sábado, 11 de outubro de 2025

Evento / Manoel de Barros

 

No poema “Achadouros”, Manoel de Barros nos fala de uma sábia contadora de histórias que ele conheceu quando criança. A sábia ensinava haver “achadouros” em Corumbá.

No sentido literal, os “achadouros” eram buracos que os holandeses cavaram antes de fugirem do Brasil séculos atrás.

Com o ouro surrupiado do rico subsolo de nossa ancestral Pindorama, os holandeses fabricaram moedas nas quais estamparam a coroa holandesa. Depois eles esconderam essas moedas de ouro nos tais buracos abertos no fundo de quintais, para que não ficassem com elas os colonizadores da coroa portuguesa, seus rivais.

Durante muito tempo em Corumbá, movidos pelo desejo de encontrar tais tesouros, os homens escavaram quintais para ver se ali achavam o ouro rapinado pelos colonizadores.

Mas o poeta compreendeu que a sábia falava também de outros “achadouros”, enquanto espaços a descobrir que guardavam diferentes tesouros.

Seguindo a lição da sábia, o poeta aprendeu a descobrir “achadouros” onde estão guardadas riquezas    que não vêm da usurpação do homem sobre o outro, riquezas que são, para a vida digna, verdadeiramente preciosas: escavando a palavra, o poeta acha nela sentidos novos não colonizados; escavando em si mesmo, o poeta acha horizontamentos libertários que partilha com os outros.  

Com sua arte que faz pensar, sentir e desperta, o poeta “desabre” nossos habituais olhos que o leem para que em nós achemos, quem sabe, olhares novos.

E toda essa riqueza   que o poeta acha, e generosamente partilha conosco, vem da potência transbordante de vida que, empoemando-o, guardou-se dentro do poeta como tesouro, cujo valor não se mede em moeda, capital ou ouro.

 



“Na ponta do meu lápis tem apenas nascimento” é um verso de Manoel. Esse verso pode ser interpretado de muitas maneiras . O lápis expressa o veículo de expressão do poeta, o instrumento que une sua mente e corpo. Na ponta do lápis do poeta nascem ideias que fazem nascer também ideias em quem o lê. Esse ato de dar nascimento a realidades que potencializam a vida pode ser um  antídoto à necropolítica, e é por isso que esse verso também é, em sua essência, político. 


Em breve, colocarei a programação completa do evento.




quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Perséfone/Pachamama

 

Segundo a mitologia, Hades é a divindade  que habita a região trevosa  muito abaixo da superfície da terra. Nesse lugar nenhuma luz entra.

Certa vez, porém, Hades ouviu uma voz cheia de vida vindo  da superfície. Ele subiu e viu que era Perséfone cantando... Ela estava com sua mãe , a deusa Ceres. De “ceres” vem “cereal”, pois Ceres é a divindade do plantio e colheita dos cereais.

 Ceres , por sua vez, é filha de  Cibele, a divindade  da fertilidade. Cibele é o Feminino Ancestral ( os povos originários da América a chamam de Pachamama).

 E foi em sua neta Perséfone que a fertilidade de Cibele se tornou uma força criativa semelhante àquela que vemos no artista, pois Perséfone é a divindade  cuja arte é fazer nascer flores: múltiplas e heterogêneas, flores de todas as cores.

Perséfone mata outra fome diferente daquela que Ceres mata: Perséfone mata a fome de arte, de poesia e de criatividade.

Hades se apaixonou pelas flores e quis levá-las para enfeitar sua noite eterna. Foi uma imensa surpresa,  ninguém imaginava que pudesse nascer no taciturno  Hades um desejo por cores.

Num ato condenável, Hades raptou então Perséfone para fazê-la morar lá embaixo . Porém, naquele mundo carente de luz , de Perséfone nasciam rosas só com espinhos , sem as pétalas, flores da dor que elas eram.

Enquanto isso, sentindo a falta de Perséfone, Ceres ficou deserta : o grão não mais germinava nela. Havia agora fome de pão e de beleza, de pão e de poesia, e ninguém sabia qual das duas fomes doía mais: a primeira esvaziava o estômago, a segunda ao coração secava. 

A pedido de Ceres, Zeus interveio e foi feito então um acordo. Durante parte do ano Perséfone viveria lá embaixo com Hades : sua ausência entre nós recebeu o nome de inverno.

Até que vem o ansiado tempo em que Perséfone sobe de volta  e enche de vida a terra :  tudo recomeça , renovado.

Hoje, as sombras não reinam  somente lá embaixo,  mentalidades sombrias  piores  nos ameaçam aqui em cima .  Apesar disso, nada detém  Perséfone e sua    primavera, tempo em que Perséfone chega para florir de vida  a terra.

 

 

 “O céu da teoria é cinza;

mas sempre verdejante é a árvore da vida.” 

(Goethe)

 

 “Eram os passarinhos que colocavam

primaveras nas palavras.” 

(Manoel de Barros)


 

( imagem:“O abraço amoroso de Pachamama”/Frida Kahlo)






sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O cacto e sua primavera

 

Muito se fala, com razão, das flores. Girassóis, crisântemos, margaridas...Essas e outras flores já foram homenageadas em poemas , músicas e pinturas.

Flores também são empregadas como símbolos: o lírio é símbolo da pureza e Iluminação; a rosa vermelha, das revoluções igualitárias.

Com a chegada da primavera, essas flores são ainda mais lembradas...

Mas pouco se fala das flores que o cacto também sabe produzir. Considero essa omissão uma injustiça com esse artista da resistência. Na dele, sem chamar a atenção ou fazer propaganda de si, o cacto é capaz de atos que expressam rara beleza e simbolizam generosidade.

Assim age esse perseverante e resistente poeta da natureza : o cacto é a planta que possui a maior raiz. Em alguns cactos, a extensão de sua raiz chega a nove ou dez vezes o tamanho do corpo do cacto que vemos à superfície do chão!

Quem mede o cacto apenas pela sua parte visível, e pensa que a parte que vê é todo o ser do cacto, por certo ignora o que o cacto é capaz de fazer. O cacto cria imensas raízes para sondar o subsolo , não se deixando vencer pela aridez que o cerca.

As raízes do cacto tateiam procurando veios d’água metros abaixo da paisagem seca. Ele persevera procurando no coração da Mãe-Terra a água que o Céu lhe nega.

Quando encontra a água, o cacto anuncia sua descoberta brotando flores: em pleno árido , ele inaugura uma primavera. Então, ele sorve o líquido e se intumesce, de água fresca ficando grávido. Basta um pequeno furo para a água jorrar matando a sede dos necessitados.

Foram os cactos do sertão nordestino que, no passado, não deixaram morrer de sede a rebeldia de Lampião e seu cangaço ; e a flor que Maria Bonita punha no cabelo também floresceu de um cacto : o mandacaru, símbolo da força do povo nordestino.

O cacto mandacaru expressa a resistência da vida, uma resistência que também se faz com poesia e beleza, apesar da aridez que a cerca. O mandacaru matou a sede de Lampião e deixou a Maria ainda mais Bonita.

Como ensina o grande poeta nordestino: “Quando não pode ser cristal, a poesia vale pelo que tem de cacto.”(João Cabral de Melo Neto)


(imagem: os cactos-poemas de João Cabral / o mandacaru e sua flor)






 

sábado, 20 de setembro de 2025

@semanistia / @pecdabandidagemnão

 

Em suas obras políticas, Espinosa critica a ideia de liberdade como “independência”. Para ele, ao contrário, toda liberdade autêntica é sempre a construção e afirmação de algum tipo de relação da qual  dependemos  para sermos livres.

Pois nada é livre vivendo à parte, toda liberdade é uma forma de relação ou agenciamento. Ser livre não é não depender de nada, ser livre é depender, antes de tudo , de nós mesmos para sermos livres, uma vez que a primeira das relações fundamentais é a relação consigo mesmo.

Um povo livre  não é aquele que se coloca à margem do mundo e em guerra com todos. Um povo livre é aquele que mais depende de si mesmo para governar a si mesmo.

Um povo que sabe que depende de si mesmo para construir sua liberdade nunca imagina que sua liberdade dependerá do Mercado, da Religião , do Patrão, da Mídia, do Capital... e muito menos da Casa-grande.

Quem  governa um povo livre é ele mesmo, pois um povo livre é aquele que mais depende de si mesmo para construir sua história.

Um povo livre  não é aquele que imagina  que houve uma data histórica no passado onde ocorreu sua suposta “independência’. Um povo livre é aquele que a cada vez cria a compreensão, aqui e agora, de que depende de si a construção de sua liberdade, para assim afastar milicos aproveitadores que se imaginam “donos da Independência”.

O governo mais favorável à luta do povo não é aquele que se coloca “acima do povo”, como um “pai” ou “padrasto”.

Um governo autoritário teológico-político de pretensos  “ungidos” sempre teme um povo esclarecido e autodeterminado.

O governo mais favorável à liberdade do povo é aquele que,   vindo do próprio povo, age para que o  povo mesmo compreenda que é ele que governa ao escolher os governantes. E que depende antes de tudo dele, do próprio povo em sua heterogeneidade,  escolher quem o auxiliará a depender cada vez mais de si mesmo na construção histórica de seu destino.

Um povo que depende cada vez mais de si para ser e construir a si mesmo é um povo que se educa, que cria sua arte, sua memória e seu futuro.

Não existe “Independência do Brasil” como se fosse um fato consumado. O que existe é a necessidade de construção da nossa liberdade coletiva com a compreensão de que depende de nós mesmos construirmos a nossa soberania, e que isso requer decisão, perseverança e coragem.

E melhor ainda se pudermos fazer isso cantando juntos, com Gil, Chico e Caetano.







 



sábado, 13 de setembro de 2025

evento: Deleuze - 100 anos.

 

Bom dia, estou participando desse evento organizado pelos professores Mário Bruno ( UERJ) e Leonardo Machado ( UFRJ) .


Um texto que escrevi sobre Deleuze:

Em seu comentário ao livro “A besta humana”, de Zola,   Deleuze aborda alguns  comportamentos hediond0s , de ontem e de hoje, identificáveis à  “besta”.

A besta não é um animal determinado da zoologia. A besta é uma espécie de “fundo indeterminado” propagador de (auto)destruição e m0rte, uma espécie de “buraco negro” que suga e extingue toda forma de luz.

Os instintos  protegem os animais  desse “fundo indeterminado”. Nenhum animal é capaz de cometer ato hediondo ou b4rbárie inexplicável, pois todos os seus comportamentos são explicáveis pelos instintos.

 A ferocidade do leão, por exemplo, não é maldade ou crueldade, mas um comportamento explicável por sua natureza de leão. Conhecendo essa natureza, podemos agir para evitarmos que essa ferocidade nos vitime.

No homem, o instinto não tem força suficiente  para protegê-lo desse fundo indeterminado . Tampouco pode a inteligência, sozinha, vencer esse “buraco negro”, o ninho onde dorme a besta.

Pois a inteligência , com suas teorias e invenções tecnológicas, é voltada para o domínio do mundo externo, de tal modo que a besta sempre se esconde às suas costas, como uma sombra.

Pode acontecer de a besta se servir dos frutos da inteligência e usá-los como  doenti4s armas suas : “mísseis  inteligentes”, por exemplo,  são a inteligência a serviço da besta e sua necrop0lític4 de extermínio que não poupa nem crianças...

Quando a besta toma a mente e a boca do homem, nasce então a “besteira” como  antieducação e anticonhecimento.  A besteira é a besta empregando a palavra para destruir o próprio universo simbólico.

Para quem sabe ouvir, crianças nunca dizem besteiras; somente os adultos que são uma besta  podem dizer besteiras que tortur4m os ouvidos do espírito .

 A besta pode até mesmo se servir da religião, tal como no f4natismo teológico-político  armado de int0lerânci4.

Quando a besta toma o homem, este se torna um ser irreconhecível , virando um bicho imprevisível que nem  a natureza  explica mais...                                                                                                                                                                                            

Na mitologia, a “Besta” era representada pelo Minotauro: metade touro, metade homem.  A besta morava num lúgubre labirinto que prendia a todos e parecia não ter saída.

Mas a bestialidade do Minotauro, sua “sede de sangue”,  não vinha do touro, que é herbívoro. A bestialidade vinha da  parte humana  acéfala e doenti4 ,  que usava a seu serviço a força bruta do touro  .

Além da inteligência, a  vida criou o pensamento. O pensar redireciona e amplia a inteligência , tornando-a   também  (cons)ciência planetária propagadora de ideias e afetos emancipadores.

Quando aceso, o pensar é luz que resiste ao buraco negro, iluminando  por dentro e por fora,  brotando da mesma energia que os instintos da vida, potencializando-se  pelo cultivo social  da empatia que agencia , da cooperação que congrega  e da indignação que une os que lutam contra as tirani4s.




 






 


Voz de Deleuze lendo um texto de Nietzsche intitulado "O andarilho". Esse texto de Nietzsche me lembrou o seguinte verso de Manoel : "O andarilho abastece de pernas as distâncias".




sábado, 6 de setembro de 2025

sem anistia/Brasil soberano

 

Como nos ensina Espinosa, a  democracia não tem por centro altares, como num templo, e nem é feita de  hierarquias rígidas, à maneira da caserna.

Quando os representantes do  templo  e da caserna , extrapolando seus espaços , também ambicionam  poder político, corre perigo  a democracia ameaçada por intolerâncias, negacionismos e  fanatismos  armados com a força  bruta do militarismo a serviço do delírio teológico-político.

A força da democracia não é bélica, a força da democracia  é a das ideias plurais pensadas e realizadas em conjunto , perseverantemente. E também em conjunto, e perseverantemente, precisam ser defendidas.

 

 

“A virtude com a qual o homem livre evita os perigos

revela-se tão grande quanto a virtude com a qual ele os enfrenta”.

( Espinosa, Ética, Quarta Parte, proposição  69)


"Poesia pode ser que seja fazer outro mundo."

(Manoel de Barros)







sábado, 30 de agosto de 2025

Filosofia

 

Quando alguém cobra dos políticos lisura no trato com a coisa pública, este alguém está exigindo uma virtude ética: a honestidade. E Ética é uma disciplina da filosofia.

Quando alguém diz: “O que esse cara fala não tem lógica! ”, quem assim critica também está reconhecendo a importância da filosofia, pois Lógica é uma disciplina filosófica.

Quando alguém ,sentindo, expressa: “ Como é bela essa música !”, igualmente emprega um valor da filosofia , uma vez que o “belo” ( assim como o “cômico”, o “dramático”, o “sublime”, etc) é uma categoria da Estética, uma disciplina da filosofia.

Quando alguém fala : “Sou pragmático, odeio teorias”, este alguém também não escapa da filosofia , pois “Pragmatismo” e “Utilitarismo” são correntes da filosofia.

E mesmo quando alguém questiona : “para que estudar filosofia?”, este alguém também está a filosofar, dado que questiona sobre a Teoria do Conhecimento ( ou Epistemologia), uma disciplina da filosofia.

E aqueles que precisam escrever Monografias, Dissertações de Mestrado ou Teses de Doutorado, mesmo que cursando “faculdades técnicas” , terão que estudar Metodologia Científica, uma disciplina filosófica.

Enfim, é impossível alguém existir e não se colocar em algum momento questões como: “O que é o tempo?”, “O que é a liberdade?”, “O que é a vida?”, “Por que existo?...” Não apenas para formular tais perguntas, mas também para vislumbrar respostas para elas, quem assim indaga igualmente bate à porta da filosofia , pois essas são questões de uma disciplina da filosofia chamada “Metafísica”.

A filosofia não está apenas nos livros escritos pelos filósofos, ela se encontra ainda mais nas situações da vida que nos obrigam a pensar, já que é impossível viver de forma digna e autêntica sem se deparar com questões filosóficas.

As crianças são filósofas /questionadoras por natureza, a mesma natureza de que fala Espinosa. Infelizmente, poderes tolhedores que cercam as crianças as afastam, com o tempo, dessa natureza questionadora.

Os tir4nos de toda espécie sempre temem o pensar, e fazem o máximo que podem para impedir que as pessoas, sobretudo os jovens, façam essa descoberta do pensar , ou se já o descobriram, não o exerçam . Não por acaso, Platão dizia que o tir4no é o antifilósofo.

Nada mais antifilosófico do que as tais escolas "cívico-militares" que o governador de São Paulo, capacho de tir4nos, quer impor como "cicuta" aos jovens .

Antes de estar nos livros, a filosofia está potencialmente na vida, pois pensar é uma exigência da própria vida , e antídoto contra os inimigos da educação emancipadora.







terça-feira, 26 de agosto de 2025

Artes e o ensino da filosofia

 


 Estarei participando, como mediador, do VI Encontro Nacional do Mestrado Profissional em Filosofia.

Área temática: Artes e o Ensino da Filosofia / dia 27/08, tarde e noite.

Maiores informações em:


https://eventos.galoa.com.br/enprof-filo-2025/page/6355-home




quinta-feira, 21 de agosto de 2025

O que é ser de esquerda ( Deleuze)

 

Certa vez , perguntaram ao filósofo Gilles Deleuze por qual razão ele nunca foi filiado a um partido, e aproveitaram  também para  indagá-lo  acerca do que é ser de esquerda.

O filósofo deu mais ou menos a seguinte resposta: antes de ser um posicionamento político-partidário, ser de esquerda expressa o modo como nos inserimos na existência.

A pessoa de direita parte, antes de tudo, do seu ego. Ela  vive no interior de um círculo no qual estão seus interesses, suas propriedades ( já  possuídas ou apenas desejadas), suas ambições, suas pretensões, suas opiniões...Mas também ocupam o círculo estreito do ego seus medos, seus ressentimentos , seus fantasmas, suas feridas mal curadas...

O homem de direita imagina que esse círculo estreito é o centro do mundo, de tal modo que tudo o que existe fora desse círculo, no espaço e no tempo, é para ele só “narrativa”. Daí seu desprezo pela ciência, pela história, pela sociologia e pela filosofia, e seu medo paranoico dos outros povos e suas maneiras diferentes de viver, medo esse traduzido na expressão “globalismo comunista”.

Pode parecer paradoxal, mas apenas seres que vivem num círculo existencial estreito adaptam-se a existirem  no interior de um rebanho ou massa. Pois rebanho não é um conjunto heterogêneo de singularidades, rebanho são indivíduos aprisionados a si mesmos e que se agregam em celas contíguas.

Ser existencialmente de esquerda, ao contrário, é partir daquilo que Espinosa chama de o Absolutamente Infinito. A percepção de esquerda se abre ao que não pode ser cercado ou contido, para   que a mente e o coração ligados a tal percepção permaneçam sempre abertos.

É a partir do infinito aberto que o ser existencialmente de esquerda  compreende que desse infinito  fazem parte o cosmos, o nosso planeta, as outras nações, o nosso país, a nossa cidade, o nosso bairro , o outro e, enfim, a sua pessoa.

Ser de esquerda é não se colocar como primeiro ou último numa concorrência, mas como parte singular  de realidades mais amplas e horizontadas (como ensina também  Manoel de Barros).

Ser de esquerda não é apenas compreender teoricamente isso, mas sobretudo agir a partir dessa percepção. E dessa percepção podem nascer  não apenas ações empáticas, solidárias, generosas , dignas , justas , corajosas e revolucionárias, pois dessa percepção também podem nascer poemas, músicas , artes e educação não menos revolucionárias.

 

(imagem: os filósofos Deleuze & Guattari e o livro que escreveram juntos)



 

Este texto também foi publicado como artigo neste site de professores de filosofia:

https://www.aproffib.com.br/post/esquerda-e-direita