quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

amendoeiras & ipês

 

Há árvores que são mais do que árvores: elas   também podem ser , para nós,  símbolos e ideias. Por exemplo , a amendoeira e o ipê.  Toda a multiplicidade de amendoeiras que hoje vemos se originou de uma semente única, singular, que veio clandestina  da Índia e atravessou os oceanos  encrustada no casco de uma nau portuguesa. A amendoeira é prima das oliveiras e era conhecida na Índia como a “árvore mais resistente”. Assim deve ser cada ideia que vale a pena ser ensinada e aprendida: uma resistente singular da qual germina uma multiplicidade de novas vidas.

A flor do ipê é uma das poucas que floresce colorida durante todo o ano, resistindo até  mesmo  ao  cinza do inverno. A flor do ipê assim nos mostra que é possível ser forte e resistente  sem perder  a arte de criar beleza. Antes de os colonizadores aqui chegarem, os índios acreditavam que o ipê era a  própria expressão da força fértil de Pindorama, nossa Terra-Mãe ancestral . Na mitologia tupi-guarani, um dos sentidos de Pindorama é: “terra onde os maus são vencidos”. As flores do ipê são sempre de cores múltiplas, combinando o púrpura, o rosa, o branco e o amarelo . Os antigos colonizadores tentaram acabar com o ipê, porém não conseguiram, encontrando forte e corajosa resistência dos índios na defesa do ipê. Então, os colonizadores descobriram que podiam ganhar dinheiro  sangrando  uma árvore chamada pau-brasil, cuja resina avermelhada corre no tronco da árvore como em nossas veias o sangue. Foi a partir do comércio  dessa resina cor de sangue  que a  terra explorada  ganhou novo nome, sendo então chamada de “Brasil” pelos seus algozes. Por debaixo do culto fascista e pseudonacionalista ao  verde e amarelo existe ainda a mesma mentalidade criminosa  que sangrou e ainda sangra   nossa Terra-Mãe, mátria  ancestral. Essa  mentalidade predadora novamente se volta contra o  ipê, fazendo “vista grossa” para a derrubada e exportação ilegal de sua madeira, quase sempre sequestrada  de terras indígenas. Por trás desse crime contra o ipê existe algo ainda mais sombrio:  também  move essa gente um ódio niilista  às cores , à natureza,  à multiplicidade e arte que o ipê simboliza como imagem  que nos liga aos nossos ancestrais povos da floresta. Que a potência  do  ipê, sua ancestral resistência,  permaneça de pé e também  nos fortaleça  frente  às  forças destruidoras que sangraram a árvore cujo nome designa o país que essas mesmas forças ainda continuam a sangrar.

( em Brasília , os ipês são patrimônio ecológico ,  não podem ser derrubados; essa decisão protetiva antecede a subida ao poder dos exterminadores que lá estão)


                                    ( foto: Walter Arruda)


https://www.hrw.org/pt/news/2019/09/17/333774







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