sábado, 20 de junho de 2026

O passarinho-utopia

 

Aprendi a ler quando tinha 5 anos, na casa de uma querida professora que dava aulas particulares de alfabetização. Lembro até hoje: na casa dela tinha   um imenso quintal,  no meio do qual  existia um grande viveiro com passarinhos  cantando o tempo todo.

Havia especialmente um passarinho que me marcou profundamente. Ele não era o maior  fisicamente , porém  sua cor azul celeste e  seu canto  singular e potente fizeram ninho em  mim.

A mesa da professora ficava perto da janela. Então, na minha imaginação eu  sentia ter dois mestres: a que com dedicação me ensinava as letras da língua, e o passarinho-artista que, como um Orfeu,  me ensinava a língua dos cantos.

Eu amava ser aluno dos dois. A língua que a professora me ensinava eu ainda não conseguia ler, porém a língua do passarinho parecia que já estava dentro de mim. Às vezes, enquanto a professora tentava me alfabetizar na língua dos homens,  na língua do passarinho eu  até já me arriscava a falar, assobiando no meio da aula. A professora olhava para mim e sorria.

Ler palavras eu ainda não conseguia , mas já sabia assobiar a poesia  que  aprendia com  o mestre  passarinho azul.

Quanto à língua dos homens, eu já sabia que “b” + “a” formava “ba”,  que “l” + “a” fazia  “la”, mas eu não conseguia ler o todo que as letras  formavam quando se juntavam  na palavra “bala”. Eu ia das letras  às sílabas, porém não conseguia passar das sílabas à palavra. Via apenas as partes, não via o todo, e o todo é sempre maior do que suas partes.

À noite antes de dormir, eu abria um gibi e  ficava olhando as imagens e identificando as letras e sílabas. Até que houve uma noite em que, enquanto assobiava inocentemente,  vi de repente a palavra “bala”.

Foi instantaneamente que a palavra apareceu, fulgurante. Ela sempre estivera ali, eu é que não a via. Não que me faltassem os olhos do corpo, eram outros olhos que ainda não estavam abertos em mim .  A palavra que abre os olhos da mente é como um raio, diz Espinosa.

Pulei de uma palavra à outra, depois às frases,  destas à história inteira, e corri para contá-la para minha mãe . Maior do que a emoção que tive ao aprender a ler, foi a alegria de partilhar , recriando, o que li.

A querida professora me ensinou a gramática, mas creio ter sido aquele passarinho azul que me ensinou a ler mais do que palavras;  e é o canto dele que ainda ouço nas poesias de   Manoel de Barros ,  no pensar de Espinosa e na voz de  todos aqueles e aquelas que, com a potência da arte, nos emancipam.

Como ensina Manoel : “A gente é rascunho de pássaro. Não acabaram de fazer...”


( Imagem:  “Transportado pelo passarinho-utopia” / escultura de Fredrik Raddum)







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