terça-feira, 19 de maio de 2026

Desejo e apetite em Espinosa

 

                                               DESEJO E APETITE EM ESPINOSA[1]

 

Concluindo a  Parte Três de sua Ética , Espinosa apresenta uma “Definição dos Afetos.” A Primeira Definição tem por objeto o desejo[2] , e afirma: “O desejo é a própria essência do homem na medida em que esta se concebe determinada , por qualquer uma das afecções que nela se dão, a fazer algo.”

O desejo não é a essência do ser humano entendida como eterna , mas enquanto está ligada às afecções[3] do corpo nas relações que este estabelece com outros corpos.  Importante também é a palavra “fazer” na definição que Espinosa oferece do desejo. O fazer é a esfera da ética. Por essa razão, há uma relação estreita entre desejo e ética[4]. Não se deve confundir o “querer” com o “fazer”. Pois há aqueles que apenas querem fazer, que têm a vontade de fazer, porém não fazem. E há os que fazem, que agem. Querer é apenas vontade, já fazer é mais do que apenas ter vontade: fazer  é passar à ação, o que inclui também o corpo. Mais adiante, voltaremos a essa distinção entre vontade e desejo.

Espinosa pensa o desejo de uma maneira muito diferente da visão do senso comum ou da psicanálise. O desejo não está circunscrito à esfera sexual[5], tampouco é determinado por uma “falta de ser”. Na verdade, o desejo é um esforço para perseverar na existência e se aperfeiçoar ( no sentido de aumento de potência). Não lhe falta a existência, não lhe carece o esforço para perseverar na existência ou no seu ser. Esse “esforço” também recebe o nome de “conatus”( definido na Proposição 6 da Terceira Parte). Ou seja, cada modo se esforça para perseverar no seu ser, no seu existir.

Aqui, é preciso estar atento ao vocabulário de Espinosa, uma vez que ele por vezes emprega termos diferentes para dizer a mesma coisa, porém de maneira mais abrangente. Nesse ponto tão fundamental de sua filosofia, ao abordar o tema do desejo  Espinosa quer nos pôr próximos da gênese de nós mesmos, conduzindo-nos a compreender uma realidade que antecede o sujeito constituído. Nesse sentido, os termos “conatus” , “apetite” e “desejo” são tratados como sinônimos, embora seja o desejo a ideia na qual conatus e apetite se realizam e ganham uma identidade ( não como estado , e sim como processo). Podemos dizer que o conatus é a potência em seu estado mais imediato, o apetite é esse esforço direcionado a objetos , enquanto que o desejo[6] é esse mesmo esforço tomando consciência ou (auto)conhecimento de si mesmo, mediando-se, para assim não ser determinado pelos objetos[7] ( ver, na Parte III, as Proposições  6 e 7).

Outro termo que não deve ser confundido com o desejo é a noção de “vontade”. A vontade é o conatus referido apenas à alma enquanto esta tem ideias , já que , em Espinosa, não há separação entre vontade e intelecto.  Ou seja, a ideia impele à ação, ela também é “querer”. Mas o desejar, por concernir à mente e ao corpo[8], é mais do que o querer ( e é também por isso que os termos “vontade” e “potência” não são, em Espinosa, equivalentes[9]).

O desejo se origina do que Espinosa chama de apetite. O apetite concerne tanto ao corpo quanto à mente, ao passo que a vontade diz respeito apenas à mente. O desejo nada mais é do que o apetite consciente dele mesmo.

O apetite consciente de si mesmo já não se deixa determinar pelas coisas que não são ele mesmo, coisas que lhe estão fora, como bens, dinheiro, riqueza, fama. Quando se torna consciente de si mesmo, o apetite  tornado desejo  se liberta da ideia de que, para alcançar a felicidade,  precise possuir , ter, comprar , ostentar e acumular coisas ,  ou rivalizar e competir para tê-las como dono exclusivo delas.

Mas o apetite consciente de si mesmo não significa a mesma coisa que ter consciência do apetite. É preciso termos cuidado com o emprego das palavras para não projetarmos em Espinosa questões que não são dele. Espinosa não está dizendo que o apetite dependa da consciência reflexiva de um sujeito moral. Ele afirma , ao contrário, que o desejo é o apetite consciente dele mesmo, e desse ser consciente dele mesmo participa não apenas a mente , participa também o corpo. Esse estar consciente não é uma reflexão, uma “interiorização” moralizante, mas uma ação do apetite pensando ele mesmo, sua singularização e potência, enfim, a sua conquista ética, que é a conquista de si mesmo.

Quando o apetite se torna consciente dele mesmo, não é apenas o apetite que se torna consciente de si mesmo, mas todo o nosso ser: nós mesmos nos tornamos conscientes de nós mesmos na medida em que exercemos potentemente o  desejo , isto é, na medida em  que nos tornamos causa, para nós mesmos e para os outros,  mais de alegrias do que de tristezas, mais de amores do que de ódios, mais de ações do que de reações.

Originariamente, a  palavra “apetite” tem o sentido de “pedir” , “ir em direção a”. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo, se ele não se pensar, desse pedir pode nascer um implorar , um mendigar, enfim, um padecer dependente , servo, reativamente passivo. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo, ele pode ser atraído e ir em direção a algo que o fará perder-se de si mesmo. E quando o apetite não é consciente de si mesmo, disso se valem os pregadores da culpa e da "falta" com  seus discursos teológicos-moralizantes que demonizam o desejo. 

Portanto, é  assim que o apetite devém desejo: pedindo, antes de tudo, a si mesmo,  indo em direção a si mesmo, à sua potência. Nesse sentido originário, ser consciente[10] é , em Espinosa, ter ciência e pensar  sua própria existência, agindo.  

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] A alegria ( Definição 2) , a tristeza ( Definição 3) , o amor ( Definição 6) e o ódio( Definição 7) , juntamente com o desejo ( Definição 1) constituem os cinco afetos fundamentais , dos quais todos os outros derivam. Contudo, a alegria e o amor têm sentidos distintos conforme derivem de uma paixão ou de uma ação ( mas nunca a tristeza e o ódio nascem de uma ação).

[3] Ou seja, embora seja um afeto, o desejo está em íntima relação com as afecções do corpo.

[4] E também a política, conforme se verá nos tratados de Espinosa que abordam mais diretamente o tema da política, incluindo o tema da democracia. Os afetos, portanto, também são temas da política.

[5] Quando se refere à dimensão sexual, Espinosa emprega o termo “libido”. Em latim, desejo é “cupiditas”.

[6] Aqui, ainda não estamos distinguindo entre as ações e as paixões, uma vez que o desejo pode padecer ou ser ativo. Não é na mera ação que o corpo faz que está a diferença entre agir e padecer, mas na ideia que acompanha essa ação: quando é uma ideia adequada, tem-se uma ação; quando inadequada, um padecer, uma paixão.

[7] Como são determinados pelos objetos as pulsões, no sentido psicanalítico .

[8] O desejo se refere às afecções do corpo e às ideias que nascem dessas afecções. Assim, o desejo pode padecer de ideias confusas, como nas paixões tristes, ou se potencializar com ideias adequadas ( que não nascem das afecções) ,  tornando-se ativo, ético.

[9] Como são em Nietzsche.

[10] Em Espinosa, tornar-se consciente  nunca é apenas uma questão psicológica, pois tornar-se consciente é  também uma questão corpórea , uma vez que o apetite concerne à mente e ao corpo.

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