domingo, 25 de novembro de 2018

- o embrião e o poeta

O poeta Manoel de Barros já passava dos 80 anos quando um editor  pediu que ele escrevesse  três memórias: da infância, da vida adulta e da velhice. Afinal, quem chega aos 80 anos parece que tem muito a  falar de si...Depois de algum tempo, o poeta enviou ao editor o seguinte livro: “Memórias da primeira infância”. Meses depois, nova publicação: “Memórias da segunda infância”. Após novo intervalo, outra obra nasceu: “Memórias da terceira infância”. Como as memórias da vida adulta e da velhice não apareciam, Manoel foi indagado a respeito, e assim o poeta  respondeu: “ só tive infância, não tive velhez: na ponta do meu lápis há apenas nascimento”. Para o poeta, a "velhez" não é  uma idade,  a "velhez" se vê em  uma vida, individual ou coletiva, que se perdeu de seu "embrião" enquanto "pura potência"(Deleuze). Embrião não é o que precede a criança e  morre para que a criança  vire adulto e também morra,  até que  o adulto também morra para que venha o velho, para que esse enfim morra pondo fim ao reinventar-se da  vida. O embrião não está num passado remoto morto. Mesmo o imenso e antiquíssimo rio amazonas tem seu embrião lá no alto dos Andes. É graças à vida de sua nascente que o rio também vive e persevera, sem se separar de seu “minadouro”. Em todo minadouro há uma criança que brinca inocentemente: lá onde nasce, o velho amazonas ainda é criança umbilicada à potência que gera.O embrião é a “origem que renova”. O embrião de nossa sociedade não é a Grécia antiga ou a Europa iluminista,  estas são ainda partes do rio da história ,  não são o embrião-fonte enquanto “minadouro” sem o qual não podemos dar novo curso ao rio do tempo, para que este não seque nos atuais desertos de ideias. O embrião-fonte  vive naqueles que, pessoal e coletivamente ,  põem nascimento naquilo que dizem e fazem aqui e agora, resistindo aos que  são pedra e obstáculo para que a vida avance : “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras - liberdade caça jeito.” (Manoel de Barros)

-imagem: Deleuze e seu filho Julian:


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