sexta-feira, 21 de setembro de 2012

visão fontana X olhar da morte


Segundo Maurice Blanchot, no texto intitulado “O olhar da morte”, o homem da ciência, quando faz do objetivismo um credo , conduz-se como alguém que, para conhecer um quarto, põe-se fora dele, e passa a olhá-lo pelo buraco da fechadura.Escondido, oculto, “neutro”, sem ter lugar naquilo que conhece, tal homem descreve todos os aspectos do quarto, suas dimensões e propriedades, mas se ausentando, ele mesmo, daquela realidade. Tal homem empresta seus olhos, ainda em vida, para que através deles olhe para a vida a morte. E ele crê que é daí que se pode produzir a “verdade”. Fatos como respirar, transpirar, rir, afetar-se, tudo o que conota a presença do corpo, são mantidos fora do quarto, neste lugar nenhum inventado por quem se ausenta da vida.Antes de tudo, o que tal postura objetiva é eliminar o corpo e o acontecimento, em nome de uma razão ou “ego transcendental” que imagina não fazer parte do mundo que conhece.
Os livros, as doutrinas , as leis, as academias, as “especializações”, etc., muitas vezes são como a fechadura dessa porta atrás da qual se quer esconder o desejo. Para a fechadura ter seu poder, é preciso que a porta esteja fechada, e a chave fique na posse dos doutos e dos sacerdotes de toda espécie, que a guardam como aquilo que não se pode ter acesso, a não ser depois da obtenção de Títulos, unções, batismos, latifúndios no Lattes... Até crescer nas costas um fardo, que é a “corcunda” que identifica , como diz Nietzsche, os que se deixam prender tanto com algemas de aço quanto com algemas feitas de algodão, estas últimas especialmente eficazes para a servidão voluntária.
Tal visão do conhecimento mantém o conhecedor sem se conhecer, uma vez que ele está onde não se vê, e tampouco pode ser visto . Mas se ele se ignora, como pode ele conhecer qualquer outra coisa?A morte vive de cercar, compartimentar, criar muros e portas, de trancar o que vive fora da vida, o que aumenta o valor das fechaduras e dos claustros, e legitima os ritos de tudo o que se isola em celas , sobretudo na cela das disciplinas fechadas sobre elas próprias. Este lugar fora do quarto, lugar nenhum, nele se apóia a ciência que se arroga como nada mais nada menos do que a “razão pura”.
A autêntica perspectiva, enquanto atividade constituinte da diferença, nunca se produz de fora, mas de dentro, na imanência. Para o conhecimento autêntico, o mundo não é um espaço em relação ao qual devemos nos colocar de fora, pois o mundo não tem paredes: ele é processo que se conhece sem segredos ou mistérios. O mundo não tem chaves ou fechaduras, embora ele possua passagens que levam sempre para dentro dele, ele que é, como diz Foucault, o Fora: indo para dentro dele, vamos igualmente para dentro de nós mesmos, pois somos do mundo uma dobra, como a onda o é do oceano.Se o mundo é o Fora, ir para dentro dele é afirmar o agenciamento, o encontro com outras dobras de nós diferentes, mas que são dobras do mesmo mundo que lhes existe e insiste imanente.Agenciamento é o processo de produção não de sujeitos, mas de agentes. O sujeito cartesiano ou kantiano “cogita” isolado, ele é o que olha atrás da porta, através da fechadura, ao passo que o agente produz sua autonomia no agenciamento, no qual o outro agente pode ser uma música, uma pintura , uma paisagem , uma molécula , um animal.
A perspectiva é relação, não isolamento atrás da porta. A perspectiva singular é afirmação também do desejo. A visão que apreende o mundo precisa ser multi,pluri, interconectada (com a vida, e não somente com a tela de um computador), tal como, no poeta, a “visão fontana”.Os instrumentos que aumentam a perspectiva imanente são os micros e os telescópios , tanto os físicos como os simbólicos, apontados para o infinito cosmológico e para o infinito microfísico. Também potencializa nossa perspectiva o bom cinema e as artes, sobretudo as não figurativas. Ter uma perspectiva não é se isolar ou se opor a outras perspectivas, mas achar o seu lugar numa rede de relações, tal como um ponto singular, ou raiz,  de um rizoma.
Os rizomas são formações vegetais que não possuem centro, e que crescem horizontalmente. Ao contrário das árvores, que possuem uma raiz que as fixa ao solo, um rizoma é constituído por uma multitudo de raízes, e em cada uma delas o rizoma se apóia para se mover e se expandir. As raízes de um rizoma são, ao mesmo tempo, sua semente e seu fruto, uma vez que é da raiz singular que o rizoma brota, raiz esta que o próprio rizoma produz.

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