Maria morava na rua . Quem a via , imaginava que Maria falava
sozinha, que era “louca”.
Certa vez, Maria estava sentada
em um banco de praça e , como de costume, parecia conversar com alguém. Quando
passei por ela, dei “bom dia” . Ela parou a conversa com o invisível,
conectou-se de alguma maneira ao mundo onde eu estava, e respondeu: “bom dia”. Quando
olhei para ela, havia um sorriso em seu rosto acompanhado de um olhar que parecia acreditar no ser humano ainda.
Descobri que Maria não falava
sozinha. Ela falava com ela mesma, no interior de sua alma. Acontece que sua
alma se estendia cerca de 30 centímetros além de sua pele , como se fosse uma
aura. Maria descobriu que tinha essa alma externa quando ainda era uma menina,
e como menina brincava a sério de ter uma alma que não cabia totalmente nela. Ela
nunca mais parou de brincar assim, sem perceber que cresceu.
Parte da alma de Maria estava fora dela. Essa
parte da alma tomava chuva, sol e vento; não aquele vento que Deus soprou como
espírito, apenas vento mesmo; não raro, tal vento se impregnava com os restos
de comida que Maria catava por aí.
Maria carregava uma mala que
nunca abria, como também não estava aberta, apesar das aparências, a alma fora
dela. Apesar de não estar aberta, atravessavam-lhe os gritos, as sirenes, os
pedidos de socorro, as fumaças de tudo quanto é incêndio e os fragmentos de
todos os seres que um dia formaram um todo.
Maria carregava a mala como se
estivesse para ir ou para voltar: e no intervalo entre esses dois atos que ela
de fato nunca fazia, nesse intervalo todo lugar se tornava o estrangeiro onde
ela não podia morar.
Embora a alma externa não fosse
inteira, metade dela era imaginação, metade desejo: a ideia que em uma parte
morria, na outra ressuscitava pelo avesso.
Como se fosse um espelho cujo aço se apagou,
essa alma-fora não deixava Maria ver-se nela. Muitas vezes, era a partir dessa
alma-fora que Maria falava, sem ninguém ouvir ou entender.
Essa voz que do fora nascia, por
vezes entrava por dentro da boca de Maria, como se fosse uma prece ao
contrário. Prestando atenção até onde essa voz ia, parecia que Maria ficava em
silêncio. Mas a voz ia até onde não a podia mais escutar Maria; e tampouco o
pode a Psiquiatria, a Psicologia, a Filosofia, a Teologia e tudo aquilo que o
homem inventou para falar a si.
Talvez escute essa voz de Maria
apenas os ouvidos da Arte: quando a resposta vier , se vier, que não seja tarde.
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