domingo, 30 de junho de 2019

manoel-intercessor




(trecho do livro)
“Agenciamento” tem por raiz, raiz rizomática, o termo “agente”. Um agente é aquele que desencadeia, que promove, que suscita. Um agente não existe fora de um agenciamento.  O agenciamento não é tão somente os polos de uma relação: ele implica os polos e mais o meio, o encontro, o “entre”. O agente de um agenciamento nunca é um sujeito que se opõe a um objeto, tampouco um objeto que existe em si, “objetivamente”, que só poderia ser descrito por um sujeito sem corpo. Tudo pode ser agente para a produção de um agenciamento, inclusive um objeto, desde que nele achemos elementos não totalmente objetificados, “pré-coisas”.
 O poeta é o agente que me inventa filósofo, nesse agenciamento que rascunho. Ele me inventa enquanto escrevo sobre ele, na pretensão de achar filosofia no poeta e, quem sabe, poesia na filosofia, enquanto ele “me escreve”. Manoel não professa credos ou doutrinas, ele nos ensina uma Didática da invenção[1]. Manoel é um menino levado da breca, e nos convida a ser também. Ele é um menino não em idade, mas em invenção:  como Exercícios de ser criança, um devir-criança como incorporação. E é assim que esboçamos, com Manoel e Deleuze, uma desfilosofia: no poeta que me inventa filósofo, poeticamente; no filósofo que busca ler o poeta, filosoficamente.


[1] SOUZA, E.L.L. de. “Manoel de Barros: uma didática da invenção”. In: Revista Brasileiros. São Paulo,nº 89, DEZ/2014, pp. 108-110.

sábado, 29 de junho de 2019

rizomas: deleuze, guattari e manoel


Segundo Deleuze & Guattari,  há dois tipos de raízes: as arborescentes e as rizomáticas. A  raiz  arborescente  fica    presa em um ponto , em um lugar ; já  a rizomática tece  linhas de fuga , conexões, para assim se horizontar .  É comum ver   plantas arborescentes aprisionadas por cercas,  mas  as rizomáticas sabem escalar e transpõem todo  muro que as queira cercar.
O autoritarismo    finca suas raízes no Estado  e se arborifica  como poder centralizado  , contudo  a potência democrática é  construção de rizomas em espaços abertos e  a-centrados. Quando  o conhecimento vira objeto de comércio se torna    “Árvore do Conhecimento”  plantada no quintal de  poucos,   mas o educar e o educar-se é      fazer-se  rizoma de um jardim público sem dono ou proprietário  . Os conservadores exaltam a  “árvore genealógica”  plantada no passado , mas  a vida é rizoma que parteja raízes  novas onde elas  pareciam já ter secado : “O andarilho abastece de pernas as distâncias”, ensina o rizomático  Manoel de Barros.



quarta-feira, 26 de junho de 2019

es-claro


Se em uma prova de ciências alguém afirma que “a terra é plana” e leva zero , ele não pode contestar a nota alegando que o professor está cerceando o seu direito à “liberdade de ter uma opinião”. Afirmar que “a terra é plana” não é uma opinião, e sim uma ignorância em relação ao conhecimento adequado acerca da terra. Se alguém fala ou escreve algo que discrimina uma pessoa ou uma minoria e é processado por isso, esse alguém não pode dizer que o processo está limitando o seu direito à “liberdade de ter uma opinião”, pois emitir um preconceito ou injúria não é ter uma opinião, e sim mostrar-se um criminoso. O direito a ter e proferir livre opinião é a base ética, política e jurídica da democracia. Mas há um aspecto desse direito que nem sempre é esclarecido. E esclarecer é prática pedagógica que desfaz obscurantismos ( “es-clarecer” vem de “es-claro”: “tornar mais claro” ). O direito à liberdade de opinião é universal quanto à forma e não quanto ao conteúdo, pois há conteúdos que alguém diz ou escreve que não podem ser universalizáveis, já que se revelam erros, preconceitos, intolerâncias ou mesmo crime.
Para Espinosa, por exemplo, pensar não é apenas um direito formal à opinião : pensar também é o que expressamos no conteúdo do que escrevemos ou falamos. O direito à livre expressão da opinião existe em relação a algo que o deve preceder: que é a atividade de pensar. E pensar é a união de uma forma com um conteúdo, pensar é a união da linguagem com as ideias. As ideias são o conteúdo daquele que pensa e age. O pensar é o antídoto para as ignorâncias, sobretudo para aquelas que se mascaram de opinião.
O fascismo é uma ignorância que surge no início como opinião, travestindo-se como direito à liberdade de opinião. O perigo é quando os assim ignorantes tomam o poder do Estado, sobretudo se for pelo voto. Pois o voto que os elegeu apenas na forma é voto, já que seu conteúdo é o ódio à democracia e, mais profundamente, ódio ao pensar , ódio às ideias. O fascismo se vale dos mecanismos formais da democracia , como a eleição e o voto, para logo em seguida mostrar o que ele é em termos de conteúdo: ódio à democracia, ausência de ideias. O fascismo teme as ideias porque é delas que vem a força que lhe resiste e denuncia . E a maneira que o fascismo tem de se defender não é argumentando pautado em ideias, mas empregando a única força que ele conhece: a força da ameaça, do amordaçamento, enfim, a força da polícia ( incluindo as polícias do pensamento).




domingo, 23 de junho de 2019

a servidão voluntária


A servidão involuntária é aquela na qual um tirano impõe à força sua vontade a alguém ou a um povo , cuja liberdade é assim roubada. Acontece algo diferente com a servidão voluntária: ela não é a liberdade roubada, ela é a liberdade alienada . A servidão voluntária tem várias formas e maneiras de acontecer. Ela ocorre quando alguém se submete a um tirano por livre vontade , porém com a expectativa de também poder ser tirano e exercer poder autoritário sobre a vida dos outros. Muitas coisas podem servir de tirano para os que têm pendão para a servidão voluntária, mas nada faz hoje tantos servos quanto o cassino financeiro e seus juros, o protofascismo e a ignorância digitalizada. Há ainda os que se dizem “servos de Deus” somente para ter poder político e exercer tirania sobre os outros. O mecanismo psicológico e político da servidão voluntária não é querer ser servo , e sim tirano. Todo tirano imagina que ser forte é encontrar alguém mais servil que se ponha de joelho diante de sua opinião, credo ou farda. A tirania é , no fundo, uma fraqueza de ideias, de argumentos, enfim, uma fraqueza de vida que muitas vezes se esconde atrás da violência e da intolerância. Desconfiem sempre daqueles que dizem “sou servo da Lei” ou “ sou servo da Verdade” , pois o que estes querem na realidade é ser tiranos de toga ou de dogmas. Além disso , dizer-se servo da Lei ou da Verdade não significa a mesma coisa que ter amor à Justiça ou às ideias, pois ninguém ama o que liberta  movido por servidão. Por isso Espinosa ensinava: amar autenticamente a liberdade , sem aliená-la, é o que potencializa a vida contra toda forma de servidão e tirania.



sexta-feira, 21 de junho de 2019

a descida de Perséfone


No mito, Perséfone é filha de Zeus com Deméter.  Em latim, Deméter é “Ceres”, de onde vem “cereal”. Deméter simboliza a fertilidade da terra enquanto esta produz alimentos para a vida do corpo. Já sua filha Perséfone é aquela que representa a terra enquanto esta produz flores, que são alimentos que nutrem  os olhos , o olfato, o tato e , por intermédio destes, a  própria alma. Hades , o deus da escuridão subterrânea , apaixonou-se por Perséfone. Ele queria  enfeitar sua noite eterna com flores. Mas na região onde reina o Hades nada cresce: não há flores e cores, tampouco vida. Raptada e forçada a ficar lá embaixo, Perséfone passou a vestir-se de negro e só fazia nascer flores  féretras. Com a ausência das flores, a própria Deméter secou e se tornou estéril: não havia mais  flores e também frutos e cereais. Sentia-se fome de pão e beleza, de pão e poesia, e ninguém sabia qual das duas fomes doía mais. Zeus interveio e houve então um acordo: Perséfone ficaria  parte do ano totalmente lá embaixo, e parte do ano ela ficaria aqui em cima. Hoje, começo do inverno, Perséfone desceu. Precisaremos de força para atravessar esse tempo frio e sombrio, que coincide com o inverno obscurantista  desses fascistas  que querem  roubar também de nós tudo o que é vida e floresce. O retorno de Perséfone   coincide com o começo da primavera, quando então Perséfone se despe do negro, emerge das trevas e , em festa, floresce novamente cobrindo de poesia a terra.



as bruxas e o bruxo































- o poder teológico-político


O que se segue não tem natureza religiosa, faço apenas uma análise histórico-política ao modo de Espinosa. Ontem, o bozo engrossou três coros no evento teológico-político “Marcha para Jesus”: o de que ele seria o “Messias”, isto é, o próprio “Salvador” eleito por Deus ; o outro coro engrossado pelo bozo  é o de que o Brasil não tem uma “Senhora” ( um ataque ao catolicismo e sua padroeira, a “Nossa Senhora Aparecida”)  , para logo depois gritar em coro  o nome de Jesus. Curiosamente, o bozo não falou o nome “Jesus” quando esteve em Israel, usando apenas o nome “Deus” como se fosse o mesmo, embora aquele povo não aceite o nome de Jesus como Deus. A corrente teológico-política do bozo não aceita imagens, inclusive  a de Cristo. Mas a imagem de Cristo simboliza, também, a sua face humana ( o nome “Jesus” realça a vinculação judia, enquanto a designação “Cristo” , que é grega, tem uma abrangência maior).  Ao negar essa face humana , abre-se  o caminho teológico-político para as desumanidades apregoadas em nome de Deus. O islamismo tem Meca; o catolicismo , Roma. As diversas igrejas protestantes com matiz nacional referenciam cada uma a origem própria.  E o que tem o poder teológico-político de bozo? Qual é o  lugar histórico de culto que alimenta sua identidade? Qual é sua Meca? Qual sua Roma? O messias-bozo  fez dos EUA a sua Meca-Roma. De Roma os EUA têm a força bélica, de Meca a submissão a um único credo,  que nos EUA é o Capital.  Como prova de seu servilismo teológico-político, o messias-bozo peregrinou aos EUA para lá se pôr de joelhos. E é o mesmo o que ele quer para o Brasil.



quinta-feira, 20 de junho de 2019

linhas de fuga


“Linha de fuga" é uma ideia de Deleuze & Guattari. Linha de fuga não é fugir de algo por medo, mas fazer fugir algo de alguma coisa que se tornou prisão, para assim criar algo novo. Manoel de Barros dizia que "a poesia está guardada nas palavras": criar poesia é fazer fugir o sentido das palavras que se tornaram “acostumadas”, “mesmais”, “sem embrião”. O poder autoritário quer sempre cercar, prender, adestrar. Linha de fuga é prática ética , política e educacional de desabrir, fazer fluir, desterritorializar. A borboleta é a linha de fuga da lagarta, a justiça é a linha de fuga da lei, o pensar é a linha de fuga da mente, a arte é a linha de fuga da vida, o nós é a linha de fuga do eu.




( a frase do Deleuze colocada sobre a foto não se refere apenas ao aprender enquanto fase da vida pela qual todo professor passou quando era ainda aluno. Esse "antes" ao qual ele se refere me lembra um verso do Manoel: "A poesia está no antesmente verbal". É enquanto ensina, e para poder ter algo a ensinar, que o professor vai até ao antesmente, e lá encontra, ainda vivos dentro dele, aqueles com os quais aprendeu: é esse aprender a principal lição que o professor ensina)

terça-feira, 18 de junho de 2019

fios de ariadne


Na mitologia , o fio de Ariadne era uma linha segura  por aqueles que desejavam ir longe, muito longe, pois o fio saia de um novelo que não deixava  ninguém se perder. “Ariadne” significa, em grego, “aranha”. Assim como na aranha, é  do ventre de Ariadne que nasce seu  fio libertário e artista.  Ariadne também é o símbolo inesgotável da vida  : ventre absoluto, o fio que sai dela é para fazer linhas de fuga. Alguns bordam quadros com tal fio, outros compõem música; há ainda os que fazem versos com esse fio, enquanto outros  tecem filosofias. O fio se desprende de um novelo. “Novelo” significa: “novo elo”. O ventre de Ariadne é a pura potência para gerar novos elos . Às vezes, porém,  o fio de Ariadne precisa ser descoberto. Certa vez em um hospital psiquiátrico um interno se despiu do uniforme de louco que lhe colocaram, desfez a forma das roupas com significado pronto e acostumado, até achar de novo o fio tal como ele era antes de  um uniforme com  ele ser fabricado. O fio assim encontrado se metamorfoseou em sentido novo a ser bordado: e foi assim que Arthur Bispo do Rosário religou sua vida ao novelo criativo da humanidade inteira,  para assim bordar paisagens, personagens e recriar seu mundo.
O poder autoritário pode até tentar cortar o fio, ou com ele fabricar uniformes para tudo vestir homogêneo. Mas enquanto houver  o existir não conformista,   o  fio cortado pode ainda  ser achado e de novo puxado para com ele se bordar   linhas de fuga. Quando a gente dá as mãos para defender a  democracia, a pluralidade e a liberdade , nós mesmos  nos tornamos elos de um fio de Ariadne puxado do novelo da vida.

O fio de Ariadne se opõe ao fio das Moiras, as divindades que teciam o destino. Embora não fosse de ferro, o fio das Moiras era férreo: ninguém podia escapar do destino que elas traçavam, às vezes parecendo que elas teciam "camisas de força". O fio de Ariadne, ao contrário, nascia de um novelo inesgotável e servia para se reinventar destinos.






domingo, 16 de junho de 2019

50

Quando somos crianças , as coisas que fazemos não duram apenas o tempo em que aconteceram, nunca de fato o que se fez termina. Pois à medida em que avança o tempo, retorna à nossa vida o acontecido como parte de uma memória  que vai cada vez crescendo, parecendo muitas vezes mais real e viva do que a realidade na qual fomos  criança.
Quando o homem tem 60 ou 70 anos, por exemplo, o que ele fez ao 8 ainda está a fazer-se dentro dele. Porém, o que ele faz nos mesmos 60 ou 70 pode não mais voltar a reviver pela memória: talvez não haja mais um outro ele mesmo, num futuro próximo,  para rever a si mesmo na continuidade de um processo aberto, sempre a refazer-se. Além disso, quando evocamos essa infância revivida, nunca é só a memória que a traz de volta, pois também desse reviver a imaginação participa.
Assim, o que se faz aos 7 ou 8 anos o fazemos com nossa idade toda, que nunca sabemos ao certo qual será ela toda, de tal modo que aquilo que fazemos no começo traz essa força do que sempre retorna como na primeira vez que em que fora feito e vivido.
Na adolescência e juventude também tudo o que fazemos traz nossa vida toda ainda por  viver, porém   em rascunho mais fraco do que na infância. Isso se deve ao fato de que já não somos mais todo brincadeira, nossa mente já não é mais criadora do lúdico: o futuro se torna um plano cronometrado, mensurado, como se o tempo por vir apenas existisse para realizar nossos objetivos planos.
Quando se chega aos 50 anos, contudo, parece que aquilo que fazemos não traz mais a virtualidade de nossa vida inteira por vir. O futuro se  torna horizonte reduzido ao ato, ao aqui e agora. Isso pode levar lentamente ao desespero , como perda do futuro, tempo do desejo.  O maior desespero pode advir da não aceitação do tempo, trazendo uma fixação obsessiva em manter-se  como na juventude, mas apenas por fora, na aparência.
Mas o começo dessa idade pode também inaugurar uma atitude nova, pois é nela, e não aos 30 ou 40, que pode começar a ganhar força  essa percepção da virtualidade do todo da vida, todo este que nunca se esgota nos 50, ou 60, ou 70...
É por volta dos 50 que pode nascer essa percepção não totalmente racional ou pragmática , uma percepção filosófica-poética , desse todo da vida na infância começado, e cujo fim deve ser vivido como se o viveu em seu começou: na inocência .
Quem envelhece com essa compreensão talvez a “velhez” não o pegue: “Quando crescer vou virar criança” ( Manoel de Barros).