domingo, 11 de janeiro de 2026

Espinosa : o que alimenta corpo e mente.

 

Em sua Ética, Espinosa ensina que a saúde do corpo depende de que  ele se nutra de alimentos diferentes. Não alimentos caros, mas alimentos diferentes, até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da singularidade que a incorpora  , tornando a diversidade    parte  integrante de si.

Mas para que esses alimentos diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força, de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única.

Nosso corpo é composto de diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se e regenerar-se.

 Ao contrário, um corpo que se alimenta de apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e desarmonia. Como resultado, nosso corpo será um misto debilitante  de excessos e carências. 

Se para nos alimentar dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.

O que vale para nosso corpo vale ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas também de músicas, filmes, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em prática. 

São essas ideias plurais que alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim, uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade do próprio mundo.  Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno.

Pois a mente que se nutre de uma ideia única, na verdade não se alimenta, se envenena. Mente assim se fecha à heterogeneidade da realidade,  passando  a negá-la ou a temê-la . E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita do Mercado” ) e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.

“Nas mãos a ferramenta de operário, e na cabeça a coruscante ideia.”

Versos do poema “Spinoza”, de Machado de Assis. Estes versos inspiraram  Nise ao dizer que não é no cérebro que apenas teoriza que se encontra  a felicidade, mas naquilo que  fazemos com nossas mãos, sobretudo quando  a ocupamos transformadoramente  com arte , generosidade e educação. Pois mãos adoecem quando servem à ideia única de apenas  contar dinheiro...



Esse livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Tive a alegria de participar de evento organizado pelo Museu de Imagens do Inconsciente no qual foi lançada essa edição do livro de Nise sobre Espinosa. No texto que escrevi e postei aqui, a referência a Espinosa é: Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27.

 

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A mídia comercial costuma dizer que vivemos um período político “polarizado”. Porém, esse tipo de “informação” dissimula uma intenção ambígua, para dizer o menos. Pois só podem polarizar realidades que pertencem a um mesmo conjunto ou gênero de coisas.

Por exemplo, o alto e o baixo polarizam no conjunto de coisas que têm dimensão física; o doce e o salgado polarizam no âmbito  das coisas que têm sabor; direita e esquerda, conservadores e progressistas, polarizam dentro do conjunto das perspectivas políticas.

Mas o fascismo não é um dos polos dentro daquilo que compreendemos ser a democracia. Ao contrário, o fascismo é o que quer destruir a democracia e sua possibilidade de perspectivas diferentes  buscando  o governo do Estado . Democracia é divergência  de perspectivas, porém sem rasgar as  regras ou ameaçar com tanques quem pensa diferente.

Quando a mídia comercial  coloca o fascismo e a esquerda como “polarizando”, além de isso  ser um erro de raciocínio ( um “sofisma”),  na verdade ela  está  tomando partido, de forma dissimulada, pelo fascismo, sobretudo quando esse promete uma pauta de venda do patrimônio público, pauta que é a mesma da mídia comercial e do capitalismo predatório.

 


 

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