sábado, 20 de julho de 2019

aion


"A eternidade está longe:
brinca de tempo-será" (Manoel Bandeira )


Aconteceu lá no começo das eras :  talvez tenha sido uma criança que, brincando,  pegou uma  semente  que recolheu da floresta  e a plantou em um pedaço de  terra próximo de onde  morava. Antes, a planta crescia livre , sem cercas . Agora ela era cultivada  por alguém que a desterritorializou  de um espaço livre e a reterritorializou em uma terra cercada . Foi assim que  nasceu a agricultura: com a domesticação do que antes crescia e vivia selvagem. “Domesticar”  significa : “colocar sob o poder de um domicílio” enquanto espaço privado. Mas não era apenas a planta  que era assim domesticada,  pois junto com ela  também era domesticada outra realidade . O homem de então percebeu que a planta nasce, cresce , dá  frutos e  morre. Ele  compreendeu que a planta existe dentro de um período com fases e ciclos. O homem deu um nome para essa realidade feita de ciclos: ele a chamou de “tempo”.  Depois, o homem  abstraiu o tempo do cultivo empírico das plantas, ficando  apenas com a ideia de ciclo , estendendo-a  ao cosmos e  a si mesmo. E assim se viu  criança,  adulto e idoso. Ele percebeu que sua vida tinha ciclos, como a vida da planta. Compreendeu que ele era nascimento, vida e morte. A domesticação do tempo constituiu também a descoberta do domicílio onde mora o homem: enquanto os deuses moram na eternidade, o homem tem por morada o tempo. Assim como a planta domesticada passou a viver dentro de cercas, o relógio se tornou  a cerca que limita o tempo domesticado.
Mas a domesticação da planta não fez morrer as florestas nas quais as plantas vivem livres, do mesmo modo que a domesticação do tempo não eliminou o seu existir selvagem enquanto duração para além do  relógio. Esse tempo selvagem e livre é o que alguns filósofos chamam  de “devir”. O devir  está para o relógio assim como a floresta está para a agricultura, ou  como a poesia está para a linguagem: como realidade selvagem, livre,  que nenhuma cerca simbólica domestica. Os relógios nos fazem sedentários angustiados, porém  a duração-devir somente pode ser experimentada se nos fizermos nômades. Enquanto os sedentários vivem olhando para o relógio, os nômades vivem a olhar para as estrelas, e por elas se orientam. No mito, o tempo do relógio é chamado de  Cronos, a divindade que a todos devora, ao passo que a  duração poética atende por  Aion , que era simbolizado por uma criança  que brinca.



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