domingo, 19 de julho de 2026

Espinosa & Manoel

 

Um dos meus livros preferidos de Espinosa é o “Tratado da emenda do intelecto”. Há algumas  traduções que, equivocadamente, dizem : “Tratado sobre  a reforma do entendimento”.

Mas o termo latino original “emendatio” nada tem a ver com “reforma”, assim como diferem radicalmente, no campo político, ser reformista e ser revolucionário. Pois o que Espinosa nos propõe é uma microrrevolução. Não há verdadeira mudança social sem que haja, também , uma emendatio interna e micropolítica.

Manoel de Barros empoemou a ideia de emendatio. Por imagens, o poeta  nos explica o que quer dizer o conceito. Pois uma autêntica emendatio é descrita por Manoel   no poema  “Lacraia”, que narra    uma “peraltagem” que o poeta  cometeu quando criança.

Transvendo o mundo através de sua “visão brincativa” , o menino-manoel percebeu que uma lacraia lembra  um trem: a cabeça parece uma locomotiva, os gomos se assemelham a vagões. Então, o menino resolveu “descarrilar” a lacraia : a desmembrou em partes separadas...

Quando o menino-poeta se preparava para ir embora, aconteceu algo para o qual nada antes o preparara para ver: a cabeça da lacraia se voltou para olhar uma parte que lhe estava separada. E esta parte passou a se mover indo em direção à cabeça que a chamava sem precisar dizer nome ou palavra. As outras partes fizeram o mesmo: unindo-se, elas queriam refazer o ser que eram, “emendando-se”.

Essa força  que age em cada parte dispersa que se procura, para assim recriarem juntas a singularidade viva que eram, essa força   regeneradora também é amor, afirma o poeta. Espinosa a chamava de “conatus”: o esforço perseverante para se continuar a ser o que se é.

É essa mesma força que une uma palavra à outra para criarem, juntas, um poema, para assim dizerem mais do que palavras.




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