domingo, 22 de julho de 2018

o assobio


Há uma passagem do livro “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche, na  qual Zaratustra cede às lamúrias de um anão que o seguia. Queixando-se de fragilidade, o anão suplicava amor e amizade  a Zaratustra, e lhe  pedia para ir em seus ombros. Uma vantagem o anão disse que Zaratustra extrairia desse favor: o anão veria o caminho e guiaria Zaratustra. Então, Zaratustra instalou o anão sobre seus ombros e seguiu sua viagem. Porém, não seguiu muito, pois logo o anão começou a advertir Zaratustra dos perigos do caminho, perigos estes que o anão acreditava ver logo ali adiante. Zaratustra, contudo, nada via. O anão insistia, desesperado. Afirmava que logo ali havia um abismo, e antes deste um muro, e antes destes ainda ladrões, e lobos, e armadilhas, e a maldade, enfim. Chorando pelo infortúnio dos dois, já se imaginando roubados, envenenados, traídos, mordidos, dilacerados, enfim, vencidos, o anão julgou que o melhor seria parar, sentar, talvez se ajoelhar, e implorar ao destino perdão. Zaratustra já se inclinava para prostrar-se  derrotado  quando, de repente, um grito veio de dentro dele e protestou : “Pera lá, anão! Você quer é me submeter à tua covardia, às tuas pernas curtas!”. Livrando-se das seduções  da autopiedade, Zaratustra  expulsou o anão de suas costas. Foi a voz da vida,  da vida que resiste e avança, que protestou contra a resignação que já tomava conta do querer de Zaratustra. Em alguns, essa voz se faz alta para acordar quem dorme para a vida; noutros, nos já despertos, ela apenas canta, como em Cartola ou Orfeu, ou sabe se transfigurar em assobio, como em Manoel.





sábado, 21 de julho de 2018

o filósofo e o horizonte


O escritor Maurice Blanchot emprega  uma imagem para questionar  os  que defendem a “neutralidade” como atitude “justa” para enfrentar os perigos que ameaçam a sociedade e a vida.  Tal “neutralidade apolítica” seria como querer conhecer um quarto colocando-se fora dele, atrás da porta, e olhando para dentro pelo buraco da fechadura. O “neutro” imagina  descrever  assim apenas os fatos e tão somente os fatos que vê: sem “paixões” e envolvimentos , apenas a “razão pura”. Mas tal “neutralidade” , segundo Blanchot,  nada mais é , na maioria dos casos, do que  uma parcialidade que se dissimula,   ou  ainda mera alienação  mesmo.   Porém a  vida nunca é neutra : ela sempre toma partido a favor  daqueles que a querem mais viva  e por ela se arriscam, mesmo  correndo o risco de perdê-la. O oposto de se alienar  olhando a vida pela fechadura, ou por uma tela de tevê ou celular ,  o oposto disso é  fazer-se vivamente presente, mas sem perder de vista a janela . Se não houver janela, quebrar a parede para inventar uma ,  fazendo-se  abertura  por onde  entre luz e ar novo, para não sufocar.  Atrás de fechaduras fica quem se esconde, perto da janela vive quem ama horizontes.

( imagem: “O geógrafo”, de Vermeer. Segundo alguns, esse geógrafo a olhar para fora dos limites do quarto   seria o próprio Espinosa, o “geógrafo do pensamento”)





quarta-feira, 18 de julho de 2018

andar ao lado


“Odeio tanto seguir como ser seguido: para me acompanhar aonde vou, é preciso aprender a amar andar ao lado. ” (Nietzsche)

Não há nenhuma virtude no mero seguir. Quem segue ignora o caminho, e não sabe se ele vai dar num lugar melhor ou no abismo. Neste último caso, a verdade só é descoberta quando já se está caindo.... Há menos virtude ainda em querer ser seguido: tal pretensão às vezes nada mais é do que a vaidade de ter atrás de si muitos, para assim não se perder sozinho neste mundo sem rumo. O importante não é o que está no fim do caminho, o importante são os meios   que possibilitam o andar ao lado: cada qual sobre suas próprias pernas, ora aprendendo, ora ensinando, sem comparamentos , no mesmo sentido indo.

 “Não preciso do fim para chegar: a estrada põe sentido em mim. ” (Manoel de Barros).  
           

terça-feira, 17 de julho de 2018

poema & conceito


Poesia não é apenas versificação,
ela também é fabulação, narração de mundos.
Paulo Leminski

Segundo o poeta Leminski, três são as produções mais originais da mente: o Mito, o Conceito e o Número. A arte tende ao Mito, a filosofia se apoia no Conceito, a ciência só confia nos Números. O Mito é fabulação, o Conceito é conhecimento, o Número é descrição. Durante muito tempo, havia apenas o Mito. Depois, o Conceito veio tomar-lhe o posto . Hoje, o Número pretende dar conta de tudo.
Em sua origem, o Mito não era arte, pois a arte somente existe enquanto se refere a outra coisa diferente dela. A arte nasceu quando o homem tomou consciência da distinção entre algo que é real , “em si”, (não sendo, por isso mesmo,  inventado) e sua imagem produzida , enquanto realidade segunda, sensível. A realidade  pode ser coisa ou afeto. A pintura, por exemplo, imita a coisa, ao passo que a música imita o afeto . A poesia reúne pintura e música, por isso imita coisa e afeto, faz do afeto uma coisa real.  
Quando predominava o Mito não havia, portanto, distinção entre realidade e invenção. E talvez seja este o caráter imorredouro do Mito: a percepção de que toda realidade é invenção, mesmo a realidade que os Números pensam descrever “neutra e objetivamente”.
Somente quando surge o Conceito filosófico é que se teve, ou se inventou, a consciência da distinção entre realidade e invenção. Em Platão, por exemplo, o Conceito  nasce quando o Mito perde sua força geradora de mundos. O Conceito emerge desqualificando o Mito :este apenas balbuciaria a realidade sobre a qual o Conceito, e somente ele, sabe dissertar  com raciocínios  lógicos.  O Conceito substitui, ou crê substituir, o Mito como autoridade única para oferecer resposta à indagação fundamental: para quê e por que existimos? O Conceito pretende explicar a Origem e o Fim de toda existência, e não apenas da existência humana. O Conceito assim procede quando faz Racional Metafísica.  Porém, embora refute o Mito, o Conceito o absorve para fins pedagógicos, tornando-se a parte retórica e alegórica da filosofia. Por outro lado, o que era apenas um método ou andaime para o Conceito subir, o Número,  torna-se , com o tempo, o único critério objetivo para a mente se libertar da imaginação Mitológica e do pensamento metafísico, pois ambos impediriam a mente conhecer cientificamente a realidade, não a confundindo com fantasias e sonhos de olhos abertos. Com o triunfo da ciência, reina o Número.
Contudo, o infinitamente pequeno e o infinitamente grande parecem resistir a tal quantitativismo descricionista, de tal modo que a cosmologia e a microfísica contemporâneas parecem retornar ao Mito, ao mesmo tempo que reatam amizade com a metafísica.
Queremos introduzir um quarto elemento nessa trindade Mito-Conceito-Número. Talvez esse quarto elemento seja um todo do qual cada um dos três é um diferencial, uma parte. Esse quarto elemento é o Poema. O poema é invenção de mundos, instauração de “por quês?” e “porquês”, sendo também uma forma de conhecimento do mundo. O Poema pode auxiliar a mente a parar de brigar com a mente, quando esta se autodivide em impérios estanques.  A mente é apenas uma, conquanto se expresse vária. Não seria isso, talvez, o que Espinosa nomeia “Ciência Intuitiva”?





segunda-feira, 16 de julho de 2018

- lua em conjunção com vênus

O galo canta porque ele pressente,
ainda em meio à noite,
a manhã chegando.

Não seria esta a essência de todo cantar:
anunciar , na manhã que vem,
todas as manhãs que ainda vão chegar?

Sempre haverá uma manhã por vir,
por mais longa que seja a noite.
Disso sabe quem canta.







Com a mão direita segurando o passado,
para que não fuja,
e com a mão esquerda estendida ao futuro,
para que me puxe,
abro  meu coração para que entre  nele o agora.

domingo, 15 de julho de 2018

o espelho do mundo


Ao verem a terra de longe, os astronautas disseram a famosa frase: “ a terra é azul.” Porém, eles não viram  a verdade inteira...Toda superfície coberta de água se torna um espelho:  isso vale para uma poça, e ainda mais para os oceanos. Os astronautas viram apenas a cor e a forma da terra, porém não perceberam o que a terra é capaz de fazer: ela pode refletir o que está em torno dela, como todo espelho. A terra é o espelho da lua, do sol, do universo inteiro. Ela já reflete na pele celeste dela  o que o telescópio  Hubble, vasculhando a imensidão externa , leva muito tempo para começar a ver.A terra  devolve a cada ser do universo a imagem própria, para que por intermédio dela cada coisa,  mesmo o breu ao redor das estrelas,  se possa ver. A terra não é o centro do universo, ela é o espelho.Como um Narciso às avessas, ela é o espelho de tudo que a cerca, tal como é , em nós,  o pensamento que se fez  claro.





sábado, 14 de julho de 2018

mawaca /camões




Tu só, tu, puro amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte tua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

( Camões)

pensar multicor antifascista


DIFERENÇA ENTRE TER UMA PERSPECTIVA E TER  MERA OPINIÃO

Para haver perspectivas diferentes é preciso alguma coisa em COMUM entre as perspectivas. Por exemplo, o vermelho é uma cor, assim como o azul também o é. Vermelho e azul são perspectivas diferentes do que é ser uma cor. O branco não é uma cor, mas o apagar das múltiplas diferenças coloridas em um mesmo rebanho incolor. O preto também não é uma cor, mas o negar das cores e sua luminosidade sob uma desacesa homogeneidade. Branco e preto não são perspectivas sobre a cor: eles são um apagar e um negar a cor. É isto a opinião: um negar e um apagar o pensamento. É por isso que são sinônimas do não pensar  expressões  como “deu branco” e  “mente entrevada”. Entre o azul e o vermelho há diferença de perspectiva porque cada cor é, antes de tudo,  uma afirmação diferente de uma mesma realidade comum que se expressa de múltiplas maneiras. Já o preto e o branco, feito a opinião cega, não enxergam aquela realidade comum, pois negam e apagam cada expressão singular dela.
 Na política, as perspectivas nunca são neutras, afirmadoras que são da democracia. Liberdade, Igualdade e Fraternidade são perspectivas diferentes que têm na democracia o comum que lhes dá vida. Já “fascismo” vem de “feixe” : o   símbolo fascista é igualdade e liberdade como partes de um feixe ao redor do cabo de um machado vermelho  , parecendo uma  arma suja de sangue... Assim,  liberdade e  igualdade, como meras palavras , podem estar na boca tanto  de um fascista quanto na de um democrata, sem distingui-los . Pois o que os distingue de verdade é a defesa do comum: o democrata extrai do comum a força de sua perspectiva construtiva, enquanto o fascista põe a     liberdade (de “opinião”) e a igualdade  ( “homogeneizante” ) a serviço de seu machado a  ameaçar de morte a heterogeneidade social.
.                                                                                                                                                                                           
 ( imagem: Espinosa  - pensar  multicor antifascista)





(imagem abaixo: o preto, o branco e o feixe como cabo de um machado  sujo de sangue, símbolo-bandeira do fascismo)


sexta-feira, 13 de julho de 2018

armas


Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas
Deleuze 
      

A arma do pintor são as tintas; do pensador, ação e palavras.
A arma do poeta são os versos; do educador, exemplo e aulas.
A arma do democrata é a democracia:
ora resistência , ora avanço , sempre união.




terça-feira, 10 de julho de 2018

os comparamentos matam a comunhão


“Os comparamentos matam a comunhão” . Esse pensamento de Manoel ilustra  o que Espinosa chama de “perfeição”. Esta  não nasce da comparação entre dois seres, mas da capacidade que tem um ser de realizar uma ação, de acordo com sua maneira de ser. Perfeição não é um “Modelo Ideal” ou “Padrão”  a ser alcançado, do qual alguns estão mais pertos e outros mais longe.  Perfeição é o que  um ser realiza,  acentuando sua singularidade, de acordo com aquilo que ele pode. Na paraolimpíada, por exemplo, faremos uma ideia equivocada da perfeição se compararmos um nadador paraolímpico com um olímpico, tomando este último como modelo para julgar aquele, dado que a ausência de um braço ou perna no primeiro somente é uma “falta” quando o comparamos com o nadador olímpico que os tenha. Porém, nenhuma comparação nos ensina a conhecer a singularidade de algo. Visto nele mesmo, em sua singularidade, o nadador paraolímpico não se explica por algo que lhe falta, mas por aquilo que ele é capaz de fazer. E neste fazer não há falta, há potência como expressão ou comunhão afirmativa da vida. O nadador paraolímpico e o olímpico têm algo em comum: são atletas. Cada um expressa esse comum de acordo com o que pode. E não é apenas com braços e pernas que se nada, antes é preciso a força da mente.
Manoel de Barros também dizia: “Não sou afeito a comparamentos, o poema surge da comunhão”.  Ser incomparável nada tem a ver com ser o primeiro de uma escala que vai do primeiro lugar ao último. Ser incomparável é ser único, fazendo-se único, isto é, exemplo de superação . Não superação dos outros, mas superação de si mesmo.
                                                                                                                                                                  
(imagem: incomparável ágora brincativa)