sábado, 9 de dezembro de 2017

gravitacionais e eletromagnéticos

Há duas forças fundamentais na natureza: a força da gravidade  e a força eletromagnética. Elas atuam em realidades diferentes, e diferem também quanto aos efeitos que produzem.
A força da gravidade atrai os corpos de grande , média ou pequena massa. Sob tal força, os corpos são compelidos a ficarem juntos, mas sem formar uma unidade consistente. É tal força também que suscita os choques.O mundo visível e sua ordem objetiva é um efeito de tal força. Ela governa as galáxias, as estrelas, os sóis, os planetas, as plantas, os animais, o ar, a água,a pedra, os ventos e as marés ...governa também tuas pernas ao andar, tua mão ao escrever, teu sangue a correr , teu pulmão a respirar. Essa força preside toda forma de movimento extensivo. Em tudo o que se move ela imprime seu decreto: de mim ninguém escapa, de mim ninguém é livre.
Já a força eletromagnética age em uma esfera de realidade sutil, imperceptível aos olhos costumeiros . Tudo o que ela une forma uma realidade que persevera, durando, vibrando. Toda força eletromagnética é o equilíbrio entre  uma força centrípeta, que mantém singularidades coabitando em um núcleo, e uma força centrífuga, que a tudo quer liberar e nomadizar.  É desse equilíbrio que nasce a consistência de uma forma de organização que não é instável ou estável, mas metaestável.
As forças gravitacionais criam contiguidades, as forças eletromagnéticas engendram vibrações, irradiações, que se parecem mais com um pulsar do que com o ir e vir das coisas no espaço.
Os corpos que atraem o interesse são forças gravitacionais, porém é eletromagneticamente que as ideias puxam para si a mente que as pensa, fazendo-a vibrar. Pois é isto o pensar: uma vibração eletromagnética, ora centrípeta, como na construção de ideias e sua composição, ora centrífuga, como fluxo heraclítico, dionisíaco. Dobra e fluxo.
Uma força gravitacional somente pode ser vencida por  outra força gravitacional de amplitude maior, ao passo que as eletromagnéticas são forças de atração e repulsão, de criação e de crítica, de sim e de não, de construção e destruição:  elas atraem o que fortalece e auxilia certa composição, porém elas também  repelem o que é destrutivo para a vida de certa composição. Vibrações se sentem.
As forças gravitacionais agem nos nossos órgãos, incluindo o cérebro. Contudo, é no pensamento e no afeto  que as forças eletromagnéticas atuam, ensejando um corpo vibratório, intenso, como potência magnética inexplicável pela lógica extensa dos órgãos.

As forças eletromagnéticas não agem apenas no plano microfísico. Seus efeitos no plano visível podem ser vistos onde existam  invenções, criações, paixões; bem como rupturas, revoluções, enfim,  voos que ousam desafiar toda forma de peso e gravidade. 


a clínica

Certa vez, quando passava por um momento muito difícil , sonhei que seria operado do coração. No sonho, estava desesperado, pensava que não sobreviveria à operação. Até que , de repente, adentra a sala de cirurgia o cirurgião: era nada mais nada menos do que o poeta Fernando Pessoa! Pensei comigo: “só mesmo  um poeta para operar  um coração que sofre...” Sem demora, o cirurgião-poeta abriu meu peito, mas não  com bisturi, não sangrou , nem houve dor. Enfiou uma das mãos, porém não foi suficiente. Somente as duas mãos do poeta conseguiram tirar meu coração do peito : "Ele está pesado como um paralelepípedo! Preciso extrair o que lhe pesa”, diagnosticou o cirurgião-poeta. “O que lhe pesa não é coisa física, o que lhe pesa é a mágoa com o passado, a decepção com o presente , o medo do futuro e a descrença nos homens”, disse-me ele enquanto extraia tudo isso. Quando olhei para a mão do poeta, meu coração estava minúsculo. Protestei: “poeta, com esse coração pequenino não vou sobreviver!” O cirurgião-poeta então respondeu, terminando sua “clínica”: “Ele está assim pequeno porque deixei apenas o coração da criança.” De imediato acordei, já  amanhecia . Virei-me para pegar caneta e papel , queria registrar o sonho. Algo que estava sobre meu peitou caiu ao meu lado na cama, era um livro que adormeci lendo: “O Eu Profundo e os outros Eus”, de Fernando Pessoa.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

o alfabeto de espinosa 3

Minhas palavras não se ajuntam por sintaxe, mas por afeto.
Manoel de Barros

Uma letra diz mais sozinha ou na companhia de outra, formando uma sílaba? Uma letra diz mais sozinha ou em uma sílaba que faz parte de uma  palavra? Uma letra diz mais sozinha ou em uma sílaba que faz parte de uma palavra que fala uma mentira? Uma letra diz mais sozinha ou em uma sílaba que faz parte de uma palavra que profere uma verdade? Uma letra diz mais  sozinha  ou em uma sílaba que faz parte de uma palavra que alguém grita? Uma letra diz mais sozinha ou em uma sílaba que faz parte de uma palavra que alguém cala? Uma letra diz  mais  sozinha ou em uma sílaba que faz parte de uma palavra que alguém xinga? Uma letra diz mais sozinha ou em uma sílaba que faz parte de uma palavra que alguém canta?
Vista da perspectiva do ego, parece que é a letra que vem primeiro, parece que o ser isolado tem primazia. Porém louca seria a letra que  julgasse  dizer mais sozinha do que fazendo parte de uma   sílaba, como parte de uma  palavra, dentro de uma frase , compondo um livro. Pois é na imanência do livro, como parte de seu sentido, que uma letra de fato pode ampliar o seu sentido  expressando a si mesma naquilo que expressa o livro, desde que o livro não seja apenas frases, palavras, letras... mas expressão de um  dizer singular , vivo. 


ética...

Espinosa desejava  que sua Ética não tivesse o seu nome como autor. Não que ele quisesse se esconder ou ficar neutro. Quem lê Espinosa sabe que ele nada tem de neutro, porém ele não é  parcial ou sectário . Parecia ser esse o seu desejo: não seria ele que assinaria seu nome no pensamento,  seria o pensamento que  teria para si uma assinatura, simplesmente “Ética”. Haveria um nome melhor para o pensamento? Quem chama o pensamento de “Ética” certamente o conhece melhor do que aqueles que o chamam de Lógica, ou Teoria, ou Epistemologia, ou Política.
É como Ética que o pensamento também é Lógica, Ciência e Política.E a Política , a Ciência e a Lógica nada são se suas práticas, suas teorias e seus raciocínios forem apenas raciocínios, teorias e práticas, e não modos de ser  da Ética.



as carruagens



(trecho do livro)

No Fedro, Platão se valera da   ideia da carruagem   como modelo para a  compreensão da alma humana. A carruagem de Platão compõe-se de três elementos: o cocheiro e dois cavalos. Na carruagem de nossa alma, diz Platão, o cocheiro é a Razão: é esta que tem as rédeas e guia a carruagem para um rumo determinado, ao passo que aos cavalos cabe a obediência à disciplina imposta pela razão-cocheiro. Um dos cavalos, de cor branca, é dócil e receptivo aos comandos da razão: trata-se da Vontade. Mas o outro cavalo, de cor preta, é indisciplinado, convulsivo, rebelde. Quanto mais a razão quer comandá-lo, mais rígida ela precisa ser. Por mais que tente forçá-lo a seguir em linha reta, é sinuosamente, barrocamente, que o cavalo preto insiste em ir. Este cavalo preto é o Desejo. 
Segundo Platão, na carruagem de nossa alma a razão e o desejo, o cocheiro e o cavalo preto, estão sempre em conflito. Este nasce pela impossibilidade que a razão encontra de pôr o desejo na direção dos valores morais que ela visa atingir. A disciplina moral é a rédea da razão, às vezes também seu chicote,  mas  o desejo não se dobra, resiste, e segue atraído pelas  aparências  do mundo sensível  .  Seguir  o desejo é perder-se, desorientar-se, maldizia  Platão.  Mas a alma  não pode prescindir desse rebelde cavalo preto, uma vez que é dele que provém a maior parte da energia que a  faz mover-se. 

Curiosamente, uma outra imagem da carruagem inspirou Nietzsche. Trata-se da Carruagem de Dioniso, o Deus das Artes. Segundo o mito que cerca este Deus, Dioniso se locomovia em uma carruagem, sendo ele próprio o cocheiro. Mas, ao invés de cavalos, sua carruagem era puxada por panteras. Eram temíveis  feras transportando o deus e mostrando o grande poder de Dioniso para guiar a natureza. A arte não nega ou reprime a natureza  ( como o faz o cocheiro de Platão), mas a põe a seu serviço conforme uma disciplina que não é estrangeira à potência das panteras. Na natureza, as panteras são solitárias e jamais se unem. Porém, sob as mãos da arte, as panteras se tornam forças que se conjugam, que se agenciam, e conduzem a alma por sendas onde a razão não ousa ir.  Dioniso transforma a agressividade destrutiva e mortífera das pulsões-panteras em potência criativa afirmadora da vida. Dioniso é o próprio desejo que se tornou guia, cocheiro, domador: somente se pode segui-lo com a condição de transformar-se, conjugando  disciplina e inventividade na condução da carruagem . Esta segue para onde não se sabe, pois seu destino é o próprio percurso enquanto este se faz. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

o alfabeto de espinosa 2



                                                                                                                                                               

As vogais são a alma das letras
e as letras sem  vogais são corpos sem alma.
Espinosa ,Compêndio de gramática da língua hebraica

Tenha o que dizer,
e cada palavra irá ao lugar certo.
Lewis Carroll
.

  Uma letra isolada é um ser que pouco ou nada diz: se a repetirmos, ela apenas  reproduz a si mesma, sozinha, como um átomo, um ego. Mas quando uma letra encontra outra, havendo composição,desse encontro nasce um novo ser: a sílaba
A sílaba é a primeira criação de algo  comum : ela é o inauguramento do comum.A sílaba diz mais do que pode dizer cada letra isolada que lhe está integrada. 
Mesmo as sílabas também podem se juntar : dessa composição nasce um ser que não se reduz às sílabas ou às letras das quais a sílaba é feita. Esse novo ser é a palavra. Dentro da palavra as sílabas crescem, ao mesmo tempo em que crescem, dentro das sílabas,   as letras. As palavras aumentam as letras e as sílabas : não em tamanho, como o faz uma lente, mas em potência de existir, como parte de um comum de maior amplitude. 
Essa potência não pode ser medida com régua, pois seu tamanho equivale ao sentido que a palavra se torna apta a produzir.Dentro da palavra a letra existe mais do que sozinha, isto porque ela passa a existir agenciada, em composição. 
Mais do que a mera lógica ou a gramática, é o afeto que já se faz presente aí, unindo uma letra à outra :"minhas palavras se unem mais por afeto do que por sintaxe"(Manoel de Barros). É o afeto, e não a posse, o motor autêntico de todo  comum. O autêntico comum   não é o pensar igual ou o fazer igual, mas aumento de amplitude conquistada em agenciamento.Amplitude conquistada é aumento do poder de pensar e de agir , como potencialização do existir.
Na sílaba, cada letra singular não perde sua diferença. Ao contrário, esta é aumentada no encontro com outras diferenças que com ela se compõem. As palavras também podem se juntar, se compor. Essa composição é a produção de um novo ser que, por sua vez, as produz também, uma vez que as potencializa. Esse novo ser é a  frase. Nesta estão as letras ainda mais potencializadas, assim como as sílabas e as palavras.Das frases nascem ainda os textos, e destes os livros, enfim. O livro é o comum de maior amplitude que integra, sem negá-las, as amplitudes menores enquanto  graus seus ou expressões imanentes
Os livros nascem não por causa da letra,das sílabas , das frases ou dos textos. Os livros nascem da necessidade do espírito em se expressar. É pelo pensar que o espírito se expressa: o pensar  é sua maneira de agir
Visto da perspectiva do finito, parece que é a letra que vem primeiro, parece que o ser isolado tem primazia. No entanto,louca seria a letra que julgasse ser livre existindo à parte de toda sílaba, palavra, frase, livro. Pois é na imanência do livro, como parte de seu sentido, que uma letra de fato pode ser livre, expressando a si mesma naquilo que expressa o livro. 
Dessa maneira,vendo as coisas da perspectiva do eterno, da liberdade , sub specie aeternitatis , é o pensar que vem primeiro, pois ele é a produção de sentido que integra letras, sílabas, palavras, frases, textos, livros. É o infinito que se expressa em cada finito,  integrando-os em uma realidade superior na qual eles aumentam de potência, tal como a letra aumenta de potência na sílaba, a sílaba na palavra,a palavra na frase, a frase no texto, o texto no livro, e o livro no pensar, enquanto potência viva de produção de Sentido.
 Em Espinosa, a Natureza, ou Deus, é o Pensar Vivo,infinito, do qual cada pensar finito é uma letra. O infinito é o Incomum .
Não é a letra que faz nascer o livro, nem o livro faz nascer o pensar. É o pensar que já está presente na imanência da letra, como desejo ímpar, afirmativo. Assim, o finito passa a existir mais potente, integrado no Sentido que a tudo produz e em tudo se expressa, diferencialmente.



terça-feira, 5 de dezembro de 2017

voar fora da asa

O Poeta é semelhante a essa águia marinha 
que desdenha da seta, e afronta os vendavais; 
Exilado na terra, entre a plebe escarninha, 
não o deixam andar as asas colossais!
Baudelaire

Poesia é voar fora da asa.
Manoel de Barros

Sonhar é acordar-se para dentro.
Mário Quintana


O pássaro possuidor de maiores asas é o albatroz. A envergadura das asas do albatroz pode alcançar três metros, sendo inúmeras vezes maior do que o restante do corpo do pássaro.
O albatroz necessita de asas gigantes porque ele é o único ser que aceita o desafio do oceano. “Venha cobrir-me se tiver coragem!”, assim desafia o oceano  a todo vivente. O oceano é o horizonte em todas as direções. As asas do albatroz  são proporcionais ao tamanho do seu risco: horas voando, mesmo dias, sem poder pousar. Os pássaros de asas menores não ousam se aventurar muito distante da costa, seu território conhecido. A  costa é objeto de  tratados, mapas, cartilhas, ciência e opinião.  Quando muito longe vão, os pássaros de asas menores assim o fazem indo de ilha em ilha, de conhecido a conhecido. Mas não o albatroz: em seu voo metafísico, parte sem contar com ilha, porto ou qualquer outro lugar de parada. Ele vai aonde não alcança a vista. Ele conta apenas com suas asas, assim como Van Gogh contava apenas com suas tintas.
O albatroz pode ficar dias voando, mais de uma semana. Ele consegue assim voar porque a vida lhe  inventou uma estratégia: enquanto voa, metade de seu cérebro parece  adormecer, metade fica desperta. Depois, a parte acordada fecha os olhos e vai sonhar, enquanto que a parte que sonhava , agora renovada, desperta para ver. E nesta nova visão  renovada o mundo também se renova. O que pode nascer quando o sonho e a realidade, ao invés de se negarem, se somam, se agenciam? No albatroz-poeta, a parte desperta olha a realidade adiante, a realidade objetiva, ao passo  que a parte que sonha vê  outra realidade não  menos viva.E talvez seja essa parte lúdica a que de fato conduz todos os que "voam fora da asa": "acordando para dentro", ousam transver o que lhes está fora, para que as  asas físicas se metamorfoseiem em  asas de um Daimon ,  o ser das necessárias travessias.
Sem o desafio do oceano, suas asas não teriam crescido. Mas não é por já ter grandes asas que o albatroz criou coragem e enfrentou o desconhecido. Ao contrário, foi o próprio desconhecido que, no albatroz, se fez asas e ímpeto: como um artista que não imita prévios modelos, o desconhecido criou tanto o albatroz quanto o oceano, e, na sua dessemelhança, os fez um para o outro. O albatroz é o desconhecido que atrai a si mesmo, sobre si mesmo plana, e vence o peso da gravidade, por todos conhecido. O voo do albatroz é a liberdade em exercício: desterritorialização absoluta que se faz sem cartilha.
Porém, no meio do oceano, por vezes o albatroz avista um navio. Ele recolhe então as asas e pousa sobre o convés deste solo imprevisto. No convés daquele cotidiano, a marujada está entregue aos afazeres utilitários: um lava o piso, outro ajeita a vela. Fazem o que fazem sem pensar porque o fazem : reclamam a má sorte, e xingam baixinho quem lhes dá  ordens, enquanto sonham com o rum, a ilha do tesouro e pelo dia em que terão poder  e acumularão ouro. Quando o albatroz começa a andar sobre o piso, a marujada cai na gargalhada. Zomba a marujada do andar desengonçado que o pássaro executa. Isso acontece devido às asas gigantes do pássaro, que só então revelam o peso que o pássaro, sem o vento, mal consegue carregar. Em meio aos homens, anda o albatroz sem jeito, inábil para agir no mundo rasteiro.O albatroz não cabe nele mesmo: no rasteiro do chão, sua  liberdade parece, ali, inútil peso.
Mas logo o pássaro recupera sua força, pondo-se  pronto ao esforço para vencer a si mesmo: subitamente, o pássaro de novo abre as asas, descobre no invisível uma escada, e sobe por ela como um nobre em direção ao altar onde será coroado. Sereno, mas firme, no céu ele voa: para além de si ele abre a vida que não cabe nele. No convés, a marujada cala a gargalhada e, em silêncio, eleva seus olhos muito além de proa e popa, leme e mastro: graças ao pássaro, a marujada por um instante se esquece de tudo, e voa no pensamento também.

Eleva-se o albatroz tão alto, que não o alcançam pedras,flechas ou mísseis.Tampouco o atinge a opinião dos homens : as mesmas asas que no limite do chão impedem-no de andar como todo mundo anda, no céu ilimitado elas são  sua prova de nobreza, de coragem , de paixão. E quem ergue os olhos do chão avista em seu voo um corajoso exemplo.


sábado, 2 de dezembro de 2017

a mensagem

A nave Voyager , enviada ao espaço há 30 anos, acaba de sair do sistema solar e entrar no oceano desconhecido do cosmos. Ela tem apenas  o endereço do remetente, o destinatário é desconhecido, se é que existe um.  A Nasa colocou um disco de  cd feito de ouro nessa nave. Há sons gravados nele como mensagem   do que somos . O ouro foi escolhido pela sua durabilidade, e não pelo seu valor monetário. Esse disco pode durar até um milhão de anos, tempo superior ao que os cientistas supõem que  a humanidade ainda durará.

Assim, se esse disco for encontrado daqui a esse tempo, haverá nele  o relato, o poético relato, de certo ser estranho já extinto. Estão no disco , como testemunho do que somos e sentimos: sons de grilo e sapo; uma baleia cantando; batidas do coração de um recém-nascido, e as primeiras palavras de sua mãe quando ele abre os olhos; o som  das ondas cerebrais de uma jovem que acabou de se apaixonar; um cão doméstico latindo feliz ao retorno do seu dono; o som de um  beijo; sons de chuva e vento; o ribombar de um trovão ( e também o estrondo de um vulcão que acaba de acordar); risos de crianças brincando; o barulho suave de uma página de livro sendo folheada; o rizoma sonoro de todas as línguas e dialetos falados desejando um “bom dia”. Não há no disco sons de balas , de guerras ou bombas, tampouco discursos filosóficos , científicos ou religiosos proferindo  “Verdades Inquestionáveis e Eternas" acerca  do que somos , pois talvez já não seremos mais.

Noite estrelada sobre o Ródano, Van Gogh


a tempestade II

"Considerei os afetos humanos, tais como o amor, o ódio, a cólera, a inveja, a glória, a misericórdia e outras comoções do ânimo não como vícios da natureza humana, mas como propriedades que lhe pertencem, assim como o calor, o frio, as tempestades e trovoadas pertencem à natureza da atmosfera e que, embora incômodos, são contudo necessários, têm causas certas pelas quais nos esforçamos de entender sua natureza." (Espinosa)


De repente, o céu fica escuro, tenso. Nuvens espessas mal conseguem guardar o ódio que lhes está dentro. O céu imenso se torna pequeno para elas.
As nuvens estão carregadas de fúria incontida: elas querem briga, vingança, ferida; uma quer destruir a outra, que só por existir e ser outra já é inimiga.
Quando se chocam, soltam faíscas, e retumbam ofensas que ensurdecem a terra.
Ao fim, todas choram a mágoa líquida, e são os homens aqui debaixo, crianças da terra, que sofrem a consequência da celeste briga.
Depois de muito chorarem, o ódio já não as incha. O vento lhes passa por dentro, mais calmas as nuvens respiram.
Os pensamentos que nutriam se vão desfazendo,  era apenas isso aquele chumbo: pensamento de ódio recíproco.
Elas vão ficando transparentes, leves se vão abrindo, se reconciliando com o infinito.
Quando a alma de si mesmo se apossa, é como o azul aberto que ela se mostra, perdoando tudo.



Campo sob céu tempestuoso, Van Gogh







sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

espinosa e o clarão do relâmpago

Uma das afirmações  mais intrigantes de  Espinosa é aquela na qual ele diz, em sua Ética,  que os sentimentos ,  que supomos meramente “subjetivos”, são causados pelas mesmas causas que produzem, fora de nós,  as tempestades, as chuvas, os dias de sol, os dias nublados, as névoas, etc. Os sentimentos também fazem parte da natureza.
Isso explica porque os poetas se valem da linguagem para dizer que a alegria ou o amor são como um dia de sol, ao passo que a tristeza é como um dia nublado, ou a ira é como uma tempestade...Fernando Pessoa, por exemplo, dizia que existem duas paisagens: a de dentro e a de fora, e que ambas permutam suas cores. 
O procedimento de Espinosa é retirar o “ como se fosse”,  e afirmar : a alegria ou o amor são um  dia de sol; a tristeza e o ódio, um dia nublado. Há causas físicas que produzem a alegria e o ódio.
Mas assim como o dia e a noite são realidades que se alternam, também podem se alternar, dentro de nossa alma, a alegria e a tristeza nascidas das mesmas causas que geram o dia  e a noite, o sol e a chuva. É por isso que a alma vive passagens abruptas de um sentimento ao outro, ou então a presença dos dois, como naqueles dias em que, ao mesmo tempo, chove e faz sol. 
Espinosa também afirma, porém, que há uma alegria tão ativa que dela nunca pode nascer uma tristeza. Quando compreendemos as causas da tristeza, por exemplo, dessa compreensão nasce uma alegria que quer ser sempre aumentada por mais compreensão, para gerar mais alegria. Quanto mais compreensão obtemos, mais fica claro   que não foi a tristeza primeira que gerou essa alegria, a da compreensão, pois esta sempre estivera  dentro de nós desde o início: era nossa alma que, presa na incompreensão, ainda não havia intuído que a compreensão não pode nascer da incompreensão, assim como não pode nascer da escuridão a luz: a aurora não nasce da escuridão que  está à frente dela, a qual ela empurra e avasta;a aurora nasce da manhã que se encontra  atrás de seu avanço.
 O branco, dizem, é o somatório de todas as cores, enquanto  o negro, como o da noite, é a ausência das cores. Todavia, existe ainda a luz. Esta é mais do que o branco. O branco nasce do somatório das cores, ao passo que a luz não nasce de um somatório de cores, pois cada cor é uma modificação ou expressão da luz, inclusive o branco.  O negro se opõe ao branco, e ambos podem alternar , dentro e fora de nós. O branco e o negro podem misturar-se, dando vez ao cinza. Contudo, não se misturam a luz e a escuridão:  basta a luz aparecer para que a escuridão desapareça. A luz não faz a escuridão desaparecer negando-a. Basta a luz afirma-se para que a escuridão desapareça.
Essa luz da compreensão assemelha-se mais ao clarão de um relâmpago do que à irradiação do sol. Através da  janela que pintou Vermeer não é o branco do sol que entra, o que entra é o clarão de um relâmpago. Ao contrário do sol, o relâmpago não produz sombras. Ele não ilumina apenas por fora, clareia também por dentro, como ao leite que a leiteira derrama.
A tristeza faz chover literalmente dentro da gente, o coração quase se afoga. Já a alegria é um dia de sol que a tudo  aquece. Não são metáforas, são afecções, são afetos. Quando chove, lamentamos; quando faz sol, nos alegramos. Desse alegrar e lamentar vive a imaginação e seus humores.E há ainda aqueles que se alegram com a tristeza, sobretudo a alheia. Estes são os mais tristes... 
Mas a luz da compreensão entende porque às vezes chove, e noutras faz sol. Ela compreende iluminando a chuva: ela a ilumina, sem ser pela chuva molhada, entristecida. Tal luz  ilumina até mesmo o sol, como o sol do sol .
A compreensão é a principal virtude ou potência da mente. Compreender é mais do que o mero conhecer."Mente" deriva do termo latino mens. Algumas traduções vertem para "espírito",  sem conotação religiosa. Em Espinosa, não há uma teoria das faculdades, como há na tradição filosófica. A mente é uma só. Razão, memória, imaginação , vontade...são modos da mente, são maneiras de ela se expressar. A mente também é a ideia do corpo ao qual ela está ligada. Em latim, mens não é um substantivo, mas um verbo: pensar. Na tradução, portanto, perde-se a natureza de ação que a mente  é, pois "mente" é, para nós, um substantivo, algo parado, estático. Assim, a mente não é uma ação feita por um sujeito que dela se distinga, a mente é ação : atividade que se diferencia sem se dividir em partes exteriores umas às outras. Compreender é a ação da mente, a sua virtude. 

Tal  compreensão ilumina não apenas nossas alegrias, ilumina também nossas dores, para assim nos auxiliar a vencê-las. De onde essa luz parte, porém,  não faz chuva ou sol: simplesmente a luz faz-se  , autoproduzindo-se como  absoluto clarão. Em nós, esse clarão se torna visão não apenas teórica ou filosófica, ela também é visão poética. Como diz Manoel de Barros, tal visão poético-filosófica, clarão que ilumina por dentro e por fora,  é "olho divinatório", "visão fontana", "canção do ver" . 



Vermeer, A leiteira.