Segundo o filósofo Heidegger, o
mundo atual e seu culto à tecnologia confunde o “diminuir a distância” com o
“criar proximidade”. A tecnologia diminui as distâncias, sem dúvida. Mas uma
coisa é diminuir a distância entre seres no espaço, outra bem diferente é criar
proximidade com o sentido das coisas, pois tal sentido também é arte, afeto.
Esse sentido nem sempre está dado, às vezes precisa ser descoberto ou mesmo
inventado.
O telescópio diminui a distância entre a lua e
nossos olhos, isso é fato. Porém, quando lemos um poema de Manoel no
qual ele poetiza a lua, o poeta não põe
a lua perto de nós no espaço, porém ele a põe a tal ponto próxima que,
empoemando-nos, experimentamos seu sentido também em nós, no
"devir-lunar" que nos tornamos.
Quando Cartola diz que “as rosas
não falam”, qual o sentido dessas rosas? O que elas têm que não têm as rosas
que pomos em jarros? Um dia estas últimas murcham, como tudo aquilo que a arte
não salva; mas nunca morrem as rosas que a canção de Cartola nos põe próximos .
Essas rosas que vencem a morte também
nos ensinam a resistência.
( foto: O ano era 1976, em plena
ditadura militar. Forças repressivas subiram o Morro da Mangueira atrás,
segundo eles, de “quem estava devendo”. Eles detiverem o filho do Cartola e o
próprio, por “vagabundagem”. Quando o povo presente disse que estavam prendendo
um poeta, os polícias riram e zombaram com escárnio, dizendo que em morro não
tem poeta. Enquanto levavam Cartola para o camburão , o povo, avolumando-se, ia atrás cantando “Meninos da Mangueira” e “As rosas não falam”. Assim, a arte de Cartola
tornava-se voz coletiva que, afirmando-se
, libertou o poeta de seus algozes )

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