quarta-feira, 1 de setembro de 2010

trecho do livro "Manoel de Barros:a poética do deslimite" (Editora 7letras/FAPERJ), a sair em dezembro




No "Livro de pré-coisas" , na prosa poética intitulada "Agroval", Manoel de Barros descreve um acontecimento ordinário do pantanal. “Ordinário”, aqui, significa a mesma coisa que comum ou regular. À idéia de “ordinário” costumamos opor a noção de “extraordinário”. Vale a pena lembrar a origem matemática destes termos. Na matemática, os “pontos ordinários” de um triângulo são os inumeráveis e indistintos pontos que ocupam cada um dos lados da figura, ao passo que seus três “pontos extraordinários”, ou singulares, localizam-se em cada ângulo do triângulo. Em uma reta, por sua vez, os pontos extraordinários são dois: aqueles que ocupam os extremos da linha.
Todavia, a diferença entre ordinário e extraordinário mostra toda a sua riqueza quando examinamos o círculo. Aparentemente, tal figura geométrica é destituída de pontos extraordinários ou singulares. Mais do que uma linha reta, geralmente costuma-se afirmar que nossa vida é um círculo: o círculo de nossa vida. Então, estaria o círculo de nossa existência destituído de momentos singulares? Estaria nossa vida refém do ordinário?
Mas o círculo guarda um segredo, tanto na matemática como na vida: qualquer ponto ordinário seu pode metamorfosear-se em ponto extraordinário, se por ele passar uma tangente. No encontro da tangente com o círculo, ambos dividirão o mesmo ponto, abrindo assim o círculo a uma força que vem de fora de seus limites e contornos. Quando o ordinário se converte em extraordinário, acontece o deslimite -renovando-se a vida.
Assim, entre o ordinário e o extraordinário não existe uma diferença intransponível: é no seio do ordinário que o extraordinário acontece. “Cada coisa ordinária é um elemento de estima”, afirma o poeta. Pois, complementa, “é no ínfimo que eu vejo a exuberância”. Em "O Guardador de águas", ele revela ainda: “No achamento do chão também foram descobertas as origens do vôo.” É no ordinário do chão que o extraordinário, como vôo, é “achado”. Enfim, “o chão é um ensino”.

"O que eu descubro ao fim da minha Estética da Ordinariedade , afirma o poeta,é que eu gostaria de redimir as pobres coisas do chão".

sábado, 7 de agosto de 2010

passagem




Quem me pensava morto, destruído, acabado, vencido...
desconhece o que pode o meu escudo.
Não revido aos que a mim mostram o punho.
Mas firmemente me recolho ao que sou para ao alto tomar impulso.

Não estou onde você pensa,
nem caibo em sua mente definidora.
Nunca estou pronto: sou só rascunho.

Não me atrai ouro, título ou palavra que desperdiça o sentido.
Cativam-me gestos simples , pois só estes são amigos.
O camaleão é meu mestre.
E quem não fala de si, o monge que sigo.

Sou para fora, mas brotando de dentro.
Não conto quantos sou,
mas sei que sou muitos.

Já perdi quando ganhei,
e ganhei mesmo tendo perdido.
E tudo o que aprendi lhe ofereço,
e de graça,
pois mais falsa é a lição quanto maior for seu preço.

Não preciso mais ir,
pois já estou onde quero.
E preferiria a madeira mais simples ao mármore,
se fosse para me fazer esculpido.

Despi-me de toda leitura,
para em minha boca falar o simples.
Pois quem só diz palavra no que diz,
é porque já não nasce do coração o sentido.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

o sonho de adão





Adão, o primeiro homem, conhecia apenas o dormir: o entrar dentro do sono e nada mais ver ou sentir. O sono era, dentro de Adão, a expressão da escuridão que existia antes de a Luz realizar sua obra. Na mitologia grega, Hipnos, o Deus do Sono , é irmão gêmeo de Thânatos, o Deus da Morte. Quem entra no sono , assim nos parece, morre de alguma maneira.
Porém, dentro de Adão aconteceu , certa vez, algo misterioso. E isto aconteceu enquanto ele dormia. No meio do sono, uma Luz se acendeu. No meio da morte que o sono era, Adão renasceu: a referida Luz atingiu seus olhos, mas não os da carne, e os invisíveis olhos se abriram pela primeira vez. Como uma aurora anunciando um novo dia , despontou ,na noite do sono, as cores do primeiro sonho. Algo em Adão se fez dia, paisagem, vida - embora ele dormisse ainda. Sonhando, pela primeira vez Adão via. E ele viu mais claro do que sob a luz do dia que Deus fez. E o que ele viu? Adão viu, pela primeira vez, Eva. Nunca antes ele a vira, pois Eva não fora feita pela Luz que fizera os dias. E estes, outrora perfeitos, incompletos agora se revelavam, pois nestes Eva não vivia . Mas ali estava ela agora, luz nascida do desejo e do sonho de Adão. Não houve antes o sonho e depois Eva, pois Eva era o sonho que nascia de dentro do sono, apagando-o por completo , dando ao sono um sentido. Eva era a luz que iluminava, por completo, a face interna de Adão.
Então, Deus viu Eva, a viu através dos olhos fechados de Adão, que estavam como nunca abertos. De olhos fechados, Adão sorriu pela primeira vez; e falava com as palavras que Deus lhe ensinara , e só agora elas pareciam realmente terem completo sentido, vez que eram ditas para Eva. Assim nasceu o poema, como palavra que se diz para o ser que nasce no sonho, e neste vive.
Enquanto Adão sonhava, Deus retirou-lhe uma costela, uma porção de sua matéria, e ali esculpiu o que Ele, através de Adão, via. E assim nasceu Eva, não como simples fruto da costela, como erradamente se interpreta, mas como fruto que nasceu do desejo de Adão. E neste desejo não havia, como não há, pecado. Nas asas desse desejo Adão, como um anjo, voou. E este Adão que assim voou, o Adão-Poeta, nunca o alcançará o Adão que nunca sonha, e que do voo só conhece a queda.



segunda-feira, 10 de maio de 2010

a calça




Quando eu era adolescente, não querendo dar trabalho à minha mãe e desejando exercer um pouco de autonomia, fui eu mesmo, certo dia, lavar uma calça jeans minha. Como não tínhamos máquina de lavar, fiz a tarefa à mão.Após lavá-la, coloquei então a calça para secar, estendida no varal de nosso pequeno quintal.
Na manhã do dia seguinte, notei que a calça havia caído do varal, provavelmente arremessada por algum vento mais forte. Uma das pernas caiu dentro de uma bacia com um líquido que eu pensara ser apenas água. Peguei a calça e a pus novamente para secar.
Horas depois, percebi que o líquido da bacia não era apenas água, mas sim água sanitária, pois a perna que caíra no recipiente estava completamente desbotada.
Minha percepção se sentira atraída por aquele efeito diferente, que nunca antes eu vira em calça alguma. Peguei a calça e resolvi mergulhá-la por inteiro na bacia com água sanitária...
No dia seguinte, vi o resultado: aquela calça , paradoxalmente, era e não era mais uma calça, pois ela se tornara um signo através do qual eu poderia expressar o mundo que eu trazia dentro. Nunca antes eu havia visto uma calça assim, e era isso que me fazia ver algo de novo nela. Subtraída do comum ao qual pertencia, a calça agora se tornara um ser singular cuja positividade maior era a sua diferença.
Ao pôr a calça, eu vestia não apenas meu corpo, mas também meu espírito - pois este, por ser diferente, somente por algo diferente pode ser vestido.
Quando sai à rua, algumas pessoas me interrogavam com um olhar curioso, enquanto outras me julgavam com um olhar de reprovação. Percebi então a tirania do senso comum, que logo se mostra quando algo destoa de seu olhar homogenizador e padronizante. Tive que tomar naquela breve situação a mais importante decisão, que certamente determinaria minha vida dali por diante: ou voltar para casa e colocar uma calça/alma igual a de todos, ou continuar sendo o que era, e enfrentar o inimigo que também estava dentro de mim... Decidi seguir meu caminho e afirmar minha diferença enfim vestida .
Chegando ao colégio, um amigo do peito gostou do efeito, pois a alma dele, como a alma de quase todos, estava nua e queria também vestir-se. Mostrei-lhe como se fazia, a alma dele também se vestiu, e assim eu já não estava mais sozinho.

sábado, 17 de abril de 2010

Dioniso



A história de Dioniso começa com a paixão de Zeus por uma simples mortal, a princesa Sêmele. Seduzida pelo deus, a mortal engravidara. Desse amor entre Zeus e Sêmele nasceu então Dioniso. A natureza de Dioniso se compunha desses dois mundos, nele misturados: o mundo eterno dos deuses e o mundo temporal dos homens.
Quando Dioniso era ainda uma pequena criança, fora vítima de terrível violência: seus irmãos da parte divina, enciumados com a beleza do deus-criança, avançaram sobre ele e, com atroz fúria, o fizeram em pedaços. Quando Zeus chegou, diante dele apresentou-se a sinistra cena: esquartejado, o corpo do deus-criança estava a um canto jogado. De súbito, Zeus perguntou a si mesmo: “Em qual dessas partes Dioniso está por inteiro? Pois a partir dela posso fazer renascer o deus”. Zeus descobriu então que a parte do corpo que guardava Dioniso era exatamente o coração, pois o coração era a sua parte eterna. O coração enquanto sensibilidade e afeto,ponto onde vida e arte estão inseparáveis.O coração não se explica pela quantidade material que se pode despedaçar,pois ele é a integridade de uma qualidade indestrutível. Zeus recriou novamente o deus Dioniso, fazendo este nascer de novo a partir do coração do deus-criança. Esse fato explica o nome do deus: Di-oniso, “aquele que nasceu duas vezes”.
Contudo, o segundo nascimento foi, na verdade, um renascimento. Isto explica a grande força desse deus: a todos aqueles cuja vida foi despedaçada ou violentada por algum motivo, Dioniso socorre com a crença em uma vida renovada, intensificada. Enquanto o nascimento biológico ocorre uma única vez, o renascimento através do coração pode acontecer inúmeras vezes, pois o coração, enquanto morada do desejo, nele nos mantém inteiros .

segunda-feira, 29 de março de 2010

as duas paisagens




"Na plenitude da felicidade cada dia é uma vida inteira".

Goethe



Segundo Fernando Pessoa, existem duas paisagens: a paisagem de dentro e a paisagem de fora. Cada uma delas possui um sol: o sol da paisagem de fora é esse astro incandescente que vemos no céu todos os dias (às vezes inclemente, como em dezembro; noutras, atrás de nuvens que o encobrem, como acontece em junho).
O sol da paisagem de dentro é o coração. No entanto, enquanto na paisagem de fora há uma lei férrea de sucessão das estações (o inverno sucede ao outono, este por sua vez sucede ao verão, e este último se segue à primavera), na paisagem de dentro uma outra lógica se opera: por vezes, dura dentro de nós um verão interminável:sob o crivo de seu meio-dia, tudo o que é sombra se desfaz. Noutras vezes, ao contrário, se instala na paisagem de dentro um inverno de densas tempestades e bruscas nevascas: em pleno meio-dia, já é noite... Some de nossas vistas espirituais o caminho que nos levava ao que desejávamos, tateamos numa noite que nos vai dentro. Mesmo que na paisagem de fora esteja a brilhar um sol de dezembro, em plena Ipanema, o inverno de dentro às vezes perdura, invencível ─ achamo-nos no Alaska.
E o mais estranho é que, na paisagem de dentro, por vezes esse mesmo inverno é substituído por um verão que chega sem aviso. Então, a neve que antes nos imobilizava, prontamente se derrete: torna-se a poça d’água na qual vemos refletido o céu azul que , de tanto andarmos de cabeça baixa, esquecemos que existia.
A felicidade suprema talvez seja quando os dois sóis (o sol de fora girando em seu céu misterioso e o sol de dentro pulsando em seu céu mais misterioso ainda) brilham juntos numa primavera de renovação ou num outono sem pressa , onde aquece o lume de uma felicidade conquistada , contentemente viva : beatitude.