sábado, 4 de julho de 2026

Para ser grande

 

Há um poema de Fernando Pessoa no qual ele nos ensina o que é preciso fazermos para “sermos grandes” .

O poeta diz mais ou menos o seguinte: “Ser grande nada tem a ver com o ambicionar o primeiro lugar em pódios, pondo-se acima dos outros. Para sermos verdadeiramente grandes devemos aprender com a lua:  ela  nunca se recusa a refletir-se inteira na mais simples poça do caminho”.

 A lua é grande porque ela não rejeita a poça julgando-a indigna de receber sua presença: ao contrário, é a presença da lua na poça que dignifica a poça. A lua engrandece a poça sem ser diminuída.

A lua não se reflete pela metade ou em parte na poça, ela se coloca por inteiro, nos ensinando o que é ser íntegra. Assim, a lua horizonta a poça: faz dela um espelho unindo terra e  céu.

A lua não se reserva apenas para os oceanos. Não é o tamanho daquilo no qual ela se reflete que faz a grandeza da lua, é a grandeza da lua que engrandece a realidade na qual ela se reflete.

A primeira vez que li esse poema foi numa aula de filosofia no antigo segundo grau.

Li o poema e não entendi tudo, mas fiquei com ele na cabeça. A querida professora que me apresentou o poema disse que o sentido dele levaria tempo para ser compreendido ;  e que eu  compreenderia o sentido quando dentro de minha mente houvesse um clarão. Poemas assim a gente lê para se ler.

Quando sai do colégio após a aula,  já era noite . Choveu  muito a tarde inteira. No asfalto ,  aqui e ali , poças que a chuva deixou.

Eu caminhava de cabeça baixa : me pesavam, como chumbo,  as decisões que urgentemente   eu precisava tomar . O vestibular se aproximava , eu queria fazer filosofia, mas  havia o risco que significava fazer filosofia numa época trevosa  ainda sob   ditadura militar; também me preocupava   como eu sobreviveria materialmente com filosofia,  eu era  de  família pobre, sem recursos. 

De repente, numa poça do caminho eu vi o reflexo da  lua cheia, ela brilhava no espaço que conseguiu abrir entre as nuvens pesadas. E de lá do alto ela  me achou empregando como meio uma simples poça no chão . Às vezes, realidades elevadas nos alcançam usando como meio as coisas mais simples e  inesperadas...

Quando vi a lua refletida na poça, de imediato ergui a cabeça e os olhos em sua direção , vencendo o peso que mantinha meu pensamento aprisionado no chão. A lua  horizontava a poça , a transformava num oceano de descobertas  e a fazia de trampolim para meus olhos se alçarem, empoemados.

E foi com os olhos assim que  vislumbrei , apesar da noite, o caminho que eu deveria seguir, pois por dentro me iluminou um clarão.

( Imagem: “Lua” / Magritte)



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