terça-feira, 25 de novembro de 2014

o coração, o desejo e a razão


Aquiles vai à frente
e puxa os demais.
Heitor também está à frente,
 para proteger quem está atrás.

Um é amigo da guerra,
o outro o é da paz.
E tudo no mundo pára,
para ver  quem   pode mais:
eles lutam não apenas no campo de batalha,
eles se enfrentam também no dos ideais.

Aquiles salta,
Heitor tem os pés no chão.
Aquiles ama a morte,
Heitor ama o irmão.
Se em Aquiles a poesia aos Deuses exalta,
em Heitor ela é obra da humana condição.

Morre Aquiles para viver na glória.
Morto foi Heitor em defesa de sua memória.
Quis Aquiles o extremo sem comparação.
Quis Heitor apenas a medida do coração.

Entre ambos havia uma muralha:
para o primeiro, um obstáculo;
para o segundo, uma proteção.
De longe os espreitava Ulisses,
 o homem da ardilosa razão.

Ulisses não tinha a coragem de Aquiles,
tampouco de Heitor a gratidão.
Sua arma era o cálculo,
a frieza da abstração.

E lá onde os corações ardendo se batem,
Ulisses dissimula sua fria ambição:
enquanto morrem os autênticos em combate,
esquivo  foge Ulisses com o ouro na mão.





****   ****

WITTGENSTEIN

Queria lhe mostrar a paisagem,
a única paisagem que há.
Embora única, ninguém a pode medir ou contar.

Ela está à frente,
atrás,
dentro e fora.

Ninguém a cerca,
ninguém é seu dono;
e para percorrê-la só a amando,
somente desejando livre  passear.

É ela que nos circunda quando a noite  ameaça,
é dela o ar que enviva o que se move e o que voa.
E quando tudo ao redor se afasta,
ela é a única que fica  e   perdoa.

Na doença, ela te cura;
na tristeza, ela te alegra;
na fome, ela te alimenta;
 na morte, ela te faz renascer.

Não importa se é dia ou noite:
ela se estende igual.
Não importa se chove ou faz sol:
nada a nega, nada a pode desfazer.

Queria lhe mostrar essa paisagem.
Queria lhe fazê-la viver.
Mas não se pode descrevê-la,
não se pode representá-la,
só a poesia a faz aparecer.

Ela é evidência e obscuridade,
clarão e recolhimento,
palavra e silêncio,
tempo e eternidade.

E ainda mais:
ela não coincide com esses extremos,
pois ela vive no meio.
E a partir daí se amplia,
idêntica à novidade.

A criança a faz brincando.
O pássaro a ensina voando.
A rosa a mostra exalando.
O sábio a diz se calando.
.

4 comentários:

Unknown disse...

Como a poesia pode mexer tanto conosco? Me fez bem tê-las lido. Foi você quem fez?
Abraço afetuoso,
Flávia

Elton Luiz Leite de Souza disse...

Olá, querida Flávia!
Sim, foi este seu professor que arriscou esses versinhos...rsss.Às vezes, há coisas que só consigo expressar em verso ou desenhando. Desconfio que são estas as melhores coisas que tenho a dizer...rsss...Gostaria de dar aulas versando ou desenhando...rss..
Mas o que gostaria mesmo é de recomendar esse extraordinário livro que postei. Inclusive, quero recomendá-lo ao Cássio, pois há uma questão museológica presente neste livro, e que envolve os mitos e certos documentos tangíveis que fazem parte de acervos.
Um grande abraço,

Unknown disse...

Professor,
Amei seus versos! Você ia achar engraçado se me visse aqui em casa na frente do computador enquanto eu lia... Fiquei muito feliz mesmo! Parabéns pelas poesias! Me permite citá-las no Facebook?
Sim, a arte é magnífica! Não lembro de ter compartilhado com o senhor, mas no início desse ano eu comecei aulas de pintura em tela no estilo impressionista. Tenho alguma telinhas, preciso evoluir muito, mas é um prazer sem medida olhar pra elas e ainda mais ter podido pintá-las e imaginar as próximas! rsrs
Então, tem mais um livro pra você me emprestar! rsrs Vou ler sim, com todo o prazer! O senhor tem o e-mail do Cássio? Se não, eu posso te passar pra que vocês conversem mais.
Obrigada por tudo! É sempre uma alegria falar com o senhor!
Abraço afetuoso,
Flavinha

Elton Luiz Leite de Souza disse...

Olá, Flávia!
Obrigado! Ainda estou aprendendo o Manoelês Archaico...rsss..O Manoelês é a língua para não se dizer coisa alguma, mas com sinceridade e verdade...rss..
Acabei de receber uma mensagem do Cássio. Obrigado por falar com ele. Ele estava pesquisando esse assunto, não sei se ainda o está. Aliás, esse livro também pode interessar a você, pois a Ilíada e a Odisseia são as obras que estão na origem ( a "origem que renova") da literatura ocidental.
Ah...pode usar à vontade os versos, isso me dará com certeza alegria.
Um grande abraço,