sábado, 29 de março de 2025

Sophia

 

                                                                                                              

O não-filosófico está talvez mais no coração da filosofia que a própria filosofia,

 e significa que a filosofia não pode contentar-se

em ser compreendida somente de maneira filosófica ou conceitual. 

Gilles Deleuze

 

Mais importante do que o pensamento é o que “dá a pensar”;

mais importante do que o filósofo é o poeta. 

Gilles Deleuze


Serás menos escravo do amanhã,

se te tornares dono do presente.

Sêneca

                                   


Dar uma definição rápida do que significa a filosofia não é tarefa fácil. Oriunda do grego, a palavra “filosofia” nasceu da reunião de duas outras palavras: “philo” e “sophia”. “Philo” significa tanto “amor” como “amizade”. Isso quer dizer que a filosofia não é prática apenas  intelectual ou racional, pois ela se nutre também de uma dimensão afetiva, expressa exatamente pelo termo “philo”. 

Deleuze afirma, por exemplo, que a filosofia não é apenas Conceito, ela também é Afeto (este termo não significa a mesma coisa que o mero sentimento   ). Espinosa ensina, por sua vez, que a filosofia é prática que se faz na Alegria. Já Epicuro menciona o Prazer ( não o prazer fugaz com isto ou aquilo, mas o Prazer de Existir). Outros, como Kierkegaard, Heidegger e Sartre, enfatizam o afeto da Angústia. Há ainda Aristóteles, para quem a filosofia começa na Admiração. Nunca, absolutamente nunca, algum filósofo ensinou que a filosofia pode nascer do ódio, da covardia, do medo ou da intolerância[1]. Ao contrário, a filosofia é um esforço para se tentar vencer essas “sombras”, como diria Jung, ou essas “tristezas”, nas palavras de Espinosa. E é antes de tudo naquele que filosofa que a vitória deve anunciar-se primeiro, em suas palavras e, sobretudo, em suas ações.

O filósofo não é apenas aquele que domina a prática teórica e metodológica de definir conceitos, ele também é aquele que se afeta pelo que “dá a pensar”, e o que dá a pensar nem sempre pode ser explicado por conceitos. Nem sempre o que dá a pensar já está pensado e definido em livros e teorias. Um filme, uma música, um gesto, uma paisagem, um poema, um acontecimento...também dão o que pensar, ou podem dar o que pensar. Mas nada dá tanto a pensar do que a própria vida.

“Sophia” significa “sabedoria”. Assim, uma definição simples e geral da filosofia seria: “amor ou amizade pela sabedoria”, “afeto pela sabedoria”. Visto dessa maneira, o filósofo não é apenas amigo da sabedoria, ele não é apenas um intelectual, ele também é um ser que, como diz Espinosa, cultiva uma paixão alegre  .  O filósofo se mostra filósofo não apenas falando ou escrevendo, ele deve mostrar-se filósofo igualmente, e sobretudo, agindo. Segundo Cícero, o mero sofista busca a retórica das palavras, almejando persuasão; já o filósofo/sábio se exercita em outra retórica: a das ações, cujo objetivo é a compreensão.

Para Espinosa ,  aquilo que o filósofo ama, a Sophia-Sabedoria, não pode ser posse exclusiva, ninguém dela pode ser o “dono”, como  as coisas que geram cobiças, rivalidades, ciúmes. Por isso, o filósofo se alegra quanto mais ele partilha aquilo que ele ama, generosamente.

Segundo ainda Espinosa, a partilha da Sophia-Sabedoria gera a virtude da “fortitudo”, que em português se diz  “fortaleza”. A fortitudo-fortaleza protege e  fortalece cada um que faz dela  ninho e escudo. Não por acaso, na língua banto de nossos ancestrais “fortitudo” é “quilombo”, lugar de  luta e resistência ante  as tiranias .

 “Sophia” não é só teoria, fórmulas, razões. Ela também é Vida, Arte, Poesia. São a essas coisas que o filósofo dedica Afeto. Para Deleuze, não há filosofia sem um modo de viver filosófico, sem um modo de vida. Um modo de vida filosófico não significa uma vida erudita mergulhada em livros, nem um tipo de vida que, para ser vivida, necessita de um título filosófico auferido pela academia.

Além disso, há uma diferença entre a filosofia e o filosofar. Heidegger, por exemplo, afirmava que a filosofia existe desde a Grécia. Porém, o filosofar, enquanto pensar, inaugurou-se na aurora da filosofia, entre os pré-socráticos. Nestes pensadores, o pensar foi exercido de forma múltipla, mais intuitiva do que sistemática.  Depois adveio o seu ocaso com Platão e, desde então, “velou-se”. Para a prática do pensar retornar, pensava o filósofo alemão, é preciso reviver a experiência da “origem”, como a viveram os pré-socráticos, e compreender que o pensar somente se anuncia em uma linguagem que nasça da experiência do Ser como Criação, Poesia. O Pensar é experiência com a aurora dele mesmo.

A filosofia é uma disciplina com sua história, metodologias, temas. O filosofar é uma ação feita não apenas pelo filósofo. Por exemplo, quando alguém, em uma situação cotidiana, emite um juízo acerca da beleza ou ausência de beleza de uma canção que ele ouve no rádio de seu carro, sem que saiba ele está filosofando ou tentando filosofar, pensar, uma vez que ele está emitindo um juízo de gosto. O gosto é um tema da Estética. Se outro homem ao ler o jornal lamenta a ausência de caráter dos políticos, tal homem também está a filosofar, pois ele indaga acerca do caráter. Em grego, “caráter” se diz “ethos”. A ética, enquanto disciplina filosófica, tem na ideia de caráter o seu grande tema (de Aristóteles a Kant, passando por Espinosa). Em geral, quando o senso comum imagina o que é a filosofia, ele costuma identificá-la apenas com uma parte dela: a metafísica. Mas linguagem, justiça, poder, potência, amor, desejo , Deus ( enquanto objeto da teologia racional ou natural)...são temas que podem suscitar o indagar filosófico.

Sócrates inaugura a atitude filosófica indo debater na praça, em meio ao povo, esses temas. Sócrates buscava , com a filosofia, mudar a propensão dos homens em não questionarem suas opiniões ( esse não questionar-se está na base do que Sartre designa “consciência irrefletida”). Para lutar contra inimigo, pensava Sócrates, é preciso ir enfrentá-lo onde ele mora: a praça. Sócrates é o acorrentado que se liberta, sai da caverna e depois retorna para tentar fazer com que os outros acorrentados tomem consciência de que estão acorrentados e retirem o grilhão com a própria mão, pois o tomar de consciência,  enquanto prática de autonomização, é ação que um outro não pode fazer por nós. O parteiro ajuda no ato de parir, mas a consciência que nasce pertence àquele a quem ele auxiliou a nascer.

 De Platão a Deleuze, o inimigo do pensamento é a opinião, a doxa. É Platão que, de certa maneira, afasta a filosofia das praças, reservando o filosofar exclusivamente para aqueles que também soubessem medir, contar, enfim, matematizar. Sabe-se que  Platão afixou à entrada da Academia a seguinte ordem: “não entre aqui quem não for geômetra, mas  também não entre aqui quem só for geômetra”. Esse isolamento da filosofia em relação ao filosofar nasceu exatamente com esse nome: Academia . Este foi o lugar construído por Platão para ser o templo de uma nova divindade: a  Deusa-Razão. Muitos séculos depois, Nietzsche chamará essa Deusa-Razão de um Ídolo construído por Platão para se proteger da multiplicidade, da contradição, da mudança, enfim , da Vida. Nietzsche inclusive opta por filosofar através de uma linguagem não acadêmica, mais próxima da alegoria poética do que da sistemática conceitual. Não obstante, ele não é menos filósofo do que o sistemático e conceitual Kant. Em O crepúsculo dos ídolos, Nietzsche afirma que o filósofo autêntico sempre tem na mão um “martelo”, que é a crítica que ele deve endereçar a “esses Ídolos” . Segundo Francis Bacon, a quem Nietzsche toma de empréstimo o termo, Ídolo é algo que, no âmbito do conhecimento,  ao invés de fazer o homem pensar, leva-o apenas a cultuar ou adorar. O culto ou a adoração são justificáveis no campo religioso, porém se tornam danosos quando trazidos para a prática do pensamento filosófico, que sempre tem de ser crítico e livre. “Crítica” provém do termo grego “krisis”: capacidade de julgar, discernir ou avaliar.

Sophia também pode ser um nome próprio. "Sophia", ou "Sofia", é o belo nome que muitos pais escolhem para chamarem a quem trazem à vida. Por outro lado, “Teoria” é tão abstrato que alguém vivo não se deixa chamar assim, tampouco pode ser o nome de alguém “Razão” ou “Ciência”. Não dá para imaginar alguém se chamando “Razão”! (embora muitos imaginam encarná-la e serem donos exclusivos dela...).

 Tal como uma pessoa , a sabedoria só atende se for chamada pelo seu nome. Se alguém a chamar apenas de "razão" ou "ciência" ela não atenderá, ela não virará seu rosto para quem assim a chamar, mesmo que grite, mesmo que, com poder, ordene. Mas assim como uma pessoa é mais do que seu nome, a sabedoria é mais do que sabedoria, ela também é generosidade, coragem, modéstia, invenção.



[1] Talvez as únicas exceções sejam o “Polemos” , de Heráclito, e o “Ódio”, tema encontrado em Empédocles. Dito de maneira simples, o  “Polemos” é a unidade indissociável e complementar do par “Construir-Destruir”, enquanto que o “Ódio” é, em Empédocles, o par complementar ao Amor. Mas tais “afetos” nada têm de “humano, demasiado humano”, uma vez que são forças cósmicas. Inclusive, há certa  “inocência” no “Destruir” como um dos polos do “Polemos”, como a criança que destrói o castelo de areia após construí-lo por brincadeira inocente ( ou “brincatividade”, como diz o poeta Manoel de Barros). Talvez inspirado nisso, Nietzsche tenha dito : “Só podemos destruir sendo  criadores” ( Gaia ciência, aforismo 58).



Imagem: Deleuze & Guattari ( e o livro que escreveram juntos). A expressão "Nós, os bruxos" é uma referência ao que disse e sentiu  um escritor ao ler Espinosa: "era como se eu subisse na vassoura de uma bruxa", isto é, a vassoura da bruxa como meio para desterritorializações e linhas de fuga  horizontadoras de mundos. 






quinta-feira, 27 de março de 2025

Ainda estamos aqui

 

Após derrotar as forças obscuras associadas  ao ódi0, à ving4nça e  à violênci4 , Zeus , divindade associada à ética e à justiça, decidiu  casar-se com Mnemosyne , a divindade  da Memória.

Desse enlace entre a ética, a justiça e a memória nasceram as Musas, divindades das Artes. As artes não são apenas para distrair ou entreter, pois elas nasceram do agenciamento entre  a justiça , a ética e a memória  para cantarem juntas a vitória de Zeus sobre as forças da obscurid4de.

Nesse sentido originário, não  apenas a poesia, o canto, a música , o teatro ...são artes. Tornar a vida digna, justa, solidária , potente...isso também requer arte, talvez a mais necessária delas: a arte cuja obra a criar é a nós mesmos, individual e coletivamente.

O filme “Ainda estou  aqui” possui  esse sentido originário de uma memória da ética, de uma ética da memória, como instrumento da justiça social que dá sentido às lutas políticas igualitárias, não somente as de ontem, mas sobretudo as de aqui e agora.

Em seu livro 1984, Orweell nos mostra que um dos objetivos de todo totalit4rismo é apagar a história, ou (re)escrevê-la de forma deturpada ( como tenta fazer hoje  a Brasil Paralelo e suas fake news ameaçando nossas escolas...).

Não por acaso,  Alexandre de Moraes e Flávio Dino citaram ontem na fundamentação de seus votos  a questão da memória como elemento constituinte da defesa  da ética e da justiça, uma memória que deve não nos deixar esquecer não apenas os atos vis da b4rbárie, mas também que se pode vencê-la, se em torno da ética e da justiça nos agenciarmos.  Dino, inclusive, cita o filme “Ainda estou aqui” como exemplo dessa implicação imanente entre arte e justiça.

Não só a justiça feita por juízes, mas sobretudo aquela que deve ser mantida viva por nós mesmos enquanto justiça social da qual todos nós , enquanto estivermos aqui, somos os atores.

No julgamento de ontem, dava vida a essa memória a presença  dos parentes ( como Hildegard Angel e Ivo Herzog)  dos desaparecidos e mortos pela ditadura, que agora, enfim, estará onde merece: no banco dos réus.

Em sentido seu originário , cada obra de arte é um canto que celebra e co-memora, cria memória, daquilo que não nunca pode ser esquecido: que a b4rbárie pode ser derrotada.


@sem anistia!







 

segunda-feira, 24 de março de 2025

A origem da ideia de cultura

 

                                            O VINHO, O AZEITE E O PÃO[1]

 

Originalmente, a ideia de cultura nasceu da prática de cultivo de três plantas cujo valor é também simbólico: a vinha, a oliveira e o trigo.  Na Odisseia , considerada a obra que inaugura a literatura ocidental, Homero dará especial importância ao trigo, e chega a dizer que é a semente do trigo aquela que melhor representa a condição humana.

A vinha é a árvore da qual  vem o vinho. Essa bebida está associada à festa, à alegria. Pois festa e alegria também dão sentido à vida dos seres humanos. Na mitologia, o vinho é associado a Dioniso, divindade ligada às artes, sobretudo a arte de criar novos modos de vida. Isso explica a origem do seu nome: “Dioniso”, “aquele que nasceu duas vezes”, sendo o segundo nascimento um renascimento, criação de vida nova.

Da oliveira vem o azeite de oliva. O azeite é tempero, ele permite temperar o alimento. De tempero vem “temperança”, uma das virtudes  fundamentais da ética. O azeite também é parte dos ritos sagrados de diferentes sociedades , pois ele é um   elemento que unge e protege .

E do trigo vem o  pão. O pão é o que mata a fome. Mas há também o aspecto simbólico do “pão”. Em latim, por exemplo, “pão” é “panis” , raiz do termo “companis”, do qual nasce “companheiro”: “aquele com quem dividimos o pão.” Há o pão que mata a fome do corpo, e há também o pão que alimenta a ação ( o pão da liberdade) , o conhecimento (o pão das ideias) e a sensibilidade( o pão das artes). 

A vinha e a oliveira podem  crescer selvagemente, isto é, sem precisarem ser cultivadas. Porém  o trigo é tão frágil, requer tantos cuidados, que ele somente cresce sendo cultivado pelas mãos humanas . “Cuidado” vem de “caute”[2]: prática de proteger o que é frágil. Não porque seja fraco, e sim em razão de ser uma potencialidade que, para aflorar, requer que cuidemos.

Uma criança, por exemplo, não é fraca, ela é frágil. Ela pode parecer fraca quando a comparamos com a força de um adulto já pronto e formado. Mas essa comparação é errada e não deve ser feita, pois potencialidade nada tem a ver com força física. Potencialidade é uma possibilidade que precisa do tempo e de cuidados para aflorar e virar plena realidade.

A semente também é uma potencialidade assim: se plantarmos uma simples semente e cuidarmos dela, da semente nascerá uma árvore com incontáveis frutos, e dentro de cada fruto haverá uma nova semente. Se plantarmos essas novas e plurais sementes nascidas da semente simples primeira, nascerão novas árvores com novos frutos e sementes...Isso significa que no interior de uma semente única existe, em potência, uma floresta inteira...

O que vale para a semente vale ainda mais para uma criança: há na criança uma diversidade de possibilidades a aflorar. Para isso acontecer, é preciso que a educação seja a mais necessária das práticas de cuidado, uma vez que a criança é frágil por ser plena de potencialidades.

 Fraco, ao contrário, é tudo aquilo que quer se impor empregando a força . As ideias são frágeis, porém fraca é a mente ignorante. As palavras são frágeis, mas fraca é a voz que apenas berra e grita, pois nada tem a dizer.

 Assim, tudo o que é frágil é uma abertura ao futuro, ao que precisa ser criado. Já fraco é aquilo que , em nome de um passado que se quer conservar à força, demoniza a diferença, a criatividade e tudo aquilo que é fonte de novos modos de vida. Frágil, portanto, é tudo aquilo que, para florescer, precisa da prática do cuidado. Pois tudo o que é frágil depende do amanhã. Mas o cuidado enquanto tal não pode esperar pelo amanhã: ele precisa ser exercido sempre agora, já.

Voltando à Odisseia. É por isso que o trigo é a semente que também simboliza a condição humana enquanto potencialidade. Ao contrário, quando se faz culto da selvageria ( nos vários sentidos que essa palavra tem) , da  semente nascem apenas inumanidades  que põem em perigo a condição humana e o terreno aberto e plural da cultura.

Do trigo não vem apenas o pão, dele também vêm o bolo, o macarrão, a farinha, as diversas massas...Enfim, múltiplas realidades  que  podem nascer  da potencialidade  que vive nele. Semelhante ao trigo também é o ser humano: somente a cultura pode nele fazer aflorar o poeta, o cientista, o médico, o jardineiro, o professor, o cidadão, enfim, ele mesmo. Pois é a cultura o meio físico e simbólico para  o ser humano  criar e dar um sentido a ele mesmo.

 

Quem quiser ler mais acerca dos  diversos símbolos que dão sentido à condição humana, ontem e hoje, sugiro este livro ( que muito influenciou Nise da Silveira na criação do Museu de Imagens do Inconsciente):






[1] Texto-aula elaborado pelo prof. elton

[2] “Curador” também vem dessa palavra latina. “Curador”: “aquele que cuida”.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Outonos

 Certa vez, eu explicava  para uma turma um poema de Fernando Pessoa. Era uma turma muito simpática e atenciosa, que sempre pedia para eu tocar nesses temas poéticos-filosóficos , apesar de não caírem na prova...rs...

Quando terminei a narrativa, uma aluna  perguntou de repente  : “Professor, qual seu signo?” Quando respondi “touro”, ela ficou incrédula, e disse com humor : “professor, você não pode ser touro, os professores de touro gostam de ensinar apenas coisas utilitaristas sem poesia ...rs...”

Então, ela me pediu a data e hora do meu nascimento, incluindo os minutos,  ela queria fazer meu “mapa astral”. Como eu sabia esses detalhes,  passei a informação para ela. Na aula seguinte, ela entrou sorridente na sala e disse: “Sabia que havia alguma coisa diferente, você  é assim por causa de seu ascendente: Aquário!”

Em homenagem àquela turma simpática  ( e a todos que , presencial ou virtualmente, apoiam meu trabalho), elaborei um pequeno “horóscopo filosófico”, no qual o céu sob o qual nascemos expressa a atmosfera que irradia de  determinado filósofo .

Àquela época, eu morava perto de uma pracinha. De minha janela via as mães com seus filhinhos nos carrinhos de bebê. Deitados dentro dos carrinhos, os bebês ficavam o tempo todo  olhando para o céu. Pensei comigo: “se tudo nos influencia, ainda mais quando somos crianças, deve haver uma profunda influência dessa  primeira imagem do céu na alma e personalidade dos bebês”.

Assim, os que nasceram no verão veem um céu com  um sol intenso. Os bebês que trouxerem  esse sol para dentro deles se tornarão criadores-artistas . Chamei esse céu de CÉU DE NIETZSCHE.

Os que nasceram no inverno, ao contrário, veem um céu cinza, e assim terão que buscar  criar um sol dentro de si . Os que nascem sob esse céu tenderão a ser mais introspectivos, buscando mais a “luz interior” . Chamei esse céu de CÉU DE SCHOPENHAUER.

Os que nasceram sob o céu da primavera veem um sol que é como uma grande semente que faz tudo germinar. Os que plantarem  dentro de si esse sol-semente   tenderão a ter uma crença inabalável na vida, acreditando que a vida pode de novo sempre brotar, apesar do deserto. Chamei esse céu de CÉU DE EPICURO.

Enfim, os que nasceram no outono veem um céu de um azul profundo porém transparente, onde o sol brilha vivamente mas sem ofuscar, um sol como parte do infinito sempre aberto para voos emancipatórios: “Eu tentei me horizontar  às andorinhas” (Manoel de Barros). Os que nasceram sob esse sol e céu , se aprenderem com esse sol e céu a se horizontarem,  crescerão pensadores. Chamei esse céu de CÉU DE ESPINOSA.

Hoje começa o outono. Como disse Drummond: “Outoniza-te com dignidade.” Que a gente consiga   criar uma abertura na mente e no coração para que possam entrar a luz e o azul desse  “Céu de Espinosa”, e que a perseverança do pensar luminoso desse filósofo  nos inspire e fortaleça diante de toda forma de trev4.




 Nesse “horóscopo-brincativo” ( “brincatividade” é ideia criada pelo poeta Manoel de Barros) poderíamos colocar outros filósofos ainda ao lado desses que mencionei para cada estação poético-existencial. Lucrécio e Sêneca, por exemplo, também são outono; Sartre é verão; Epicteto e Bergson, primavera; e Cioran, inverno. Imagem da postagem :  “Outono”, de Monet.

 

 ***   ***   ***


E no dia 17 desta semana Elis Regina faria 80 anos. Ouvir Elis me lembra estes versos  do poeta Schiller:

“Descanse tranquilo onde cantam,

 os maus não cantam.”

O primeiro a cantar foi Orfeu, ele cantou inspirado pelas Musas. No seu sentido originário, “Musa” significa: “Conhecimento que vem das artes”. As Musas eram nove , cada uma representando uma arte, de tal modo que o conhecimento despertado pelas Musas expressa sempre uma pluralidade, nunca um monólogo autoritário.

Os primeiros filósofos também evocavam as Musas para filosofarem, atestando que poesia e filosofia são cantos que brotam de uma fonte comum, ambas cantos que cantam com uma voz libertadora , voz essa que nunca   os maus terão.

Mas o  canto ao qual se refere  Schiller não é apenas o canto literal produzido por uma voz. Pois quando a árvore frutifica, cada fruto é um cantar dela; e quando a rosa desabrocha, essa é sua forma de cantar. Frutificar e desabrochar também são  artes que a própria natureza ensina.

Cada aurora é o canto de um dia novo que nasce; e apesar da dor, o tempo pode ser um canto que aplaca a saudade.

 O ato revolucionário é uma forma de a liberdade cantar ; e quando a justiça se cumpre, é a dignidade que está cantando, pois a democracia é um canto que os justos cantam juntos , em polifonia.

 Quando a vida se afirma como  canto de emancipação ,  afetos como amizade, amor, empatia e  generosidade  se tornam os instrumentos que produzem a música de nossa libertação.    

 

“Sei falar a língua dos pássaros: é só cantar.”

(Manoel de Barros)



terça-feira, 18 de março de 2025

As sementes de Lucrécio

 

O poeta-filósofo Lucrécio inicia seu poema[1] evocando Vênus.  Na mitologia, Vênus é , ao mesmo tempo, aquela que guarda a semente de tudo o que nasce e a terra na qual as sementes são lançadas, de tal modo que Vênus  também vive e floresce nas sementes que nela são plantadas.

 Os átomos não são pedras inertes, eles são a semente de tudo. Pois tudo o que existe vem de uma semente: nenhum  existente pode nascer do nada, ou ao nada retornar.

“Do nada  nada vem”, afirma Lucrécio. O nada não faz parte da  natureza, tampouco pode  negá-la ou limitá-la. Pois como poderia o nada, sendo nada, impor limites ao que é?

A morte desfaz a composição de um ser, mas ela não destrói  os átomos : eles se tornam  novas sementes para outras vidas nascerem.

O nada é uma projeção feita pela  mente  supersticiosa sobre a natureza. O nada é a sombra que o medo e a ignorância lançam sobre a  existência.  Fanatismos religiosos, niilismos, necropolíticas...são formas com as quais a mente ignorante tenta negar  a natureza.

Além dos átomos-sementes, Lucrécio também nos fala do vazio. O vazio não é o nada, pois o vazio não é negação da realidade. Ao contrário , é graças ao vazio que os átomos podem mover-se. Portanto, é uma mera abstração supor um vazio sem átomos a preenchê-lo, de tal modo que o vazio é sempre uma potência para preenchimentos de devires.

O vazio não é apenas algo exterior aos átomos, pois nos corpos compostos também há vazio. Quando o fogo aquece a água, o fogo penetra na água porque na água  há vazio, de tal modo que a água aquecida é fogo e água existindo juntos, graças ao vazio de que a água também é feita. O ar entra dentro de nós  e enche  nossos pulmões de vida porque somos feitos também de vazio. O vazio não se opõe à vida, pois a vida é feita de átomos-sementes e vazio.

A  Vênus-Natureza não é apenas a  semente, ela também é o vazio sem o qual as sementes não germinam (tal como o vazio do útero , sem o qual não pode brotar e crescer a vida nova que a esse mesmo vazio vem preencher).

Lucrécio também ensina que há duas Vênus. A primeira delas é apenas “mito”, isto é, delírio  antropomórfico projetado na natureza. A Vênus-mito sente raiva, faz intrigas, tem inveja e se vinga, tal como fez  contra Psiquê, por não aceitar que essa fosse amada por Eros, o Amor.

Essa Vênus-mito não é a Vênus que Lucrécio evoca. A Vênus de Lucrécio é poético-filosófica : ela é a própria potência inesgotável da natureza. Ela não é só o corpo, ela é corpo , alma, semente, terra e vazio. Ela é o amor que ama, unindo-os, alma e corpo em concílio.

A Vênus do Lucrécio-Semeador não é mito que nega a natureza, ela é Potência Germinativa que afirma a variedade e pluralidade das infinitas sementes da natureza, cujo germinar ela parteja .

E nada , nem mesmo a ignorância dos homens  detém seu semear ,  por mais que tentem.

 



[1] Sobre a natureza das coisas é um imenso poema , um poema do pensamento. Nele, Conceito e Imagem se agenciam  como expressões  de um pensar no qual Poesia e Filosofia se partejam reciprocamente.







     
                                              (   "O semeador"/ Van Gogh )

sábado, 15 de março de 2025

A tocha de Eros

 

Na mitologia, Eros, o Amor, era representado portando uma flecha. Essa imagem de Eros com a flecha se torna comum a partir do Helenismo. Mas pouco é mencionado  que Eros também trazia consigo uma tocha.

A flecha era para atingir o coração. Não era, portanto, uma flecha bélica, não era uma flecha que mirava “calcanhares”, como aquela que vitimou Aquiles em seu ponto fraco; tampouco era uma flecha para m4tar , como aquelas flechas cov4rdes que crivaram São Sebastião , o padroeiro do Rio de Janeiro ( hoje, essas flechas ass4ss1nas são as balas que vitimam os moradores das favelas e periferias da cidade de São Sebastião...).

A flecha de Eros era semelhante à agulha de uma vacina: assim como a vacina inocula o remédio, a flecha de Eros inocula o amor transmutador no coração que ele atinge.

Mas enquanto a flecha se endereça apenas ao coração , a tocha do Amor ilumina por dentro o ser inteiro que ela inflama, pois essa tocha simboliza a ardência da paixão.

 E os seres que mais ardem com a chama dessa tocha são aqueles que também emanam luz, como se tivessem “um sol dentro de si”, como dizia Nietzsche. Quem traz um sol assim ilumina em torno e mostra caminhos , mesmo que ao redor haja trev4s.

Essa paixão gerada pela tocha de Eros-Amor nada tem a ver com o sentido restrito da “paixão romântica”, uma vez que se trata de uma paixão no sentido mais amplo, como a do pintor que se apaixona pelas tintas, ou do músico que se apaixona pelo som , ou do poeta que se apaixona pela palavra, ou do revolucionário que se apaixona pela transformação do mundo.

Quando o clarão  da paixão irradia  dos seus olhos apaixonados e ilumina as tintas, o pintor vê nelas girassóis  ainda por criar, ainda por nascer, como viu Van Gogh. Quando o lume da paixão ilumina as palavras, o poeta vê nelas outros “mundos por transfazer”, como viu  Manoel de Barros.

Enfim, quando a tocha da paixão incandesce de Vida as ideias, ganha realidade   o processo transformador descrito   pelo educador Paulo Freire: “Só desperta a paixão por aprender quem tem a paixão por ensinar”.  


(este livro de Clarice é apenas uma sugestão)







Este é um bom documentário sobre Manoel de Barros e sua "paixão pela palavra": 





quarta-feira, 12 de março de 2025

Pensamento e Afeto

                                                        O NOUS E O LOGOS[1]

 

O poeta Homero e o filósofo Platão não se expressam mediante a mesma língua grega. O grego clássico de Platão já não é mais o mesmo grego com o qual Homero escreveu. O grego de Homero era uma língua umbilicalmente ligada ao sensível , suas cores e  nuances , ao passo que o grego clássico de Platão se torna uma língua representativa de realidades mais abstratas, que apenas a razão pode alcançar.

Por exemplo, em Homero há pelo menos quatro palavras para designar o ato de ver. E o ver em Homero também era acompanhado do thymós, isto é, de um afeto que se expressava também nos olhos, na maneira de ver. Em Platão, desaparecem essas nuances cognitivo-afetivas, permanecendo apenas um ver intelectualizado enquanto “theoria[2]” ( base do conhecimento “teorético” em contraposição ao agir prático-ético).

Em Homero, Psiquê[3] nunca se separa do corpo, a não ser em duas ocasiões : no desmaio, quando ela sai e retorna ao corpo após um breve momento, e na morte, quando ela abandona definitivamente o corpo. Quando o corpo se fere gravemente, a alma luta para não se esvair  pela abertura da ferida, tal como o ar de um  balão perfurado. Não por acaso, a alma também é Pneuma: sopro ou hálito vital[4]. 

Mas enquanto estamos vivos, alma e corpo formam uma unidade inseparável. É Platão quem separa alma e corpo, e dá a cada um uma pátria diferente. Enquanto a pátria do corpo é o mundo sensível da matéria e do devir, a alma nesse mundo é uma mera cativa que somente se liberta quando morre e retorna à sua Ítaca[5] Celeste.

Segundo Homero, a alma possui  duas “partes”: o Nous e o Thymós. Enquanto o Nous é uma parte que vê as imagens, o Thymós está ligado ao afeto. O Nous não entra em contato com o conceito, pois conceito não é imagem. Quando a filosofia surgir, quem  apreenderá  o conceito será o Logos ou Razão. Contudo, o Nous não desaparece com o surgimento da filosofia: ao contrário, ele se tornará o “olho da alma” que intui[6] diretamente a realidade. Fiel à sua origem, o Nous nunca deixa o pensar poético que se expressa por imagens – ou por “iluminuras” , dirá o poeta Manoel de Barros.

Não há uma localização específica para o thymós, porém ele aparece frequentemente associado ao coração , ao passo que o Nous tem sede na cabeça, uma cabeça pensativa que pensa por imagens ( não como as imagens da imaginação). Em Homero , como em todo pensar poético, Nous e thymós andam juntos , de tal modo que também há pensamentos no coração , assim como afetos pensáveis-sentidos , tal como em Fernando Pessoa,  que dizia sentir não com a sensibilidade e sim com o pensamento.

Logos é o “pastor do ser”[7]: ele recolhe diferenças individuais  e as unifica na identidade do conceito. Nous não é um pastor, ele é como um pintor: ele pinta a singularidade de cada realidade que intui.

O mundo espiritual ( mundo do Pneuma-hálito vital, sopro da vida) não é apenas razão, ele também é pensamento ( Nous) e thymós ( afeto).

 




[1] Este texto é um comentário ao capítulo 1 ( “O homem na concepção de Homero”) do livro A cultura grega e as origens do pensamento europeu, de Bruno Snell ( São Paulo, Editora Perspectiva, 2012). 

[2] Mas o mito  sobre o nascimento da “theoria” não se confunde com a ideia de “teorético” tal como está em Platão e, sobretudo, Aristóteles.

[3] Lembrando que há várias interpretações acerca do mito de Psiquê ( e não apenas a de Homero).

[4] Segundo Snell, p. 9.

[5] Na Odisseia, de Homero, Ítaca era a terra natal para a qual Ulisses  queria retornar.

[6] Enquanto o Logos é discursivo, ou a “boca da razão”, o Nous é intuitivo e “silencioso”, dirá Plotino. O Nous é os “olhos do pensamento”.  

[7] Esta ideia de que o Logos é o “pastor do ser” foi desenvolvida por Heidegger.  Assim como o pastor reúne diferentes ovelhas para formar um rebanho , o Logos emprega o conceito para reunir e dar identidade única a diferentes indivíduos compreendidos sob o conceito. Por exemplo, a experiência me mostra várias cadeiras diferentes: algumas são de madeira, outras de ferro. Porém o conceito de cadeira abstrai essas diferenças para representar apenas a forma-cadeira enquanto princípio de identidade que reúne o diverso e o unifica.





sábado, 8 de março de 2025

Sofias, Ariadnes, Dandaras, Eunices...

 

Ao  Dia internacional de Luta das Mulheres ( 8 de março e todos os dias)

 

Em grego, “Sofia”  é “Sabedoria”. Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. A  palavra “Razão” em grego  é masculina (“Logos”)  e tinha  em Zeus um dos seus símbolos.

Porém Zeus  não era a Sabedoria, pois  Sofia é filha de Zeus com Métis.  Por possuir muitos dons e capacidades, Métis era conhecida como  a deusa das “habilidades”. Não a  habilidade meramente   técnica, mas habilidade no sentido de produzir , além de ideias,  um querer e um agir múltiplo e criativo.

Métis também estava  associada à noção  de “saúde” enquanto cuidado consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém dessa habilidade médico-curativa . Pois de “Métis” também vem “meticuloso” , no sentido do cuidado (“caute”)  que caracteriza o bom médico ( tanto os médicos do corpo quanto os médicos da alma, os pensadores-artistas).

Uma das características de “Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Ao enamorar-se com Métis,  Zeus buscou na metamorfose dela um processo para renascer também.

Agenciada com Métis ,   a própria Razão potencializou-se para lutas que ela não tem como vencer sozinha, lutas para enfrentar a ign0rância em suas diversas formas. Fortalecida, a Razão aprendeu habilidades  que a pura razão teórica não ensina.

 As habilidades de Métis são artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que nasceu  então Sofia, também conhecida como “Atena”, filha de Zeus com Métis.   

Os teóricos da Razão  inspiram-se em Zeus, mas os pensadores-artistas são  apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como também agem e criam.

Na lut4 contra a ign0rância e a obscurid4de, ontem e hoje, a Razão não vence sozinha: é preciso que a acompanhe Sofia. Às vezes, é a própria Sofia que salva a Razão de si mesma , fecundando nela sensibilidade  e vida, impedindo  assim que a Razão fique dogmaticamente estéril, rígida.

Segundo Nietzsche, hoje a filosofia atende  por outro nome, um nome feminino  também : “Ariadne”, nome que  significa “aranha”. Pois Ariadne é tecedora de fios, fios que ela tira de seu próprio ventre, como a “linha de fuga” ensinada por Deleuze .

Ariadne simboliza  a necessidade de um fio que nos agencie, um fio trançado  com  Ideias libertadoras e Afetos regeneradores, como    mãos que se seguram umas às outras  na luta e resistência ante toda forma de tir4nia, mãos de Sofia e Ariadne  unidas às mãos de Dandara, Eunice, Fernanda, Clarice, Marielle...

Esse fio-agenciamento que une e salva ganha vida na  voz de  Elza Soares:

“Eu não vou sucumbir 

Eu não vou sucumbir

Avisa na hora que tremer o chão                      

Amiga, é agora, segura a minha mão”.

( Trecho da música “Libertação”)


(Imagem: a pequena Sofia)




 

Estes livros são apenas sugestões:













segunda-feira, 3 de março de 2025

Dioniso e Apolo / Potência e Forma

 

                                    APOLO E DIONISO[1]

 

Em A visão dionisíaca do mundo, Nietzsche identifica Apolo e Dioniso a dois processos: o sonho, estado provocado por  Apolo, e a embriaguez, processo despertado por  Dioniso.

Todo sonho é um  desejo de plasmar a realidade. O sonho dá uma forma à realidade, mesmo que seja a realidade de uma utopia. Quem  sonha tem os olhos fechados para a realidade efetiva, pois o olhar que sonha se abre ao que somente  pode ser visto de forma sonhada. Goethe se refere a esse olhar que sonha como o “olhar solar”: pois é esse olhar que ilumina paisagens internas, mesmo em meio às trevas externas. Não por acaso, Apolo é identificado ao sol.

Toda obra de arte apolínia é um sonho que plasma tintas, pedras, metais, sons...mediante  uma forma que  figura e dá a ver o que antes o artista sonhou.

Já Dioniso é a embriaguez: algo que acontece enquanto estamos acordados, porém despertando outros olhos, até mesmo “olhos lunares” que ao mistério veem claro .

 Se Apolo é o referencial do artista, Dioniso por sua vez é a própria   vida compreendida como  obra de arte[2] . Em Apolo ainda há uma oposição entre real e sonho. Se essa distinção se embaralha, corre-se o risco de surgir o delírio mórbido negador da realidade.

Mas em Dioniso a própria vida se torna obra de arte a ser musicada, pintada, dançada, poetizada,  enfim, criada[3] . Como ensina Manoel de Barros, arte é “delírio ôntico”: criação de novos sentidos para o ser ( “on”). O delírio mórbido, delírio de poder, nega a pluralidade da vida e do pensar, já o delírio ôntico é potência poética do pensar enquanto expressão  da vida,  incluindo a vida plural das ideias.

Nietzsche nomeia Dioniso como a “potência da primavera”, a mesma potência de Perséfone. Apolo é forma que plasma e dá uma figura, já Dioniso-Perséfone  é potência que faz brotar , (re)nascer e fulgurar ( como as estrelas-flores que Van Gogh pintou).

A palavra embriaguez em grego se escreve “bacchus” ( é por esse motivo que os romanos chamam Dioniso de “Baco”).  A embriaguez dionisíaca não é provocada apenas pelo vinho. A embriaguez dionisíaca é todo processo no qual uma potência fende os limites de uma forma, produzindo assim uma linha de fuga em relação a cercas, limites, egos. Embriaguez é um processo que “desabre”, diria Manoel de Barros ( como a borboleta que desabre a lagarta). Van Gogh é embriagado  de tinta, Manoel de Barros é embriagado  de poesia, Fernando Pessoa é embriagado  de eus, Clarice é embriagada  de vida...Somente experimentando uma embriaguez assim é que se cria verdadeiramente arte.

A primavera embriaga a semente não para ela sonhar que é broto, e sim para ela se metamorfosear em broto, com a máxima potência que puder. A embriaguez poética embriaga  o poeta não para ele sonhar com o poema utópico, e sim para ele  se metamorfosear em mundo, pois “poesia pode ser que seja fazer outro mundo”, ensina Manoel de Barros.

Ninguém melhor do que o poeta Baudelaire soube expressar essa embriaguez dionisíaca, ao dizer: “É preciso embriagar-se...Mas, com quê? Com vinho, poesia ou virtude , a escolher. Mas embriaguem-se!”

Resumindo : Apolo representa a Forma, ao passo que Dioniso expressa a Potência. A palavra potência tem a mesma raiz que o termo “possibilidade”. Assim, toda potência é realidade também, porém é uma realidade potencial ( ou virtual). Por exemplo, quando está em sua casa e fora do hospital ou consultório, o médico tem a potência para curar, mesmo que naquele momento ele não esteja exercendo tal potência; a cantora tem a potência para cantar, mesmo que se encontre  em silêncio e fora do palco.

Quando o médico está a curar, a potência passa ao ato : a potência é atualizada, isto é, torna-se atual. Mesmo sendo atualizada , nunca a potencialidade se esgota totalmente na forma como ela é atualizada : sempre permanece uma reserva de possibilidade que permite que tal potencialidade seja atualizada  de maneira diferente, sendo então renovada, reaprendida, reensinada. Não é apenas o que agora é atual que é real, pois a potência também é real, embora de uma realidade diferente. Toda realidade atual somente pode ser renovada ,  reinventada e repensada se não perder a ligação de seus fios com o  novelo da Potência, tal como os fios libertários de Ariadne. Por outro lado, toda potencialidade , para não ficar apenas no nível da idealização ou teoria, precisa se atualizar e se tornar ato efetivo no mundo.

Assim, o par forma-matéria deve ser complementado e ampliado pela relação potência-ato ou virtualidade-atualidade. Quando uma teoria é dogmática, ela tende a realçar a forma em detrimento da matéria-potência-virtualidade. Mas quanto mais rico, plural e diverso for um pensar, mais ele tende a colocar a potência-possibilidade-virtualidade em primeiro plano, compreendendo que as formas são necessárias, embora possam enrijecer se perderem de vista as potências-virtualidades que as fazem nascer.

O pensador-artista-criador de não importa qual área possui olhos e mãos para ver e tocar essa potência-virtualidade-possibilidade, para assim pôr em ato uma obra, um agir e um criar que atualizam essa potência-virtualidade-possibilidade em realidade concreta que dá sentido novo a nós mesmos, à sociedade e ao mundo.

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] No filme “Meu amigo Nietzsche”, o menino vive uma embriaguez assim quando descobre a potência das ideias que metamorfosearam seu modo de vida: ele se tornou um artista cuja obra a criar era a si mesmo... Essa embriaguez faz brotar primaveras, auroras...

[3] Artes como o teatro  e a dança têm maior potência dionisíaca do que a pintura e a escultura: nestas, apenas a mão se envolve na produção da obra, ao passo que no teatro e  na dança ( na qual a música também está presente) é o corpo inteiro que participa da criação.