sábado, 14 de maio de 2016

a rua e a praça

 O andarilho abastece de pernas as distâncias.
Manoel de Barros

Ir, indo.
Caetano

Os gregos inventaram a praça como espaço de poder. A praça era o plano horizontal das relações políticas, distinto do plano vertical dos Templos e da clausura dos Palácios. A praça era chamada de ágora , o coração da pólis. O termo "ágora"  provém de “agon”, raiz presente também em “agonia”. Uma alma agoniada é aquela na qual quereres diferentes ou pensamentos distintos lutam para a dominarem. “Agon” significa “disputa”. A praça, a ágora, era o lugar onde aconteciam disputas, lutas, medições de forças. Mas a arma de tais disputas não era a faca ou a lança, e sim outra arma. Arma sutil, eminentemente simbólica, mas que podia ser mais forte do que Aquiles ou ir mais longe do que a flecha. Essa arma era a palavra. Contudo, a palavra dita na ágora era palavra proferida individualmente: não raro tal palavra servia apenas a quem a enunciava  ( ou então ao círculo dos que professavam, ou fingiam professar, o mesmo credo, a mesma posição) . Por isso,   quem tinha dotes retóricos saia-se vencedor nos embates dialéticos, mesmo que por de trás das palavras convincentes não existissem ideias consistentes. Muitos se valiam da retórica para esconderam não apenas interesses escusos, como também a carência de ideias.
Os gregos inventaram a praça como espaço político, mas eles não inventaram as ruas. As ruas foram invenção dos romanos. As praças são lugares de parada, são espaços centrípetos. As ruas, ao contrário, são espaços de circulação , de deambulação e mesmo de linhas de fuga a  inventar. A praça possibilitou o surgimento do filósofo acadêmico, porém a mesma praça tornou-se oportunidade lucrativa para  espertos sofistas, de tal modo que sempre foi difícil separar aquele destes. A rua, diferentemente, fez nascer o andarilho, o cosmopolita, o desterritorializado, o itinerante: o filósofo-cometa, o pensador-artista liberto de  academias ou escolas. 
Sob o Império Romano, entretanto,   as ruas eram  vias  limitadas ligando  as cidades que o Império dominava . Com o fim do Império, as ruas se tornaram chão  dos peregrinos. Entre estes havia  aqueles que, como São Francisco, iam de  pés descalços  em busca da rua que levasse à invisível Pólis Celeste.
        Com o fim do poder imperial, muitas das  ruas por tal poder construídas, não obstante estarem inteiras,  findavam agora em  cidades em ruínas : as mesmas cidades   que ,outrora ,gabavam-se eternas. Uma cidade desaparece por meio de guerras ou catástrofes. Mas uma rua somente desaparece se o mato ou a floresta a fizerem retornar à natureza de onde saíra.
Com o crescimento da vida urbana, a rua deixou de ser mera coadjuvante da praça. A rua fez passar para dentro da cidade a experiência que outrora somente era vivida por aqueles que, saindo dos muros da cidade, cruzavam territórios ainda desertos. A praça tem limites. Mas as ruas não têm limites, pois uma se conecta com outra, às vezes se atravessam, rizomas que são.

 A Revolução Francesa se inspirou no modelo grego da ágora. Contudo, o século XIX, sob a inspiração de anarquistas e socialistas, tal século descobriu a rua como espaço político. A política que vem da rua é diferente daquela que é feita  na praça. Em Brasília, por exemplo, fala-se da "Praça dos Três Poderes". Mas é na rua que vive a potência inumerável. Na praça, a palavra ainda está refém da retórica individualizada, ao passo que a rua tem outra fala, às vezes anônima, mas altamente singularizada, pois por ela se expressam agentes coletivos de enunciação.
 O espaço político da rua é um espaço de travessia, não para chegar  ao Palácio , tampouco ao Templo;  pois a rua descobre o deus dos caminhos, bem como a anarquia coroada, multifacetada,  da multitudo em movimento. Enquanto espaço político, a rua  tem vida própria, libertando-se até mesmo  dos lugares aos quais ela leva, de tal modo que ela devém elo que liga o povo a ele mesmo, não exatamente ao seu passado, mas à sua condição ativa de povo por vir

Eu amo as ruas.
João do Rio


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