sábado, 12 de setembro de 2026

Penélope

 

Após se perder no oceano e quase morrer, Ulisses  naufraga na ilha de Calipso, que o salva e sara. Depois, Calipso oferece a Ulisses uma bebida que o tornaria imortal, ou seja, ele ficaria livre da dor, da tristeza, da velhice, da morte...

Mas Calipso faz uma exigência: se ele escolher tomar a bebida da imortalidade, deveria ficar para sempre na ilha, esquecendo sua condição humana. Então, Ulisses deveria fazer a seguinte escolha: ou escolher uma espécie de “zona de conforto” sem fim, ou escolher a condição humana , com tudo o que nela há de risco, dor, contradição, perda, angústia...

Para surpresa de Calipso, Ulisses escolhe a condição humana, renunciando à “zona de conforto” interminável que lhe oferecia Calipso. Quando indagado por Calipso por qual razão renunciava à imortalidade, Ulisses responde que nada havia de mais forte nele do que a saudade da sua terra natal, na qual o esperava Penélope, seu par ( um par é composto por  dois seres ímpares que se somam).

 Porém, em Ítaca, a terra natal de Ulisses, Penélope estava sendo assediada e ameaçada pelos “pretendentes”.

No livro O que é a filosofia? , Deleuze & Guattari retomam essa história  e a interpretam  da seguinte forma:  “Penélope” é para Ulisses o mesmo que o Afeto potencializador representa   para o pensador de não importa qual área. Pois não somente as ideias nos servem de orientação, também são como “bússolas” os Afetos que dão sentido e direção a uma vida.  

Alguns  “pretendentes”  queriam  comprar Penélope, outros a ameaçavam violentar e tê-la   à força. Mas Penélope não se põe à venda e resiste às ameaças dos usurpadores.

Em não importa qual área ou situação, os “pretendentes” simbolizam aqueles que acham que tudo tem um preço,  incluindo os seres humanos. Os pretendentes têm a pretensão de obter coisas para as quais não se prepararam , não se cultivaram e nem se dedicaram. Por isso, querem obter as coisas por meio da trapaça ou da força, incluindo a força suja do dinheiro inescrupuloso , passando por cima dos valores, da ética, enfim, das pessoas. 

 Simbolicamente, Penélope é a parte da alma sã que aguarda o retorno do eu a si mesmo, o eu que se perdeu do caminho que o conduz a si mesmo: “voltar ao lar em si mesmo” , como escreve o poeta  Rilke.

O nome “Penélope” significa :  “Aquela que tece”. Ela tecia puxando o fio do afeto do qual seu coração corajoso era o novelo. Todos aqueles que , tecendo palavras, ideias e ações, assim perseveram e resistem à infâmia e à ignomínia , as de ontem e as de hoje, têm em  Penélope a sua ancestral.




 

domingo, 6 de setembro de 2026

luzeiros

 

 1.O galo canta porque ele pressente, ainda em meio à noite, a manhã chegando. Não seria esta a essência de todo cantar: anunciar , na manhã que vem, todas as manhãs que ainda vão chegar?

Sempre haverá uma manhã por vir, por mais longa que seja a noite. Disso sabe quem canta.


“Poeta é fazedor de amanhecer.”

(Manoel de Barros)


“Descanse tranquilo onde cantam:

 os maus não cantam.”

( Schiller)


2. Quando uma  nave espacial  sai  da terra e entra no espaço, de imediato os astronautas veem   que o céu não está apenas acima: ele  está também atrás, dos lados e igualmente abaixo.

Nessa perspectiva desegoificada , tudo é céu...Não um “céu” prometido  para depois da  morte, e para o qual se negocia   dízimo como entrada  , mas um céu horizontado da Vida por toda parte.

E nesse céu nenhum   inferno  pode ser achado, muito menos o tal inferno que os  “inquisidores” de toda espécie, ameaçando quem é livre, dizem existir debaixo.

Nesse céu há apenas o fogo das  estrelas , sóis e cometas, que não queimam por terem pecado, e sim porque neles o mistério é luzeiro  iluminado.


“Poesia é celestar as coisas do chão.”

(Manoel de Barros)


“Filosofar é se colocar da perspectiva da eternidade, para melhor ver o que acontece no aqui e agora.”

(Espinosa)



domingo, 30 de agosto de 2026

Manoel de Barros: uma didática da invenção

 

No poema “Escova”,  Manoel de Barros  diz ter visto, quando criança, dois homens sentados no chão  "escovando osso" . No início, diz o poeta, “achei que eles eram loucos” .

 Mas ele olhou bem e viu que não podiam ser loucos aqueles homens. Louco ,  o mais perigoso,  é  quem  quer impor aos outros o seu   “mesmal” . O “mesmal” é a doença de quem imagina que seu modo de viver é o único normal.

Aqueles homens não podiam ser loucos, pois pareciam ver a novidade onde todos veem o igual :  escovando, eles queriam livrar o osso da craca e poeira que nele grudaram . 

No escovar deles  também havia uma  artesania semelhante à de Espinosa a polir lentes com cuidado

O poeta descobriu então que aqueles homens eram arqueólogos. Eles queriam ressuscitar no osso o mundo no qual ele foi parte de um esqueleto sob músculo e pele, há milhões de anos.

E mais do que isso, eles desejavam reviver  o sentido que estava no osso , pois nada faz sentido sozinho: o osso foi  parte de  um esqueleto  que era   parte de um ser vivente,  igualmente parte singular de um mundo hoje extinto , do qual o osso dava o testemunho.

Para eles  o osso era mais do que osso: era também o fragmento de uma história , a nossa história,  que a vida  ainda está a escrever, com ideias e corpos, apesar das necropolíticas que querem nos extinguir.

 Ao ver os arqueólogos ,   o poeta ainda criança compreendeu qual seria então seu destino: o de escovar as palavras, retirar delas a idiotia, a ignorância, o preconceito, o clichê  e as banalidades que nelas colocaram as mentes obtusas,  de tal maneira que seria também uma “ecologia mental” o que o poeta faria  ao escovar das palavras tais sujeiras e craca.

Ao escovar as palavras, o poeta  não acha  “Verdades” , “Ordens” ou “Mandamentos”; ele acha  a poesia como sentido primeiro, não conformista, das coisas : “A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que sei” , ensina o poeta. 




Palestra que farei em Florianópolis:

https://www.udesc.br/ceart/noticia/udesc_promove_palestra_sobre_arte__educacao_e_didaticas_da_invencao_a_partir_de_manoel_de_barros

sábado, 29 de agosto de 2026

democracia

 

Em muitas comunidades  indígenas também se delibera e vota , e várias dessas comunidades teriam muito  o que ensinar sobre democracia até aos Gregos! É um equívoco  imaginar que o cacique é “quem manda”. Nas assembleias dos povos indígenas a democracia é direta: cada um expressa sua própria voz e ouve, diretamente, a voz do outro que também delibera.

Na política representativa dos brancos um deputado representa ( ou re-apresenta) o interesse de alguém ausente , ao passo que na ágora dos indígenas cada um participa presentando-se , isto é, fazendo-se presença  diante dos outros, seus iguais.

Nas comunidades indígenas  não existe interesse privado superior  ao interesse comunitário. Em grego, “privado” é “oikos”, de onde vem “economia”. Entre os povos originários também não há quarteis  ,   templos ou mercado   querendo se  sobrepor à comunidade. Assim, entre os indígenas  o que vem primeiro é sempre a política, e não os interesses privados econômicos  ligados a grupos ou  famílias poderosas.

Nas votações e deliberações da democracia  indígena  há apenas uma condição para a decisão  vitoriosa virar regra  .   A condição é: a posição vitoriosa precisa ser unânime. Sendo unanimemente aceita, ela será vista como vitória de cada um. Por isso, tal decisão unânime tornada regra não precisará de polícias  ou repressão  para ser cumprida.

Ela se torna unânime não porque uma parte imponha a outra seu poder, mas sim porque todos compreendem  que a proposta vitoriosa é boa para a comunidade como um todo. Quando a regra é assim, ela é obedecida sem precisar de ameaças , pois tal regra  não é lei a serviço de elites e castas. E quando  se detectava  índole de tirano em alguém , aplicava-se como punição o ostracismo.

Segundo Lévi-Strauss, entre os indígenas a decisão vitoriosa precisava ser unânime para não gerar derrotados. Pois    derrotados podem guardar  mágoas  geradoras de ressentidas   vinganças ( como  Aécio Neves em 2014 , Bolsonaro em 2022 e o Flávio Rachadinha já está preparando a mesma coisa...).

Essa  sabedoria política dos indígenas  evitou que nascessem ódio internos que poderiam gerar divisões da sociedade em castas e classes desiguais, com uns se julgando superiores aos outros ou se achando dono da aldeia e querendo impor “Ordem” à força.

Nas comunidades indígenas, as ocas são amplas  e acolhem muitos em igualdade, elas não são uma “Casa-grande” para  poucos privilegiados. Nessa democracia originária  não há privilégios, a não ser o privilégio de participar da comunidade e honrar os ancestrais. E os guerreiros não são generais que ameaçam o próprio povo supondo-o “inimigo interno”. Os guerreiros só agem contra as ameaças externas que colocam  em risco a comunidade .

A unanimidade  vitoriosa , desejo comum da comunidade, não era portanto a imposição da vontade de um chefe ou de um “Partido”, ela era construída coletivamente, pois o amor à aldeia era maior do que o apego  de cada um ao  próprio ego. Unanimidades conquistadas assim não são “burras”, são sábias.



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O espaço simbólico  da democracia é a praça, um espaço horizontal. Na Grécia , a praça era chamada de “ágora”, o coração da pólis. “Ágora” vem de “agon”,  que significa “conflito” ou “disputa”. Não a disputa bélica baseada na força bruta, e sim disputa de ideias apoiada na força da palavra tornada argumento.

Os que empreendiam tal disputa medida pela força das palavras  veiculadoras de ideias  eram chamados de “politikos”.

O espaço contrário ao da pólis era o “oikos”, a “vida privada”. De oikos nasce oikonomia , economia, enquanto dimensão dos interesses privados. Na pólis, ao contrário, deveriam preponderar os interesses públicos

Na ágora, perspectivas diferentes se enfrentavam mediante argumentos  . E o critério que definia qual perspectiva seria vitoriosa , obtendo mais votos, era aquela que mais expressasse  o interesse comum, o interesse público.

Mas quando alguém ou algum grupo se valia do espaço político para fazer prevalecer interesses meramente privados, usavam a palavra como meio de ardilosidade, dissimulação e ataque.

Por isso, só pode haver debate político se aqueles que se enfrentam por meio de argumentos tiverem como motor de suas palavras o interesse público. Ao contrário, quando uma das partes usa o espaço público para tentar sujeitá-lo a interesse privados ou criminosos, quando isso acontece é impossível o debate de ideias, uma vez que a parte que escamoteia interesses inconfessos se valerá apenas de erística.

“Erística”  vem de “éris”, que significa “ódio”, inclusive ódio de classe , como se viu na entrevista-erística que o JN , servindo a interesses antagônicos ao da democracia,  fez com o Lula.

É por esse e outros motivos que considero mais adequado o Lula não ir a esses espaços erísticos , nos quais será apenas atacado por aqueles que , servindo ao capital predatório ou a interesses autoritários ( e capital predatório e autoritarismos se apoiam um no outro), querem submeter a pólis ao mercado, à caserna ou a templos ( ou aos três mancomunados).

 

domingo, 16 de agosto de 2026

regeneratio

 

Ao pé da amendoeira caem inertes as folhas amarelas, que ainda ontem pareciam eternas.

Mas acima delas, em verdes folhas inesperadas, abre-se em broto a vida renovada.



( esses versos de Manoel que estão na imagem fazer parte do poema "Aprendimentos")

sábado, 15 de agosto de 2026

(po)éticas: espinosa & manoel

 

Manoel & Espinosa: (po)éticas

1- Desde menino, o filósofo Espinosa demonstrava uma capacidade impressionante para  “ler” as pessoas, revelando um saber intuitivo acerca da natureza humana, conhecendo  o que nela há de luz e de  sombras.

Sabedor disso, o pai de Espinosa,  senhor   Miguel, que era comerciante,  sempre pedia conselhos ao seu filho acerca da índole de determinado devedor.

 Embora tivesse  apenas 11 anos , com olhos penetrantes o menino Espinosa conseguia distinguir quem estava em reais dificuldades (cuja dívida era perdoada) ,  de quem fingia aperto por mera desonestidade.

Certa vez, o senhor Miguel  nutria  esse tipo de dúvida acerca de uma senhora que lhe devia  determinado valor. Ele pediu ao menino Espinosa para ir à casa de tal senhora. O menino foi.

Quando o menino Espinosa  bateu à porta da residência da devedora suspeita  , esta apenas entreabriu  a porta , mal conseguindo disfarçar certo nervosismo (  ela  já adivinhava  o motivo da visita e conhecia a fama do menino...). 

Fechando de novo a porta, falou: “Espera um instante ,  estou lendo a Bíblia, primeiro nossos deveres com Deus”.

Ela leu bem alto a Bíblia , de fora dava para ouvir. Depois, reabriu a porta já com  o dinheiro na mão.

Ao mesmo tempo em que colocava rapidamente a soma na mão do menino, ela disse: “As pessoas  de bem sempre leem a Bíblia e falam de Deus, nunca  se esqueça  disso menino. Agora vá”, e fechou abruptamente  a porta.

Após alguns segundos, ela ouviu novamente batidas à porta. Quando abriu, viu de novo o menino Espinosa, que com calma, porém firme, lhe falou: “Minha senhora, o valor que a senhora me deu está faltando” .

O menino Espinosa   estendeu então novamente a mão esperando  receber mais do que o dinheiro faltante , ele queria   receber, sobretudo,  outra coisa que faltava: a verdade.

2- Manoel de Barros se formou em Direito. No entanto, seu primeiro cliente foi também o último. Tratava-se de um comerciante   acusado de desonestidade no uso da balança : na hora de pesar a mercadoria, sorrateiramente ele apoiava o dedo para aumentar o peso de forma fraudulenta.

Uma senhora prejudicada pela desonestidade do mau comerciante    resolveu  abrir um processo contra ele.

Na primeira vez em que esteve com o tal comerciante, Manoel pediu para conversar a sós com  ele, e indagou: “É verdade o que ela diz? Você burlou o peso?” E o dissimulado respondeu: “É verdade. Mas inventa uma história para me defender, fique tranquilo: pagarei  bem a você.”

Manoel pediu  licença   ao farsante e foi conversar com o dono do escritório de advocacia, dizendo: "Desisto do caso, não vou me vender para defender  as mentiras   desse desonesto.  A invenção de que gosto é outra: não é invenção que nega a realidade; a  invenção   que gosto é a da poesia: invenção que   amplia o mundo ”.




sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O antídoto ao reducionismo é a pluralidade.

 

Em geral, os racionalistas identificam  o pensar ao conhecer, reduzindo o todo a uma de suas partes, isto é, a filosofia à teoria do conhecimento. Esse reducionismo não só retira do pensar sua potência própria, como também ignora que o pensar não é atividade exclusiva da filosofia, uma vez que o pensar pode ser expresso também nas artes.

Há ainda outro reducionismo tão ou mais limitador e pernicioso: o de reduzir o afeto e o sentir ao mero sentimento, como o fizeram os românticos. Nesse sentido, racionalistas e românticos de todas as épocas  formam as duas faces da mesma moeda.

Esse fenômeno duplamente redutor operado pelo par racionalismo-romantismo revela , por mais paradoxal que seja, o quanto racionalistas e românticos estão próximos, uma vez que o racionalista, em seu credo “objetivista”,  confunde o afeto com o sentimento meramente subjetivo, nesse aspecto sendo romântico; e o romântico combate a razão por que confunde o pensar com o conhecer, tomando este por aquele, como faz o racionalista.

O que racionalistas e românticos ignoram é que não há pensar sem afeto, e que o afeto potencializa o pensar, ampliando o conhecer para além do mero racionalismo e libertando a sensibilidade do  emotismo subjetivista.

É sobretudo na arte que o pensar e afeto se agenciam e se somam,  expressando  uma  potência emancipadora ao mesmo tempo singular e plural, ensejando  perspectivas  pedagógicas, clínicas e políticas criativas, sem deixarem de ser críticas .

E quando na filosofia pensar e afeto são afirmados assim  , a própria filosofia se converte em arte de pensar, isto é, poiésis.

 

 

 

 

 

( este livro é apenas uma referência para quem quiser saber mais sobre o tema)


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A chave-mestra

 

(Este texto é um comentário ao Prelúdio 51 de A gaia ciência. Nietzsche afirma que seu leitor deveria ter “bons maxilares e estômago”, mais do que mera inteligência analítica e memória. Pois “meus textos, dizia ele, é para serem digeridos”, isto é, absorvidos e incorporados àquilo que em nós é vivo e singular)

 

 

 

Onde quer que estejas, cava profundamente;

a teus pés está a nascente.  

(Nietzsche, “A gaia ciência”).

 

Há um estado de intuição para o qual a realidade, seja ela qual for,

só pode ser formulada poeticamente, segundo modos poemáticos; 

e isso porque a realidade, seja ela qual for, só se revela poeticamente.

Julio Cortázar[1]

 

Uma chave específica abre apenas a porta na qual está a fechadura que tem a forma dela. Porém, nenhuma outra porta diferente ela consegue abrir, todas estão fechadas para ela. Cada cientista em sua especialidade abre apenas uma porta: a chave do físico, por exemplo, abre somente o universo físico, sua chave não consegue abrir o universo psíquico; já a chave que tem o químico abre apenas o universo químico, não serve para abrir outras realidades diferentes da química.

O mesmo acontece com o filósofo que se torna especialista em apenas uma parte da filosofia: se ele fizer da lógica sua chave exclusiva, por exemplo, apenas a porta da lógica ele conseguirá abrir; se for a chave da estética a que ele exclusivamente usa, somente essa porta específica abrirá para ele, permanecendo as demais cerradas, inacessíveis, trancadas.

E o pior acontece quando um filósofo reduz toda a filosofia àquela porta que ele consegue abrir, reduzindo a filosofia a apenas um aspecto dela (como aqueles que, de forma reducionista, consideram que a filosofia é, antes de tudo, uma lógica ou uma epistemologia[2]...). A especialização não é um problema em si, ela apenas se torna uma limitação quando se quer fazer dela a norma para a filosofia.

Por isso, argumenta Nietzsche, o autêntico filósofo é aquele que deve ter, antes de tudo, uma chave-mestra. Uma chave-mestra é aquela que abre todas as portas. Não só abre todas as portas, mas as compreende como entradas singulares para uma mesma casa onde o pensar mora, um pensar umbilicado à vida. Uma casa cujo piso é a terra e seus horizontes, e o teto é o céu com suas infinitas estrelas[3] : "Minha casa pegou fogo, o teto ruiu...Nada me esconde mais a deslumbrante lua. " ( Koan japonês)

A porta aberta é o espaço de expressão e manifestação de Hermes. “Hermenêutica” tem no coração o nome  Hermes[4]. Assim, a chave-mestra também é chave hermenêutica que destranca e põe em comunicação espaços disciplinares fechados, ensejando assim uma inter/transdisciplinaridade.

A chave-mestra não torna aquele que a possui mais especialista em uma área do que o especialista da área em questão. Conforme já dissemos em outro texto-aula[5], “holístico” vem da palavra grega “holos”, que pode significar tanto “todo” como “completo”. A visão holística se contrapõe  à postura meramente compartimentada e estanque do conhecimento ( que Paulo Freire nomeia como “ensino bancário”).

O pensamento holístico integra as dimensões epistemológicas, éticas e estéticas à situação existencial do educando, tendo como objetivo potencializá-lo como ser humano. A chave-mestra é uma chave holística, uma vez que o autêntico conhecimento é um processo integrador de partes conectadas a um todo, como as partes de um ser vivo. Não um todo fechado, mas um todo cujos limites são limiares que se abrem a horizontes.

Na verdade, a chave-mestra abre todas as portas porque as conecta como partes de uma mesma realidade que se abre não apenas à Razão, mas também ao Afeto[6].

 

Texto branco sobre fundo azul

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

 

 



[1] Nesta outra epígrafe do escritor e pensador argentino Julio Cortázar que escolhi para acompanhar esta aula que escrevi, há a expressão “modos poemáticos”.  Poemático é mais do que mera rima e versos, isto é, poesia no sentido literário. Filósofos como Nietzsche às vezes escrevem fazendo o conceito filosófico assumir um “modo poemático”, de tal maneira que filosofia e poesia se tornam umbilicados.

[2] A esse respeito, vale a pena consultar a letra “W” do Abecedário de Gilles Deleuze.

[3] De maneira análoga, Heidegger dizia que só a poesia é a linguagem que consegue adentrar à “Casa do Ser”.

[4] Por esse seu simbolismo de porta destrancada e aberta, Hermes também foi a divindade mais propensa a sincretismos e misturas com as narrativas originárias de outros povos. No contato com a cultura egípcia, por exemplo, nasce Hermes Trimegisto , que significa “Hermes três vezes grande”, sendo sua grandeza associada à justiça, à potência regeneradora/transmutadora  e à sabedoria. “Tábua de esmeraldas” é um texto-referência inspirado em Hermes Trimegisto, e que Jorge Bem Jor transformou em música : https://www.youtube.com/watch?v=DBQD31zO43o

[5] “SOBRE A PRÁTICA DE ENSINAR FILOSOFIA” ( já disponibilizado no classroom).

[6] Escrevi e disponibilizei outro texto-aula explicando  um pouco mais acerca da ideia de Afeto. Essa relação íntima entre Pensamento e Afeto nos remete a Espinosa e ao Terceiro Gênero de Conhecimento.





domingo, 9 de agosto de 2026

Espinosa e as ideias vitais

 

Para Espinosa, as ideias que realmente ensinam não são meras realidades abstratas, tampouco apenas teoria. As  Ideias vitais são como seres vivos: elas possuem olhos, coração e mãos.

Os olhos das Ideias servem  para abrir mais os nossos, quando precisamos ver mais longe ; o coração das Ideias transfunde sangue para o nosso, quando é  necessário termos mais sangue corajoso correndo em nossas veias; as mãos das Ideias conduzem a nossa, quando o que escrevemos não é apenas palavras no papel.

Em Espinosa, as Ideias não existem no “Além”, como em Platão, elas vivem em nós como  potência para  pensar este mundo onde vivemos, aqui e agora.

Mesmo  que em torno hajam  trevas, as Ideias nunca ficam cegas, uma vez que vem delas a luz que seus olhos irradiam , como um farol.

Quando as Ideias estendem suas mãos para nós e nos conduzem, somos nós mesmos que,  sobre nossas próprias pernas, nos conduzimos eticamente sobre o mundo.

 Ideias que  conduzem não  teorizam caminhos  planejados apenas  no papel , Ideias que conduzem são elas mesmas caminhos : elas  sabem abri-los mesmo em desertos ou transpassando rochas.

E aquele a quem as Ideias conduzem pelas mãos, sempre oferece sua outra mão para conduzir também a quem ainda não sabe o caminho, de tal maneira que quem é conduzido pelas Ideias nunca caminha sozinho, e jamais solta a mão daqueles aos quais estendeu a sua.


( este belo livro fala da amizade de Espinosa com um simples filhote de  pardal que o filósofo encontrou ferido fora do ninho. Espinosa   cuidou do pardal e o criou . “Rebelde”, foi este o nome que Espinosa deu ao pardal, criando-o livre e fora de gaiolas - físicas ou simbólicas. O livro é apenas uma sugestão )




Para quem morar perto e puder, deixo aqui o convite:

https://www.udesc.br/ceart/noticia/udesc_promove_palestra_sobre_arte__educacao_e_didaticas_da_invencao_a_partir_de_manoel_de_barros

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Espinosa e a psicologia

Espinosa  soube compreender e dimensionar, como poucos,  a importância   do Afeto na saúde e existência da alma. Todavia, é Descartes que é considerado por muitos como o “pai da psicologia”, isto pelo papel de base que ele concede ao ego nos processos do pensamento.

 Porém, Descartes não vê no afeto um original da alma, mas algo que deriva de outra realidade, como efeito dela. Esta outra realidade é o corpo: é o corpo, em última análise, a causa do afeto. Logo, para conquistar sua independência e sossego, a alma precisa se libertar dos afetos. 

Ora , para Espinosa o afeto é um modo do pensamento, ele é algo que lhe é imanente, mesmo quando reflete um acontecimento do corpo, como no caso das paixões ou afecções. O modelo de Descartes é a psiquiatria, a redução de todo conteúdo psicológico à neurologia, ao passo que Espinosa realmente dá uma positividade à psicologia, integrando-a aos outros modos  do pensamento, possibilitando assim o conhecimento e, mais ainda, o autoconhecimento pautado no agenciamento entre afeto e ideia, ideia e afeto. 

Sem citar Espinosa, é o que faz, por exemplo, Jung, quando tenta mostrar que mesmo as psicoses têm uma origem no afeto, e não exclusivamente na fisiologia do cérebro. Jung, porém, estende o psicológico para além do indivíduo, e crê na existência de uma psicologia coletiva  que mergulha em tempos imemoriais, acessível tão somente a uma memória mítica, cuja linguagem é sempre simbólica, não referencial ou objetiva. 

Já Espinosa  mantém a psicologia como dimensão individual da existência do espírito, então apreendido como uma alma ou mente. O psicológico é a dimensão da imaginação e das imagens oriundas da existência do modo finito  em sua dimensão temporal , envolvido nos acontecimentos aos quais reage. 

A psicologia espinosista está integrada à dimensão espiritual das ideias adequadas. O espírito[1] é singular, e não individual, dado que o individual é sempre o resultado das afecções oriundas da ligação do espírito com o corpo. 

Mas o mundo psicológico não é  uma ilusão, como não o são os produtos da imaginação. Jung reduz o espiritual ao psicológico, ao passo que Espinosa distingue o espiritual do psicológico, integrando este naquele, e assim restitui a alma ao espírito, a existência à essência, mostrando-nos que somos um só. Enfim, o psicológico é a esfera do individual por oposição ao coletivo, enquanto o espírito é o singular como expressão do Infinito.

A eternidade do espírito não é um passado imemorial de extensão indefinida acessível apenas a uma memória mítica, dado que o eterno é incomensurável com o tempo, porém coexiste com ele. E ambos, eternidade e tempo, constituem as duas metades do que somos.

 



[1] A palavra “espírito”, aqui, não tem sentido religioso. Algumas traduções francesas da Ética, por exemplo,  traduzem o latim "mens" por espírito. Enquanto o termo "alma" tem sua origem na palavra grega "psiquê", "espírito" se reporta a "pneuma", que em grego significa "sopro". 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Não se ensina apenas com palavras

 

Quando pensava e falava, havia um ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e chorava... Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se afastavam,  apenas as crianças ficavam perto dele e, para confortá-lo, com o filósofo brincavam.

Demócrito, por sua vez, interrompia seu filosofar com  estouros de riso. Não havia deboche ou ironia no seu rir, apenas alegria.

Sócrates punha um ponto final em seu filosofar sempre com longos silêncios meditativos, olhando para o nada.

Platão cessava seu discurso e se dirigia ao quadro para desenhar retas e formas geométricas,  dizendo  confiar mais nelas do que nas palavras.

Aristóteles , após ordenar as palavras, levava seus discípulos para verem a ordem  que preside o mundo: recolhia sementes, peixes, estrelas-do-mar, arraias, incontáveis animais e os punha em ordem, como se fosse um silogismo.

Os estoicos diziam que as palavras são apenas a metade do sentido: a outra metade é o agir, e assim eles ensinavam fazendo, agindo, não temendo a confusão do mundo.

Espinosa afirmava que há um  momento em que a palavra não conduz mais: é preciso então estender a mão e conduzir quem está perdido.

Nietzsche escrevia muitas vezes caminhando. Era comum  ele terminar de escrever um pensamento, fechar o caderno e continuar a caminhar por uma subida íngreme, cujo fim era o pico de elevadas montanhas onde o ar é raro e, por isso,  não se pode ficar muito, tampouco estar acompanhado de quem teme alturas.

Wittgenstein escrevia e parava. E o restante do que  queria dizer ele o fazia cuidando de jardins:  adubava, podava, colhia e oferecia , de graça, aquilo que cuidou e fez nascer.





sábado, 1 de agosto de 2026

clínicas...

 

A palavra “clínica”  significa:  “aproximar-se para cuidar”. O bom médico é um clínico quando não nos reduz a um mero objeto no qual está a doença, e sim se aproxima de nossa existência para envolvê-la com cuidados para potencializar nossa saúde.

Clínica é um chegar perto e aproximar-se não apenas no sentido físico, também é   chegar perto animicamente, existencialmente. E para criar uma proximidade assim com o outro, com o mundo e com nós mesmos,  o meio mais adequado é o Afeto.

Sobretudo em épocas nas quais o adoecimento das mentes pela ignorância  se tornou  estratégia de dominação do  poder teológico-político mancomunado com a exploração bélico-capitalista  , nessas épocas os filósofos e artistas  mais necessários são aqueles que também são clínicos.

Eles nos ensinam que a melhor maneira de afastar  a doença não é temendo-a ou odiando-a, mas amar perseverante a saúde, a saúde da mente e do corpo,  e  cultivá-las cotidianamente  nas mais simples ações. Essa forma de cultivo da saúde também é um ato político.

Deleuze é meu pneumologista: é nele que encontro ar quando estou sufocando; Manoel de Barros é meu oculista: é com ele que aprendo a transver o mundo, para assim tentar vislumbrar caminhos por entre esse deserto pedregoso; Fernando Pessoa é meu cardiologista: para manter pulsando, sob o cético coração do adulto, o inocente coração da criança que crê ainda; e Espinosa é meu clínico geral: para desadoecer corpo e mente ante esses tempos distópicos.

Neste momento, desenvolvo uma pesquisa na universidade sobre Espinosa. A partir de setembro, pretendo fazer alguns encontros quinzenais  para falar de Espinosa . Esses encontros serão abertos ao público em geral, presencial e virtualmente. Quem quiser participar/acompanhar  de alguma maneira (serão concedidos carga horária e certificado) , é só falar comigo. Abraços.





Este livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura ( tive a alegria de participar , com uma palestra, do evento de lançamento da nova edição desta obra). Para ajudá-la em seu trabalho de cuidados  clínicos, consigo e com os outros, Nise dizia  ter aprendido a seguinte lição com Espinosa: “nossa felicidade e saúde mental depende mais daquilo que fazemos com as mãos do que daquilo que teorizamos com o cérebro”. Mãos que alimentam, mãos que escrevem lições no quadro numa sala de aula, mãos  que pintam, que plantam , que bordam, que partilham, que doam...São mãos mais saudáveis e felizes do que aquelas que apenas imitam armas, como a mão dos fascistas,   ou que  só sabem contar dinheiro, como a mão do “mercado”.



sexta-feira, 31 de julho de 2026

A origem do homem e da mulher, segundo a mitologia

 

Segundo a mitologia, assim foi criado o homem:  Prometeu começou a obra  a partir  do barro, porém  pediu ajuda aos  outros deuses. Hefesto, o deus artesão-operário, deu a Prometeu , para este pôr nos homens, o dom  de usar as mãos. Assim nasceu o “homo faber”: “aquele que transforma a natureza com as mãos”.

Mas isso não foi suficiente , pois as feras sobrepujavam em força e facilmente caçavam esses primeiros homens. Prometeu pediu auxílio então a Atena. Esta deu a Prometeu, para este colocar nos homens, o dom da inteligência. E assim nasceu o “homo sapiens”:  “o homem capaz de falar,  contar, enfim, teorizar”.

Porém o homo sapiens só teorizava, com o homo faber não se unia. Dessa desunião as feras tiravam proveito,   predando facilmente  os homens. Prometeu percebeu que faltava alguma coisa para unir o homem ao homem, o eu ao outro, a identidade à diferença, para assim fortalecê-los reciprocamente.

Prometeu pediu enfim auxílio a Zeus, que ofertou a Prometeu, para este plantar nos homens, a semente do sentimento ético da justiça. Prometeu preparou então um terreno para plantar essa semente, fertilizando esse terreno com o adubo da coragem. Esse terreno onde a semente da justiça foi plantada recebeu o nome de “coração”.

As decisões que nascessem do coração seriam chamadas de “sentenças”  : “decisões sentidas e proferidas em favor da comunidade”. Zeus fez apenas uma exigência: que essa semente fosse plantada em todos os homens. E assim nasceu o “homo eticus” : “o homem cuja força e poder está em seu coração justo”.

Os homens aprenderam então a cooperar e não apenas a pensar egoisticamente no interesse próprio. Nasceu assim a sociedade. Agindo como ser social , o homem aprendeu a  somar esforços, canalizar as criatividades e reunir meios para vencer as feras com a força da engenhosidade.

Contudo , alguns não confiavam nas sentenças  do coração justo  e resolveram criar  as leis escritas. Outros imaginavam  que não vieram  do barro, e logo começaram a  crer que eram superiores  e “eleitos dos deuses”: propalavam que  não vinham  do barro, mas do ouro . Entre eles surgiu um tirano que tomou o poder com um exército, rasgou as leis e transformou em escravos os oriundos do  homo faber.  Esse tirano  ainda mandou as covardes botinas do ódio  pisotearem  os corações justos . Assim nasceu  uma elite militar-teocrática pior do que  os leões e  hienas  que antes predavam os homens.

Horrorizado, Zeus pensou em dizimar os homens com um raio. Em vez disso, pegou o barro e o umedeceu com sua saliva. Tomando como modelo Atena e Afrodite, nesse barro foi moldada a primeira mulher : Pandora.

Mas dentro de Pandora Zeus não esculpiu totalmente, e foi nesse interior livre que nasceu um aliado do coração justo  na luta contra  a tirania dos homens. Esse aliado foi o  útero, espaço de criação  de algo que , até então, somente  os deuses eram capazes de criar: a Vida.


( Imagem:  “O núcleo da criação”/Frida Kahlo)



Parte do que escrevi tem por referência estes livros:





sexta-feira, 24 de julho de 2026

Artigo sobre pop'filosofia e pop'educação

 Obs.: A primeira vez que ouvi falar em "pop'filosofia" foi há mais de trinta anos, em uma belíssima aula sobre Gilles Deleuze ministrada pelo  inesquecível professor e filósofo Cláudio Ulpiano , na graduação em filosofia da UERJ. A Cláudio, minha gratidão ( por este e outros inumeráveis  aprendizados). 



Título e resumo do artigo: 


DA POP’FILOSOFIA À POP’EDUCAÇÃO: APONTAMENTOS SOBRE ENSINO, APRENDIZADO E CINEMA

 

                                                                                           Elton Luiz Leite de Souza[1]

 

 

RESUMO : Este artigo busca  desenvolver a ideia de pop’filosofia , noção presente em Deleuze, como base para uma pop’educação. Buscaremos  ferramentas de leitura presentes em Deleuze, Espinosa , Nietzsche , Paulo Freire e  Manoel de Barros para com elas tematizarmos as relações de ensino e aprendizado a partir do cinema.

PALAVRAS-CHAVE: Pop’filosofia. Pop’educação. Ensino. Aprendizado. Cinema.

 



[1] Professor Adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) atuando nas áreas de filosofia, literatura , semiótica e museologia; pesquisador da obra de Manoel de Barros. É autor do livro Manoel de Barros: a poética do deslimite (2010); também organizou publicação em homenagem ao centenário do poeta: Poesia pode ser que seja fazer outro mundo (2020). E-mail: eltonluizleitedesouza@gmail.com


link para o artigo: 

https://periodicos2.uesb.br/aprender/article/view/16154


domingo, 19 de julho de 2026

Espinosa & Manoel

 

Um dos meus livros preferidos de Espinosa é o “Tratado da emenda do intelecto”. Há algumas  traduções que, equivocadamente, dizem : “Tratado sobre  a reforma do entendimento”.

Mas o termo latino original “emendatio” nada tem a ver com “reforma”, assim como diferem radicalmente, no campo político, ser reformista e ser revolucionário. Pois o que Espinosa nos propõe é uma microrrevolução. Não há verdadeira mudança social sem que haja, também , uma emendatio interna e micropolítica.

Manoel de Barros empoemou a ideia de emendatio. Por imagens, o poeta  nos explica o que quer dizer o conceito. Pois uma autêntica emendatio é descrita por Manoel   no poema  “Lacraia”, que narra    uma “peraltagem” que o poeta  cometeu quando criança.

Transvendo o mundo através de sua “visão brincativa” , o menino-manoel percebeu que uma lacraia lembra  um trem: a cabeça parece uma locomotiva, os gomos se assemelham a vagões. Então, o menino resolveu “descarrilar” a lacraia : a desmembrou em partes separadas...

Quando o menino-poeta se preparava para ir embora, aconteceu algo para o qual nada antes o preparara para ver: a cabeça da lacraia se voltou para olhar uma parte que lhe estava separada. E esta parte passou a se mover indo em direção à cabeça que a chamava sem precisar dizer nome ou palavra. As outras partes fizeram o mesmo: unindo-se, elas queriam refazer o ser que eram, “emendando-se”.

Essa força  que age em cada parte dispersa que se procura, para assim recriarem juntas a singularidade viva que eram, essa força   regeneradora também é amor, afirma o poeta. Espinosa a chamava de “conatus”: o esforço perseverante para se continuar a ser o que se é.

É essa mesma força que une uma palavra à outra para criarem, juntas, um poema, para assim dizerem mais do que palavras.