressão do Existir da Natureza em seu infinito variar.Como dizia Espinosa, este variar infinito é o tema que nos deve afetar na produção de nossa linha de fuga.
A lagarta é o tema, ao passo que a borboleta é a fuga.A letra é tema, mas o espírito é fuga. Tema é o prazer, embora fuga seja o desejo. A fuga não é sair para o exterior de um tema, mas fazê-lo variar a partir de um fora que lhe é imanente. Entre a variação e o tema se estabelece uma relação que não é de cópia ou imitação, pois se trata de uma relação assimétrica, na qual a variação, como repetição, produz uma diferença em relação à diferença que constitui o tema. É por isso que uma variação de um tema nasce a partir de uma dramatização espaço-temporal que a torna um acontecimento que nunca acontece duas vezes igual. Disso sabem Coltrane, Charlie Parker, Pixinguinha, Bach, Vivaldi, bem como aqueles que se sentam à mesa de um autêntico partido alto e agenciam suas vozes , singularizando-as, na polifonia contrapontística de uma kizomba. Poli-fonia: múltiplas vozes. E este múltiplo nasce dentro da voz que se singulariza, compondo-se. Somente assim , polifonicamente, uma voz tem realmente o que dizer ou o que cantar.
Cada variação é como um ser novo que nasce e, através dele, é o próprio tema que renasce. Isso vale para o barroco, para o jazz , para o chorinho, para o partido alto e para a própria vida. Os grandes músicos nos mostram que a variação de um tema não é um mero tocar ao acaso, tampouco o reproduzir passivo de um tema. O tema não é uma forma Exata, da qual a variação seria uma inexatidão refém da contingência. O tema e sua variação são as duas metades de um anexato como obra em processo, afirmando a si mesma. Um tema é passível de incontáveis variações. Isto porque um tema possui uma realidade intensiva que não se pode contar ou determinar numericamente. Por isso, um tema é sempre novo a cada variação que o afirma : cada variação afirma a si mesma ao mesmo tempo em que produz a variação do tema.








sábado, 18 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

direita / esquerda

A matéria é de direita,
o espírito é de esquerda.
A prosa é de direita,
a poesia é de esquerda.

O céu é de esquerda,
o subsolo é de direita.
Saltar é de esquerda,
parar é de direita.

Falar é de direita,
ouvir é de esquerda.
A forma é de direita,
a potência é de esquerda.

A justiça é de esquerda,
a lei é de direita.
A cor é de esquerda,
o preto-branco é de direita.

Informar é de direita,
narrar é de esquerda.
Xingar é de direita,
cantar é de esquerda.

Ir é  de esquerda,
voltar é de direita.
Perdoar é de esquerda,
vingar é de direita.

Prender é de direita,
soltar é de esquerda.
Vender é de direita,
doar é de esquerda.

Ousar é de esquerda,
temer é de direita.
Intuir é de esquerda,
raciocinar é de direita.

O muro é de direita,
o horizonte é de esquerda.
O passado é de direita,
o futuro é de esquerda.

O eu é de direita,
o nós é de esquerda.
Fechar é de direita,
ampliar é de esquerda.

Pedigree é de direita,
vira-lata é de esquerda.
Medir é de direita,
musicar é de esquerda.

Ordenar é de direita,
explicar é de esquerda.
Olhar o relógio é de direita,
olhar a lua é de esquerda.



(via Marcos Aurélio Marques)




terça-feira, 7 de abril de 2015

o pescador





- Senhor ,quer que eu lhe ajude com a canoa?
- Obrigado, meu jovem.
- Desculpe a ignorância, não entendo nada de pescaria. Essa hora é boa pra pescar?
- Meu jovem, o que você faz aqui na Ilha?
- Estou acampado na praia de Palmas. E o senhor, mora por aqui?
- Moro aqui há mais de 60 anos. Você deve estar de férias, não é ?
- Sim , entrei de férias da faculdade.
- Então você vai ser Doutor...
- Mais ou menos, faço filosofia...
- Que é isso?
- Tem relação com a vida, com o buscar o sentido das coisas...
- Então eu também faço isso, e só agora aprendi o nome...rs...Sabe , de nome entendo pouco, conheço mais as coisas que faltam nome ainda...Vivo de perto, em contágio, entende? Sou como um médico parteiro que põe uma criança no mundo . Nem sei o nome dela, mas a faço nascer, a pego na mão e a faço abrir os olhos.
- O senhor não respondeu minha pergunta: essa hora é boa pra ir pescar?
- Olhe pro céu... o que você vê?
- Muitas estrelas, mas não vejo a lua.
- Vou te explicar o que acontece em noites assim. Isso eu aprendi vendo na vida, e não lendo nas letras dos livros. Livro é cego, já reparou?
- O que o senhor aprendeu?
- Quando faz noite assim, com muitas estrelas e nenhuma lua, e se as águas estiverem mansas, como hoje, os peixes conseguem ver melhor o que está fora do mundo deles. E eu pergunto a você ,meu filho : qual é o mundo dos peixes?
- O mundo dos peixes fica debaixo d’água.
- E que mundo é maior: o que existe debaixo d’água ou o que existe acima d’água?
- Claro que é o que existe fora do mundo dos peixes...
- Então, meu filho, o olho do peixe não fica parado apenas no mundo dele. Ele também vê além. Olho vai longe, não é mesmo? Olho vai mais longe que o tato , que o olfato e que a audição.
- O senhor realmente é um filósofo...rs...Mas o que o senhor está querendo me dizer?
- Quando os peixes , de dentro do mundo deles, olham para fora d’água, o que eles vêem?
- Eles vêem as estrelas...
- Mas peixe, meu filho, sabe o que é estrela?
- Claro que não...
- E o olho do homem quando olha para fora do mundo dele, sabe do que vê? Sabe o olho do homem o que é ,de verdade , Deus, Alma, Amor, Infinito? Isso também não são estrelas?
- O senhor quer me dizer que nós somos como os peixes que estão mais a imaginar do que de fato a ver!?
- Sim , meu filho, vemos as estrelas, mas não sabemos o que elas são...E as estrelas de que falo não são estas que estão no céu visível, me entende?
- Mas e os peixes, o que eles vêem então?
- Ser vivo não suporta mistério, principalmente quando o estômago está vazio. Os peixinhos não sabem o que são as estrelas, mas eles não sabem que não sabem....
- O senhor parece o Sócrates...rs...
- Não me compare com esse povo que vive em livro, meu filho, sou só um pescador...
- Mas se os peixinhos não sabem o que são as estrelas, o que eles vêem então?
- Os peixinhos não sabem o que são as estrelas, mas sabem muito bem o que são os vaga-lumes. E eles adoram vaga-lumes....Quando eles olham pra cima e vêem o tremeluzir das distantes estrelas refletindo na superfície d’água, eles pensam que são vaga-lumes ao alcance do poder deles: eles sobem pra abocanhar a ilusão, e a gente pode até quase pegar com as mãos esses peixinhos . Eles passam a noite tentando abocanhar o que só existe dentro da mente deles. Confundir estrela com vaga-lumes é a pior forma de cegueira. Assim são os peixes, assim são, às vezes, os homens , quando  olham para as coisas com os olhos do estreito interesse. Então, meu filho, já vou pro mar, vou para mais perto que puder do horizonte...e obrigado pela ajuda com a minha velha, simples e amiga canoa.
- Senhor, qual o seu nome?
- Sou apenas um simples pescador...
- Mas não só de peixes...rs...





domingo, 5 de abril de 2015

o passarinho azul





Os raminhos com que arrumo
as escoras do meu ninho
são mais firmes do que as paredes
dos grandes prédios do mundo.

***
O passarinho: ser disponível para sonhar.

Os cantos podem ser ouvidos em forma de asa.

Os passarinhos têm o dom de ser poesia.

Manoel de Barros





Alguns dizem ter imortais almas
que em outras vidas já foram Príncipes,
Sultões e Monarcas.
Outros se gabam de ter Anjos da Guarda
que favores ao próprio obtêm junto a um Glorioso Deus.

Eu, simplesmente, no lugar de alma,
tenho apenas um passarinho:
ele é azul, pequenininho,
mas fez em meu coração um enorme ninho
e nunca pára de cantar.





O passarinho azul
que está a voar
na verdade é um pardal a brincar
fantasiado de céu.

Sábio pardal
que embora não saiba cantar
outra arte soube inventar
pintando-se um príncipe sob o sol.