quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

o que não vira sucata...

 

1.Arrumar a casa. Limpar a poeira acumulada, para que as cores sufocadas respirem em nova aparição.

Cuidar dos suportes físicos, para que eles sejam a imagem externa da integridade do nosso espírito.

Lustrar os vidros, para que nesta transparência nosso pensamento se possa ver.

Reorganizar as distâncias entre as coisas, para que o espaço não seja um vazio, e para que a presença dos objetos não atrapalhe  o correr livre das crianças .

Praticar o desapego daquilo cujo tempo passou, para que a luz do dia toque de novo os olhos do nosso desejo: e que este seja como uma aurora a raiar.

Fazer tudo ao som da música, cantando junto, para que na mente também se opere a faxina.

Depois de tudo revitalizado, alegrar que sejamos nossa primeira visita.

 

2. Segundo o poeta Manoel de Barros, tudo o que é verdadeiramente novo nunca vira sucata. Avião, automóvel , celular de último tipo...tudo vira sucata. Até mesmo o tempo que o calendário conta vira sucata.

Mas o que não vira sucata? Onde se encontra o verdadeiramente novo? Não é no produto criado que se encontra o novo, e sim no ato de criação. O rio só  mantém seu fluxo vivo e avança se estiver umbilicado à nascente da qual continua a fontanejar, autocriando-se.

Os povos originários , por exemplo,  vivem muito mais próximos do tempo que não vira sucata, pois os indígenas  não vivem  o tempo sob números abstratos, e sim a partir dos  acontecimentos singulares da própria natureza, segundo os ritmos do sol e da lua.

Os números são abstrações porque conseguem representar somente as quantidades, nunca as qualidades , os ritmos e as intensidades. Somente um tempo concreto, singular, qualitativo e intenso tem força para resistir a virar   sucata, pois  um tempo assim tem a potência da vida e de seus ritmos.

 Mas onde encontrar esse tempo singular? Onde fica sua nascente, seu nascedouro, sua natência?

O poeta assim responde: os dias, os anos, os séculos, os milênios...tudo isso vira sucata. Mas o que nunca vira sucata é a aurora. A aurora é a nascente  da qual brota o autêntico  tempo novo.

E nós mesmos nunca viraremos sucata, não importa a idade que tenhamos, enquanto nos horizontarmos afetados por uma aurora . Para que,  juntando forças,  possamos    “fazer amanheceres”, como ensina o poeta, apesar  dessa noite longa...

O tempo não é um velho, mas uma criança: dentre os seus vários brinquedos, o sempre  novo é a esperança.

Às amigas & amigos, desejo autênticos Amanheceres.







 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

a estrela.

 

Eu tinha cerca de 6 anos. Na noite do natal, meus pais me levaram ao meu quarto para me mostrarem o que  papai noel deixou sobre minha cama: uma bola... Mas eu mal dava atenção ao presente, eu queria mesmo  era ver o papai noel!

Meus pais então me diziam: “ele já saiu pela janela!” Depois me levavam correndo ao quintal e apontavam para o alto: “Olha o papai noel lá, subindo ao céu em seu trenó, está vendo?” Mas eu só via as estrelas...

 Com a alma acesa, eu não parava de fazer perguntas aos meus pais : “O papai noel mora numa estrela? Por que ele se esconde? Ele tem medo da gente? Ele sempre foi velho ou um dia foi criança?”

Porém  meus pais acabavam tendo que ir  cuidarem da ceia, deixando sem resposta meus interrogares  poéticos-metafísicos. Após um bom tempo olhando o infinito , eu  me lembrava do presente  e voltava correndo para brincar  até tarde,   indo dormir abraçado à bola...

No ano seguinte mudamos para  novo endereço. Na noite do nosso primeiro natal na casa nova, fiquei de soslaio espreitando a janela.  “Ainda não é meia-noite, papai noel  ainda não veio”, dizia meu pai.

Houve um momento em que vi meu pai e minha mãe trocarem olhares. Eles não repararam que eu notei aquela comunicação estranha, parecia que estavam combinando algo. Meu pai saiu de fininho, enquanto minha mãe tentava me distrair  e aos meus irmãos  com o panetone.

 Mas eu só fingia olhar para o panetone, eu queria era surpreender o papai noel entrando sorrateiro pela janela. Se meus queridos pais não tinham respostas para minhas indagações metafísicas, seria então ao próprio papai noel que eu interpelaria com minhas perguntas.

Eu nem fazia questão da bola nova, já ficaria contente em ter de presente as respostas às questões poéticos-filosóficas.

Então, de rabo de olho , vi meu pai entrando no nosso quarto na ponta dos pés, sem notar que eu o via. Ele nem acendeu a luz para entrar, achei estranho...Porém em suas mãos estava o motivo daquele seu esgueirar-se feito sombra: meu pai carregava pacotes de presentes ...

Foi instantânea a minha compreensão do que estava acontecendo. Não fiquei decepcionado com a situação, tampouco desiludido .Eu ainda não sabia ler direito as palavras escritas nos livros, porém começava a ler o mundo .

Quando meu pai retornou à sala dizendo que viu o papai noel saindo pela janela, fiquei pensativo e nada disse . Senti ali uma solidão diferente : um estar só sem ficar triste.

Enquanto meus irmãos corriam para o quarto, fui à janela para receber outro tipo de presente: olhei para o imenso céu e me horizontei, com uma intensa e viva alegria que só compreendi muitos anos depois ao ler Espinosa.

 Hoje sei que o interrogar não vinha de mim, vinha do próprio infinito oferecendo-se como presente , para nunca deixar morrer aquela criança questionadora dentro da gente.

 

( imagem: “Noite estrelada sobre o Ródano”/ Van Gogh)





Nesta época do ano em que costumamos fazer um balanço visando deixar para trás o que não tem importância e renovar nossos laços com aquilo que é verdadeiramente importante, deixo às amigas & amigos as palavras de Manoel. Feliz Natal, Boas Festas e abraços fraternos.




sábado, 13 de dezembro de 2025

Diferença entre criar e inventar

 

Há uma diferença entre “inventar” e “criar”. “Inventar”  se aplica  a coisas. Celular ,  automóvel,  relógio ... existem porque foram inventados. Já o “criar” é uma arte, no sentido bem amplo da palavra.

Não só um poema  ou uma música são criados,  pois  também dizemos: “criei um filho”, e não “inventei um filho”; ou “criei um laço de amizade”, e não “inventei um laço de amizade”; ou “criei novas possibilidades para minha vida”, e não “inventei novas possibilidades para minha vida”. Assim falamos porque há uma percepção em nós, ainda que inconsciente, de que existir é criar e criar-se, ao passo que é coisa de rebanho viver  apenas mecanicamente, mesmo que cercado de máquinas tecnológicas . 

Um celular , por exemplo, apesar de  fruto da invenção tida por avançada e moderna,  pode ser usado a serviço de uma mentalidade retrógrada ( como vemos nos protofascismos online).

Isto porque a inventividade produz apenas coisas; e as coisas , por não possuírem vida, podem virar instrumento de propagação e poder de  mentalidades mórbidas .  Já a criatividade produz ideias, e estas são  a vida e a saúde de uma sociedade que cria a si própria , aberta e pluralmente.

 O mero inventar nos faz digitadores, telespectadores, consumidores, enfim, apertadores de botão e teclas de coisas ; já a criatividade nos impele a sermos  pintores, poetas, escultores, enfim, atores de nossa própria  vida, pessoal e coletiva.

Em todo totalitarismo , não importa se teológico-político , comportamental ou acadêmico, são sempre os criativos os que sofrerão as maiores consequências. E são sempre deles, e neles, que nascem e perseveram as resistências.

Como ensinam os filósofos Deleuze & Guattari: " A arte é o que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à infâmia, à vergonha".