sábado, 27 de junho de 2026

Cartola e os meninos da Mangueira

 

Segundo o filósofo Heidegger, o mundo atual e seu culto à tecnologia confunde o “diminuir a distância” com o “criar proximidade”. A tecnologia diminui as distâncias, sem dúvida. Mas uma coisa é diminuir a distância entre seres no espaço, outra bem diferente é criar proximidade com o sentido das coisas, pois tal sentido também é arte, afeto. Esse sentido nem sempre está dado, às vezes precisa ser descoberto ou mesmo inventado.

 O telescópio diminui a distância entre a lua e nossos olhos, isso é fato. Porém, quando lemos um poema de  Manoel  no qual ele poetiza  a lua, o poeta não põe a lua perto de nós no espaço, porém ele a põe a tal ponto próxima que, empoemando-nos, experimentamos seu sentido também em nós, no "devir-lunar" que nos tornamos.

Quando Cartola diz que “as rosas não falam”, qual o sentido dessas rosas? O que elas têm que não têm as rosas que pomos em jarros? Um dia estas últimas murcham, como tudo aquilo que a arte não salva; mas nunca morrem as rosas que a canção de Cartola nos põe próximos . Essas rosas que vencem  a morte também nos ensinam a resistência.

 

( foto: O ano era 1976, em plena ditadura militar. Forças repressivas subiram o Morro da Mangueira atrás, segundo eles, de “quem estava devendo”. Eles detiverem o filho do Cartola e o próprio, por “vagabundagem”. Quando o povo presente disse que estavam prendendo um poeta, os polícias riram e zombaram com escárnio, dizendo que em morro não tem poeta. Enquanto levavam Cartola para o camburão , o povo, avolumando-se,  ia atrás cantando “Meninos da Mangueira” e  “As rosas não falam”. Assim, a arte de Cartola  tornava-se voz coletiva que, afirmando-se , libertou o poeta de seus algozes  )






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