Eu tinha por volta de seis anos .
Fui com minha família a Sepetiba. De repente, precisamos atravessar uma larga
rua. Na verdade, olhando hoje para trás não sei se a rua era de fato larga ou
se assim me parecia, tendo em vista a criança que eu era.
Lembro-me de estar de mãos dadas
com meu pai, enquanto minha mãe segurava
as mãos de outros dois irmãos menores. Olhei para a rua com olhos que meus pais
não sabiam que eu tinha. Nem eu mesmo sabia que
tinha tais olhos, pois somente soube da existência deles quando eles se abriram e exigiam que eu fizesse o que eles "transviam".
Apesar da rua perigosa, esses
olhos de ousadia vislumbraram uma travessia. Acho que foi a primeira vez na vida que
compreendi o que é ter uma ideia. Ter uma ideia não é só imaginá-la, mas pô-la
em prática, torná-la real, mesmo sob riscos. Uma ideia faz nascer olhos que
vislumbram o que ela quer.
Então, vi a outra margem da rua
como a me desafiar. Nasceu em mim um desejo de independência, um desejo de
enfrentar o perigo do qual a mão de meu pai queria me proteger.
Sem hesitar, larguei a mão dele e
iniciei minha travessia, meu único apoio eram minhas pernas, que corriam. A mão
do pai oferecia segurança, mas ao preço
da obediência. Ousei largar dela e fazer a travessia. Fui rápido e firme;
estava nervoso, mas feliz, até sorria.
Quem é livre se alegra, aprendi essa lição depois com Espinosa.
Subitamente surgiu um carro não
sei de onde. Era um carro soturno , hostil,
como os milicos da dit4dura da época. Parecia
que o carro queria me punir pela
transgressão que eu ousara. A liberdade tem seus riscos...
Mas eu já estava no meio da minha
linha de fuga, não podia abortá-la. Não há linha de fuga sem coragem , ensina Deleuze.
O carro sisudo vinha para cima de mim, como um abutre.
Parecia que eu não tinha a menor chance de escapar , era um monstro metálico
contra um menino...
Foi então que dei um salto como nunca dera
antes. Saltei mais do que metros, saltei mais do que um pedaço de rua, hoje
sei. Creio que somente Espinosa poderia entender aquele salto que nem eu mesmo
sabia que podia, pois o filósofo dizia : “Ninguém sabe tudo o que pode o
corpo”.
Foi minha alma insubmissa que fez minha mão abandonar a segurança do já
conhecido; mas foi meu corpo que , saltando, pôs minha liberdade a salvo, mais
viva do que nunca, conquistando um chão
novo , na outra margem.
Meus pais não brigaram comigo, até
ficaram admirados com o salto e não me tolheram, e por isso lhes sou grato. Meus
pais eram pessoas pobres, simples. Mas penso que foi ali , até onde eles
puderam me conduzir, que da criança saltou o filósofo.
(Imagem: o “salto” de Chagall)

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