terça-feira, 19 de agosto de 2008






Mínimas XXXI


O que pode a arte,
sente-o o que em nós não é obra ainda.

***

Quando se abre a flor do amor,
debruça-se o sol para ver chegar a lua.

***

Rabisca-se primeiro no coração, antes de toda palavra,
a lição que nenhum livro sabe ainda.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008





RETRATOS

Ao pé da amendoeira
caem inertes as folhas amarelas,
que ainda ontem pareciam eternas.

Mas acima delas,
em verdes folhas inesperadas,
abre-se em broto a vida renovada.

segunda-feira, 28 de julho de 2008





A Bíblia só deveria ter folhas em branco:
que as palavras de Deus fossem os desenhos que nelas fizessem as crianças.

***

A lua só se torna cheia
quando nela o sol se reflete por inteiro ,
até de si se esquecer.

terça-feira, 22 de julho de 2008



Mínimas III


Nietzsche acreditava nas estrelas como divindades:
a luz que emanam bendiz todo caos.

O Deus de Descartes era a Régua:
no altar da Retidão,como vítima,
ele queria que fosse sacrificado o coração .

Platão invejava os pardais:
e como tais assobiou na palavra.

Como criança assaz curiosa,
Aristóteles queria desmontar toda a natureza,
ao preço de se perder o divino brinquedo.

Espinosa dava aulas sem dizer palavra:
de coração a coração se falava e se escutava.



Mínimas II


As ações são obras que se perdem
se nos detemos muito no esboço delas.

O bom livro é para ser lido com o ouvido.

Ao sutil vê quem é amigo das cores.

Não guarde palavras em sua alma:
são bagagens que limitam a viagem.

No desenho da criança
o inconsciente nos fala seu idioma.

Esquecer é aprender a viver de novo.

Ao seguirmos os passos do tempo na areia,
o tempo é o mesmo vento que apaga os passos atrás.

O melhor conselho é ação que se dá de presente.

Vive mais quem sabe ver as horas no coração.


MÁXIMAS MÍNIMAS


Mínimas I


O dia amanhecendo
na criança sorrindo se espelha.

A melhor maneira de ver no escuro
é mantendo a alma acesa.

A maior força não nasce do músculo,
mas do invisível impulso que pôs o coração a bater.

Pelo aroma da flor
a terra se transubstancia em alma.

Os sonhos são fronteiras que se apagam
assim que as atravessamos.

A insubmissão como meio;
a arte como fim;
o coração como princípio.

Só deve frutificar na boca
a palavra cuja semente na ação se plantou .

Amadurece-se não só na vida,
mas também na forma de expressão.

Há mais estrelas que mil vezes mil
todos os grãos de areia.

Estenda a mão como uma corda caída do céu.

O sol não tem memória do brilho que ontem fez.

O caminho para ir e o caminho para vir
não conhecem os mesmos pés.

Só as idéias que em visita passam pela nossa alma
podem nos trazer notícias de onde se esconde o Ser.

Quando um amigo lhe abre a casa
somente a entre se na porta deixar toda arma.

Ver seu próprio rosto na face do estranho
torna próximo o mais distante.

Os dias, os meses e os anos passam...
Mas nunca passa a eternidade.

sexta-feira, 27 de junho de 2008




Como se fosse uma cortina,
abri o dia:
era junho,
chovia,
e as horas partiam em bando
para além daqui.

Vi a sombra de um anjo no chão,
apenas a sombra,
como se contra ele estivesse o sol.

Só entendemos o passado
quando ele passa...
E estranha trapaça:
embora fantasma,
ainda nos aquece o seu lençol.

quarta-feira, 25 de junho de 2008



DOS AFETOS


O amor de Pigmaleão dera vida à estátua;
o medo dos homens faz os fantasmas baterem à porta;
a inocência da criança torna a bola do tamanho da terra azul.

A alegria de Espinosa punha Deus em todas as coisas;
a desconfiança de Descartes supunha o fel no beijo das moças;
a modéstia de Epicuro era cega para a coroa que lhe ia sobre a cabeça.

A confiança da rosa, quando se abre, torna amiga a natureza inteira;
a generosidade da mangueira dobra até mesmo a mais avara terra;
a fragilidade da orquídea faz divina a sua feminina beleza.




sábado, 21 de junho de 2008




As maiores verdades não são ditas
em palavras:
a cor, não a forma,
diz pela manhã a saúde da hora.


O tempo não é um velho,
mas uma criança:
dentre os seus vários brinquedos,
o sempre novo é a esperança.

Sabe-o quem com generosidade observa:
a parte da casa onde os deuses moram
não é a sala,
mas a janela.

Ao estender a mão para ajudar,
mantenha-a aberta para o cumprimento:
quando aquele que sofre a pegar,
puxe até pô-lo de pé diante do sofrimento.




quarta-feira, 11 de junho de 2008



O GATO E O ECLIPSE


Somente o gato,
misterioso que é ,
compreende o eclipse
e sob ele constitui sua fé:

enquanto os homens vêem no eclipse a lua ocultada,
no mesmo eclipse o gato vê a terra revelada:
naquela tela branca , em meio ao breu,
ele também encontra sua morada.


Livre, vagabundo, marginal ,artista...
acompanha o gato apenas sua própria sombra esguia:
esgueirando-se, malabarista, pula o gato da terra à lua,
e para todo o universo , seu único dono, ele mia.