sábado, 24 de janeiro de 2026

conservar , reformar e revolucionar

 

Vida e  política giram  em torno destes três verbos: conservar, transformar e revolucionar. O conservar é o credo dos conservadores, o transformar é o interesse dos reformistas, o revolucionar é a prática dos revolucionários.

Os conservadores exaltam a Ordem e querem mantê-la, não importando se ela é injusta; os reformistas querem mudança, mas negociada e sem romper com a ordem estabelecida; já os revolucionários pensam e agem para criar uma realidade nova, sem negociatas e concessões à ordem antiga.

Os conservadores são saudosistas, os reformistas são utilitaristas, os revolucionários  são artistas ( cuja obra a criar  é , sobretudo, um novo modo de vida) .

O conservador idolatra o passado, o reformista é refém do presente “líquido” , o revolucionário age por um futuro que nos liberte do passado e crie um “fio de Ariadne” que nos tire deste distópico presente-labirinto .   

O poder é sempre conservador; a lei é o usual   instrumento do reformista; porém é o desejo de justiça que expressa a potência de todo  revolucionário.

Quando o conservador pensa em arma, ele pensa na arma literal, destrutiva; já o reformista tem por arma a política representativa; mas  a arma do revolucionário é   a educação, a cultura,  a arte , o amor...pois em tudo isso há política.

A diferença entre o conservador e o revolucionário salta aos olhos, porém nem sempre é evidente o que distingue o reformista do revolucionário. Na boca de um e de outro sempre está uma palavra: o “possível”.

Mas reformistas e revolucionários não pensam a ideia de possível da mesma maneira. No reformista, o possível é aquilo pode ser  realizado, ao passo que no revolucionário o possível é o que precisa ser criado. Realizar não é a mesma coisa que criar.

O músico que toca no palco realiza a música que o compositor, antes dele ,  criou. Já o compositor criou a música e assim a tornou real. O compositor-criador cria uma realidade nova: ele “ouve” a música que nunca foi  tocada.

O reformista  realiza o possível de acordo com o que está estabelecido em um real dado. Já  o revolucionário cria o possível ainda que o real dado lhe diga que é impossível criar outras possibilidades de vida e de existência.

O revolucionário não age a partir do já estabelecido, tampouco se ajoelha diante dos valores dados:   o revolucionário cria o possível mesmo quando, antes de sua criação, criar algo novo parecia impossível de ser criado.

Como ensina Foucault : "Um pouco de possível para não sufocarmos".

( este livro é apenas uma sugestão)



sábado, 17 de janeiro de 2026

Imitar, recriando.

 

A imitação é um dos comportamentos mais singulares que podemos observar nos seres vivos. O filhote de passarinho, ainda no ninho, aprende a voar imitando seus genitores; o pequeno leãozinho aprende a ser leão imitando seus pais. Pois imitar é a forma primeira de aprender : não só aprender a se comportar desta ou daquela maneira, mas aprender a ser aquilo que se é.

A arte também é prática de imitação (mímesis): quando um pintor  pinta uma maçã, a maçã pintada imita a maçã real; quando o escultor esculpe uma estátua de Sócrates , a escultura  imita  Sócrates .

Quando um músico compõe uma música sem palavras, a música também imita. A música não imita mediante uma imagem icônica, como na pintura e na escultura; a música imita por intermédio do ritmo. O que a música imita? Ela imita os afetos.

Como o afeto não tem uma figura visível , tal como Sócrates o tem,  toda imitação musical  de um afeto na verdade o recria. É por isso que a música também pode ser uma terapêutica clínica: ouvindo a música, nós mesmos nos ouvimos através do afeto que sentimos.

 Ouvindo  a música,  imitamos  o ritmo dela  a partir do ritmo do nosso corpo, incluindo  os ritmos respiratórios e  cardíacos. A música nos ensina que somos ritmos que imitam ritmos maiores: Pitágoras dizia que o universo é música composta pelo ritmo dos astros...

Mas há duas formas de imitação: a servil e a criativa. Na imitação servil aquele que imita  anula  sua diferença própria para assim  ser a cópia servil de um modelo.

Quem tem a propensão a imitar servilmente se submete a qualquer modelo , mesmo que o imitado seja um ser abominável . Quando muitos imitam servilmente um crápula tornado modelo, surgem os rebanhos fanáticos que pouco valor dão à vida, uma vez que pouco valor dão a si mesmos.

Porém há também a imitação criativa. Nela, a imitação é atividade para descobrir e potencializar a própria potência-ritmo, dado que o imitado é criado para favorecer agenciamentos para singularização de ritmos.

As ideias que emancipam e educam são assim: conhecê-las é vivê-las como meios que potencializam nossos ritmos . Aprender ,  ensinar, partilhar, empatizar, amar... são  composições  de   ritmos.

A própria sociedade também possui seus ritmos: a democracia é um ritmo social que protege e estimula os ritmos heterogêneos. Já a tirania é a tentativa de impor comportamentos mecanizados segundo a lógica do rebanho “mesmal” .

Por isso, não podemos deixar que as forças destrutivas externas  nos produzam movimentos internos que nos ponham sob riscos, pois tristeza, medo e apatia  são enfraquecimentos dos nossos ritmos.

Mas com nossos ritmos potencializados, aprendemos a agir sobre o mundo externo sem violentar nossos ritmos.

Na foto, é a menina, e não a pintura, a maior obra de arte. Ela não copia servilmente, ela interpreta a partir do seu ritmo, e assim se autodescobre brincativamente e afirma seu estilo: autonomiza-se.




 

“Mesmal” e “brincatividade” são ideias criadas pelo poeta-pensador Manoel de Barros. O “mesmal” é a antifilosofia e antipoesia, o mesmal é o pensar e viver igual ao modo de rebanhos; “brincatividade” é exercício lúdico que, agenciando arte e política,  muda uma realidade, mas sem perder a alegria ( a mesma que ensina Espinosa).

domingo, 11 de janeiro de 2026

Espinosa : o que alimenta corpo e mente.

 

Em sua Ética, Espinosa ensina que a saúde do corpo depende de que  ele se nutra de alimentos diferentes. Não alimentos caros, mas alimentos diferentes, até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da singularidade que a incorpora  , tornando a diversidade    parte  integrante de si.

Mas para que esses alimentos diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força, de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única.

Nosso corpo é composto de diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se e regenerar-se.

 Ao contrário, um corpo que se alimenta de apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e desarmonia. Como resultado, nosso corpo será um misto debilitante  de excessos e carências. 

Se para nos alimentar dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.

O que vale para nosso corpo vale ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas também de músicas, filmes, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em prática. 

São essas ideias plurais que alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim, uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade do próprio mundo.  Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno.

Pois a mente que se nutre de uma ideia única, na verdade não se alimenta, se envenena. Mente assim se fecha à heterogeneidade da realidade,  passando  a negá-la ou a temê-la . E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita do Mercado” ) e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.

“Nas mãos a ferramenta de operário, e na cabeça a coruscante ideia.”

Versos do poema “Spinoza”, de Machado de Assis. Estes versos inspiraram  Nise ao dizer que não é no cérebro que apenas teoriza que se encontra  a felicidade, mas naquilo que  fazemos com nossas mãos, sobretudo quando  a ocupamos transformadoramente  com arte , generosidade e educação. Pois mãos adoecem quando servem à ideia única de apenas  contar dinheiro...



Esse livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Tive a alegria de participar de evento organizado pelo Museu de Imagens do Inconsciente no qual foi lançada essa edição do livro de Nise sobre Espinosa. No texto que escrevi e postei aqui, a referência a Espinosa é: Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27.

 

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A mídia comercial costuma dizer que vivemos um período político “polarizado”. Porém, esse tipo de “informação” dissimula uma intenção ambígua, para dizer o menos. Pois só podem polarizar realidades que pertencem a um mesmo conjunto ou gênero de coisas.

Por exemplo, o alto e o baixo polarizam no conjunto de coisas que têm dimensão física; o doce e o salgado polarizam no âmbito  das coisas que têm sabor; direita e esquerda, conservadores e progressistas, polarizam dentro do conjunto das perspectivas políticas.

Mas o fascismo não é um dos polos dentro daquilo que compreendemos ser a democracia. Ao contrário, o fascismo é o que quer destruir a democracia e sua possibilidade de perspectivas diferentes  buscando  o governo do Estado . Democracia é divergência  de perspectivas, porém sem rasgar as  regras ou ameaçar com tanques quem pensa diferente.

Quando a mídia comercial  coloca o fascismo e a esquerda como “polarizando”, além de isso  ser um erro de raciocínio ( um “sofisma”),  na verdade ela  está  tomando partido, de forma dissimulada, pelo fascismo, sobretudo quando esse promete uma pauta de venda do patrimônio público, pauta que é a mesma da mídia comercial e do capitalismo predatório.

 


 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

caput laranja...

 

O capitalismo é niilista em sua essência. Um dos sentidos de  “nihil” é  “nada”.        Sabe-se que a quantidade de capital especulativo que circula no mundo corresponde a mais de cinco vezes o valor dos bens reais que existem no planeta, inclusive terras. E mais de 90% desse capital está na mão de apenas 1% da população.  Ou seja, se esse 1% resolvesse, ao mesmo tempo, comprar terras , eles comprariam o planeta terra inteiro e ainda ficariam faltando mais quatro do nosso planeta. Como não existem outros quatro planetas terras, mas apenas uma única e singular terra, as outras quatro terras são , na verdade, a nossa terra mesma sendo asfixiada , poluída e  destruída quatro vezes, aos poucos.

   O capitalismo não é o comércio de bens e coisas. Ele é uma pulsão de m0rte em cujo rastro de nascimento estão as guerras (sobretudo as mais covardes), a pirataria, o roubo, a escravidão, a pilhagem...

O capital não é o níquel  da moeda, tampouco o papel de que é feita a nota. O níquel veio do seio da terra; e o papel, da floresta. Terra e floresta são vida. O capital é  uma abstração numérica sem vida, um nada.

Curiosamente, capital deriva do latim “caput”, “cabeça”. O capital não é o braço que trabalha ou a mão que escreve ou pinta,  mas apenas a vida abstrata de uma cabeça que não sonha ou poetiza, apenas conta, contabiliza, maximiza. “Caput” é a cabeça vazia de ideias, é a cabeça acéfala, como a cabeça de Trump.

  O capital não tem nome. O  euro, o peso, o real....não são “o” capital. Essas moedas têm nome em razão de seus respectivos enraizamentos na história dos povos onde nasceram. É um povo que dá nome à sua moeda, é o povo o seu genitor. No entanto, quem deu nome ao capital? Quem é seu pai? É com notas ou moedas que o povo compra o leite e o pão. No mundo do capital, porém, tais coisas viram “commodities”, coisa nenhuma, pura nada da especulação numérica, mas que pode arrasar economias inteiras, levando seus povos à fome.

    "Comunismo" traz em seu nome a realidade da qual ele extrai seu sentido: "comunidade", "comuna". O mesmo ocorre com "socialismo" :o "social". "Democracia" traz o termo "povo" (demo) como sua razão de ser.

Porém, quanto mais necr0político é um poder , mais aquilo que ele designa tende ao abstrato,  um nada  de solidariedade, de empatia e de generosidade. Não por acaso, "nazismo" também não designa nada de vital e concreto,  pois é um mero acrônimo das iniciais do partido de H1tler.






 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

o que não vira sucata...

 

1.Arrumar a casa. Limpar a poeira acumulada, para que as cores sufocadas respirem em nova aparição.

Cuidar dos suportes físicos, para que eles sejam a imagem externa da integridade do nosso espírito.

Lustrar os vidros, para que nesta transparência nosso pensamento se possa ver.

Reorganizar as distâncias entre as coisas, para que o espaço não seja um vazio, e para que a presença dos objetos não atrapalhe  o correr livre das crianças .

Praticar o desapego daquilo cujo tempo passou, para que a luz do dia toque de novo os olhos do nosso desejo: e que este seja como uma aurora a raiar.

Fazer tudo ao som da música, cantando junto, para que na mente também se opere a faxina.

Depois de tudo revitalizado, alegrar que sejamos nossa primeira visita.

 

2. Segundo o poeta Manoel de Barros, tudo o que é verdadeiramente novo nunca vira sucata. Avião, automóvel , celular de último tipo...tudo vira sucata. Até mesmo o tempo que o calendário conta vira sucata.

Mas o que não vira sucata? Onde se encontra o verdadeiramente novo? Não é no produto criado que se encontra o novo, e sim no ato de criação. O rio só  mantém seu fluxo vivo e avança se estiver umbilicado à nascente da qual continua a fontanejar, autocriando-se.

Os povos originários , por exemplo,  vivem muito mais próximos do tempo que não vira sucata, pois os indígenas  não vivem  o tempo sob números abstratos, e sim a partir dos  acontecimentos singulares da própria natureza, segundo os ritmos do sol e da lua.

Os números são abstrações porque conseguem representar somente as quantidades, nunca as qualidades , os ritmos e as intensidades. Somente um tempo concreto, singular, qualitativo e intenso tem força para resistir a virar   sucata, pois  um tempo assim tem a potência da vida e de seus ritmos.

 Mas onde encontrar esse tempo singular? Onde fica sua nascente, seu nascedouro, sua natência?

O poeta assim responde: os dias, os anos, os séculos, os milênios...tudo isso vira sucata. Mas o que nunca vira sucata é a aurora. A aurora é a nascente  da qual brota o autêntico  tempo novo.

E nós mesmos nunca viraremos sucata, não importa a idade que tenhamos, enquanto nos horizontarmos afetados por uma aurora . Para que,  juntando forças,  possamos    “fazer amanheceres”, como ensina o poeta, apesar  dessa noite longa...

O tempo não é um velho, mas uma criança: dentre os seus vários brinquedos, o sempre  novo é a esperança.

Às amigas & amigos, desejo autênticos Amanheceres.







 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

a estrela.

 

Eu tinha cerca de 6 anos. Na noite do natal, meus pais me levaram ao meu quarto para me mostrarem o que  papai noel deixou sobre minha cama: uma bola... Mas eu mal dava atenção ao presente, eu queria mesmo  era ver o papai noel!

Meus pais então me diziam: “ele já saiu pela janela!” Depois me levavam correndo ao quintal e apontavam para o alto: “Olha o papai noel lá, subindo ao céu em seu trenó, está vendo?” Mas eu só via as estrelas...

 Com a alma acesa, eu não parava de fazer perguntas aos meus pais : “O papai noel mora numa estrela? Por que ele se esconde? Ele tem medo da gente? Ele sempre foi velho ou um dia foi criança?”

Porém  meus pais acabavam tendo que ir  cuidarem da ceia, deixando sem resposta meus interrogares  poéticos-metafísicos. Após um bom tempo olhando o infinito , eu  me lembrava do presente  e voltava correndo para brincar  até tarde,   indo dormir abraçado à bola...

No ano seguinte mudamos para  novo endereço. Na noite do nosso primeiro natal na casa nova, fiquei de soslaio espreitando a janela.  “Ainda não é meia-noite, papai noel  ainda não veio”, dizia meu pai.

Houve um momento em que vi meu pai e minha mãe trocarem olhares. Eles não repararam que eu notei aquela comunicação estranha, parecia que estavam combinando algo. Meu pai saiu de fininho, enquanto minha mãe tentava me distrair  e aos meus irmãos  com o panetone.

 Mas eu só fingia olhar para o panetone, eu queria era surpreender o papai noel entrando sorrateiro pela janela. Se meus queridos pais não tinham respostas para minhas indagações metafísicas, seria então ao próprio papai noel que eu interpelaria com minhas perguntas.

Eu nem fazia questão da bola nova, já ficaria contente em ter de presente as respostas às questões poéticos-filosóficas.

Então, de rabo de olho , vi meu pai entrando no nosso quarto na ponta dos pés, sem notar que eu o via. Ele nem acendeu a luz para entrar, achei estranho...Porém em suas mãos estava o motivo daquele seu esgueirar-se feito sombra: meu pai carregava pacotes de presentes ...

Foi instantânea a minha compreensão do que estava acontecendo. Não fiquei decepcionado com a situação, tampouco desiludido .Eu ainda não sabia ler direito as palavras escritas nos livros, porém começava a ler o mundo .

Quando meu pai retornou à sala dizendo que viu o papai noel saindo pela janela, fiquei pensativo e nada disse . Senti ali uma solidão diferente : um estar só sem ficar triste.

Enquanto meus irmãos corriam para o quarto, fui à janela para receber outro tipo de presente: olhei para o imenso céu e me horizontei, com uma intensa e viva alegria que só compreendi muitos anos depois ao ler Espinosa.

 Hoje sei que o interrogar não vinha de mim, vinha do próprio infinito oferecendo-se como presente , para nunca deixar morrer aquela criança questionadora dentro da gente.

 

( imagem: “Noite estrelada sobre o Ródano”/ Van Gogh)





Nesta época do ano em que costumamos fazer um balanço visando deixar para trás o que não tem importância e renovar nossos laços com aquilo que é verdadeiramente importante, deixo às amigas & amigos as palavras de Manoel. Feliz Natal, Boas Festas e abraços fraternos.




sábado, 13 de dezembro de 2025

Diferença entre criar e inventar

 

Há uma diferença entre “inventar” e “criar”. “Inventar”  se aplica  a coisas. Celular ,  automóvel,  relógio ... existem porque foram inventados. Já o “criar” é uma arte, no sentido bem amplo da palavra.

Não só um poema  ou uma música são criados,  pois  também dizemos: “criei um filho”, e não “inventei um filho”; ou “criei um laço de amizade”, e não “inventei um laço de amizade”; ou “criei novas possibilidades para minha vida”, e não “inventei novas possibilidades para minha vida”. Assim falamos porque há uma percepção em nós, ainda que inconsciente, de que existir é criar e criar-se, ao passo que é coisa de rebanho viver  apenas mecanicamente, mesmo que cercado de máquinas tecnológicas . 

Um celular , por exemplo, apesar de  fruto da invenção tida por avançada e moderna,  pode ser usado a serviço de uma mentalidade retrógrada ( como vemos nos protofascismos online).

Isto porque a inventividade produz apenas coisas; e as coisas , por não possuírem vida, podem virar instrumento de propagação e poder de  mentalidades mórbidas .  Já a criatividade produz ideias, e estas são  a vida e a saúde de uma sociedade que cria a si própria , aberta e pluralmente.

 O mero inventar nos faz digitadores, telespectadores, consumidores, enfim, apertadores de botão e teclas de coisas ; já a criatividade nos impele a sermos  pintores, poetas, escultores, enfim, atores de nossa própria  vida, pessoal e coletiva.

Em todo totalitarismo , não importa se teológico-político , comportamental ou acadêmico, são sempre os criativos os que sofrerão as maiores consequências. E são sempre deles, e neles, que nascem e perseveram as resistências.

Como ensinam os filósofos Deleuze & Guattari: " A arte é o que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à infâmia, à vergonha".




domingo, 30 de novembro de 2025

A filosofia e suas periferias

 

Tem sido comum ouvir em sala de aula opiniões  como esta: “Professor, não quero saber de  Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Kant...são todos Europeus!” De minha parte, aceito  a afirmação e compreendo por qual razão ela é formulada.

Porém, tentando horizontar a questão, argumento com cuidado e compreensão: “Mas a Europa também tem sua periferia...Lucrécio, Diógenes, Diotima, Heráclito, Safo, Espinosa, Nietzsche, Bakunin ,  Marx , Deleuze...estão na periferia da Europa, eles estão nas margens!”

Eles são periféricos não no sentido literal-geográfico , eles são pensadores-poetas periféricos pelas ideias que pensaram e produziram, muitas vezes sob ameaças e imensas perseguições, ideias essas que, se bem apresentadas e explicadas em sala de aula , podem dialogar com as periferias literais da América Latina e da África, e com elas lutarem a mesma luta.

Por exemplo, uma das ideias principais da Ética de Espinosa é a noção de “fortaleza”. Em latim, “fortitudo”. Na língua banto, “fortaleza” é “quilombo”. Não por acaso há essa coincidência de ideias, pois Espinosa e Zumbi , cada um à sua maneira, criam espaços de resistência ante toda forma de poder centralizado e excludente , seja na Europa , seja aqui.

Nós mesmos temos periferias em nós, periferias para além da centralidade ensimesmada do ego: e é nessa periferia de nós mesmos que encontramos o Outro , ele também habitante de uma periferia intersubjetiva e transversal.

Sem dúvida, em sua maior parte, a filosofia europeia é  falocrática, misógina e autocentrada. Em razão disso, é mais do que necessário pensarmos a partir de outras referências também, sobretudo as africanas e ameríndias.  Descobrir outras lógicas, outras metafísicas, outras formas de produzir e viver o conhecimento. Porém, conforme argumentamos, há na própria filosofia  possiblidades de pensares heterodoxos, críticos e criativos que podem dialogar , transversalmente,  com temáticas ameríndias e africanas. Creio que é mais filosófico descobrir e apresentar essas possibilidades de diálogo, em vez de colocar uma etiqueta generalizadora sobre a filosofia e afastar os jovens dela, antes mesmo que eles possam descobri-la.

É preciso encontrar um espaço transversal entre as periferias e margens, pois é neste lugar “horizontado”, como diria Manoel de Barros, que o pensar pode encontrar novos temas, novas questões, e ser uma ferramenta de mudança . 

“Horizontar” é um verbo-acontecimento criado pelo poeta Manoel de Barros. “Horizontar” é perspectivar, colocar horizontes nas ideias, para assim não deixá-las se fecharem em “verdades enrijecidas e dogmáticas”.


Como ensina o  pensador-poeta Manoel de Barros: “Os Outros: o melhor de mim sou Eles.

( na imagem, um encontro de periféricos: Manoel-Heráclito).






sábado, 29 de novembro de 2025

Apresentação do livro Quase ainda

 -Apresentação que escrevi para o belo livro do poeta Eduardo Maia :


                                          Minas-douro[1]

 

O poeta Manoel de Barros dizia que “Quem se aproxima da Origem se renova”. A Origem não está no passado que passou, a Origem é onde estão os “minadouros”. Mais do que um poeta, Eduardo Maia é um cartógrafo cujo mapa cerzido em palavras nos deixa ver uma Minas enquanto minadouro de lembranças, de pensares, de questionamentos, de devires-criança:

 

Que recurso restaurará a vida estancada daquele menino

 que brincava debaixo da locomotiva a vapor

 durante a parada na estação?

(Versos do poema Vallão, p. 15)

 

Perto dos minadouros “as tardes são infinitas” (tomo a liberdade aqui de parafrasear verso do poema Brincar na rua). São tardes que nunca terminam, acolhidas que estão no poema.

Pois poeta é não apenas quem escreve rimas e versos, poeta é sobretudo aquele que produz em nós um olhar para ver, expresso em palavras, o que vai além das palavras, de tal modo que o próprio ver se torna minadouro.

O filósofo Gilles Deleuze chamava de “perceptos” a essas visões que a palavra literária/poética tem o dom de produzir. Com artesania notável, Eduardo Maia emprega as palavras para criar perceptos de Minas, de tal modo que essa Minas fabulada por ele “nos põe asas” (aqui, parafraseio o verso que abre o poema Santos Dumont).

Nesse devir-criança brincativo que Eduardo ao mesmo tempo narra e inventa, até um “Manuelzinho” vem ser seu parceiro de peraltagens com as palavras:

 

E ficava criança.

Criando.

Inventando.

(Versos do poema Imprima-se a lenda!, pág. 31)

 

De mapas precisam aqueles que ousam travessias. Não só travessias no espaço, sobretudo travessias no tempo. Não o tempo do relógio, e sim aquele que dura como alma das coisas, das paisagens e das pessoas. Para travessias assim, como essa que nos abre Eduardo, “A felicidade não está nem na chegada, nem na partida” (Versos do poema Travessia, pág. 40). A felicidade, ensina o poeta, “está no caminhar” (parafraseio verso do poema Travessia).

 

Se na Primeira Parte de seu livro Eduardo Maia é um cartógrafo, na Segunda Parte ele canta com sua lira. Como Eduardo mesmo escreve, ele se empoema “Ensimesmado” (tomei de empréstimo o verbo “empoemar” de Manoel de Barros, e tenho certeza de que o Eduardo aprova essa minha aproximação dele com Manoel). Eduardo se ensimesma não em torno do ego, mas tornando-se “íntimo” da palavra (ver poema Íntimo, pág. 55).

Afinal, não devemos esquecer que “lírico” provém de “lira”, o instrumento tocado por Orfeu, o poeta originário. “Lira” também era o nome dos sulcos cavados na terra, na Mãe-Terra, nos quais eram lançadas as sementes.

A lírica de Eduardo está umbilicalmente ligada à Minas, seu território poético para desterritorializações singulares e horizontadoras. E é nesse sulco que sua palavra-semente germina “polifonicamente” (ver poema Polifonia, pág. 105) e, “chovendo linguagem” (poema No inverno, pág. 71), faz-se “fonte” (poema Blake, pág. 76) de uma água preciosa, como aquelas que brotam das montanhas de Minas.  

 



[1] Por Elton Luiz Leite de Souza. Filósofo, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Pesquisador da obra do poeta Manoel de Barros.