quinta-feira, 16 de julho de 2026

Maria e a Alma do Mundo

 

Maria morava na  rua . Quem a via , imaginava que Maria falava sozinha, que era “louca”.

Certa vez, Maria estava sentada em um banco de praça e , como de costume, parecia conversar com alguém. Quando passei por ela, dei “bom dia” . Ela parou a conversa com o invisível, conectou-se de alguma maneira ao mundo onde eu estava, e respondeu: “bom dia”. Quando olhei para ela, havia um sorriso em seu rosto acompanhado de um olhar que parecia acreditar no ser humano ainda.

Descobri que Maria não falava sozinha. Ela falava com ela mesma, no interior de sua alma. Acontece que sua alma se estendia cerca de 30 centímetros além de sua pele , como se fosse uma aura. Maria descobriu que tinha essa alma externa quando ainda era uma menina, e como menina brincava a sério de ter uma alma que não cabia totalmente nela. Ela nunca mais parou de brincar assim, sem perceber que cresceu.

 Parte da alma de Maria estava fora dela. Essa parte da alma tomava chuva, sol e vento; não aquele vento que Deus soprou como espírito, apenas vento mesmo; não raro, tal vento se impregnava com os restos de comida que Maria catava por aí.

Maria carregava uma mala que nunca abria, como também não estava aberta, apesar das aparências, a alma fora dela. Apesar de não estar aberta, atravessavam-lhe os gritos, as sirenes, os pedidos de socorro, as fumaças de tudo quanto é incêndio e os fragmentos de todos os seres que um dia formaram um todo.

Maria carregava a mala como se estivesse para ir ou para voltar: e no intervalo entre esses dois atos que ela de fato nunca fazia, nesse intervalo todo lugar se tornava o estrangeiro onde ela não podia morar.

Embora a alma externa não fosse inteira, metade dela era imaginação, metade desejo: a ideia que em uma parte morria, na outra ressuscitava pelo avesso.

 Como se fosse um espelho cujo aço se apagou, essa alma-fora não deixava Maria ver-se nela. Muitas vezes, era a partir dessa alma-fora que Maria falava, sem ninguém ouvir ou entender.

Essa voz que do fora nascia, por vezes entrava por dentro da boca de Maria, como se fosse uma prece ao contrário. Prestando atenção até onde essa voz ia, parecia que Maria ficava em silêncio. Mas a voz ia até onde não a podia mais escutar Maria; e tampouco o pode a Psiquiatria, a Psicologia, a Filosofia, a Teologia e tudo aquilo que o homem inventou para falar a si.

Talvez escute essa voz de Maria apenas os ouvidos da Arte: quando a resposta  vier , se vier, que não  seja tarde.




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