terça-feira, 5 de maio de 2026

retratos / 4 de maio

 

RETRATOS

Ao pé da amendoeira
caem inertes as folhas amarelas,
que ainda ontem pareciam eternas.

Mas acima delas,
em verdes folhas inesperadas,
abre-se em broto a vida renovada.






4 DE MAIO

Meu caro 4 de maio,
já posso te chamar de amigo?
Creio que já o somos,
e não desde agora.
Não demora chega  o dia 5,
sei que você já precisa ir embora.
Agradeço-lhe como me acordou hoje:
com a mesma novidade de quando nasci,
apesar de já serem muitos os dias de aniversário.


Amo  rever-te,
saiba disso, amigo raro.
Espero te ver de novo,
no próximo ano,
logo ao abrir de maio.


Desejo ainda muito te receber,
sei lá ainda por quantos encontros.
Não te peço nada,
nem te faço promessa.
Nunca olho para suas mãos quando chega,
nelas não indago por presentes .
O que gosto é de apertar a mão da gente,
e mais uma linha na palma escrever, sem pressa.


Sou muito grato pelo seu retorno ,
que seja sempre assim o seu chegar: novo. 
Contigo aprendo a perdoar  o que passou,
reabrindo  no peito o horizonte  que sou.
Já reparou: tudo se enfeita de azul para te ver chegar,
 e mesmo o sol egocêntrico esquece seus dezembros,
para em plácida luz nos aquecer  e renovar.

Meu amigo 4 de maio,
sei que te escondes nessa data,
qual máscara a cobrir teu verdadeiro rosto, o tempo.
Não cobro teu retorno,
tudo farei para merecê-lo,
seja qual for minha idade.
Leve minha eterna gratidão a teu pai,
cujo nome é eternidade.

domingo, 3 de maio de 2026

A amendoeira

 

Espinosa dizia que a filosofia não é uma reflexão sobre a morte, e sim sobre a vida, sua  pluralidade e potência . A Vida nunca termina: ela se metamorfoseia.

Recentemente conversando com uma amiga, partilhei com   ela como eu gostaria que fosse a metamorfose que me fizesse permanecer na Vida.

Não ambiciono outra vida no “Além”. Queria continuar numa vida que vicejasse aqui no seio da Mãe-Terra, como a vida verdejante de uma árvore.

Amo livro e árvores. O livro é para a  árvore o mesmo que a borboleta é para a  lagarta: pois o  papel que um dia foi árvore , no livro ele ganha as asas da palavra.

Contudo, para quem escreve um livro a continuidade conquistada é apenas “letral”, porém  metamorfosear-se  numa árvore é fazer parte do  Livro da Vida.

Como amo viver, espero que ainda esteja muito distante o meu “desacontececer”  ( “desacontencer” é criação de Manoel de Barros ). Mas quando eu “desacontecer”, não quero  ir para debaixo do chão. Prefiro que envolva meu corpo o fogo de que fala  Heráclito , fogo-arquetípico da Vida Imortal.

Assim, não é ao nada das cinzas  que serei reduzido, e sim ao que houver  em  mim de sumo e adubo. Depois quero ser lançado nas raízes de uma amendoeira , ser sorvido por ela e dela fazer parte. Pois a amendoeira é minha árvore favorita.

A amendoeira é prima das oliveiras, e veio clandestina do Oriente  como semente  incrustada na madeira de uma  nau portuguesa que atravessou os oceanos. Nas terras sábias do Oriente, onde  Sherazade derrotou  o patriarcal Sultão, a amendoeira era conhecida como “a árvore mais resistente”.  

Mas não desejo ser lançado nas raízes de uma  amendoeira vivendo em terreno cercado com dono e proprietário, nem quero que seja  uma amendoeira perto de estradas por onde passam carros neuróticos , apressados. Também prefiro que não seja  uma amendoeira isolada,  inalcançável .

Queria então que fosse meu  novo corpo  uma amendoeira que fizesse parte da Floresta da Tijuca, um espaço amplo , horizontado, sem cercados.

Não queria que fosse     uma  amendoeira perto de trilhas muito frequentadas, prefiro uma  amendoeira que somente poderá ser encontrada  por aqueles que amam descobrir caminhos novos: e que a estes a amendoeira possa oferecer sombra e  proteção .

Entrarei pelas raízes e atravessarei o tronco; me multiplicarei depois pelos galhos  até alcançar  a verdez dos brotos. Quero estar perto dos ninhos, sobretudo os de bem-te-vis e  pardais, para quem sabe me tornar um deles e pôr para correr os carcarás...

E que a lápide a dizer quem fui não traga meu nome ou datas: que a lápide  seja  apenas a amendoeira florescendo em maio, mês em que nasci.

“Sou tua árvore da guarda e simbolizo teu outono pessoal.

Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura.”

( esta epígrafe escolhida para o texto que escrevi é de  “Fala, amendoeira”, de Drummond; pintura: “Amendoeira em flor”/ Van Gogh)





"Por coisas singulares entendo coisas que são finitas e têm existência determinada. E se vários indivíduos concorrem em uma ação de forma que todos juntos são causas de um efeito, considero-os todos, nesta medida, como uma coisa singular."(Espinosa)




 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do trabalhador

 

No livro “1984”,  George Orwell mostra que  um  poder t1rano não se mantém apenas com a violência física, ele também recorre à  violência simbólica : apagando  certas palavras  do uso público para assim tentar eliminar  da realidade os seres que tais palavras designam.

É o que acontece hoje  com a palavra “trabalhador”, que está sendo apagada pela mídia e donos do poder , com o apoio servil de capitães do mato, para em seu lugar   pôr “colaborador”.

Quando a França foi ocupada pelos n4zistas, eram chamados de “colaboradores” os franceses que , de forma submissa, faziam o que os dominadores  mandavam.

Não por acaso, o nome “colaborador” nasceu da boca dos patrões para designar o trabalhador que não se envolve com sindicatos, greves, luta por direitos... “Colaborador” é, na visão do Capital, o “trabalhador homem de bem”.

Porém,  “Dia do Trabalho” , conforme emprega a mídia comercial, é uma expressão  vazia, “sem gente dentro”,  diria o poeta Manoel de Barros. O curioso é que em outras datas comemorativas a mídia não diz  “Dia da Medicina”, mas “Dia do Médico”, ou “Dia da Advocacia”, e sim “Dia do Advogado”, ou  “Dia do Ensino”, mas “Dia do Professor”. Por que no dia de hoje  a mídia corporativa tenta esconder aquele que  exerce o trabalho? 

Além disso, médico, advogado , professor também são trabalhadores: cada atividade é exercida para produzir saúde, justiça, conhecimento...Pode-se, claro, com elas ganhar dinheiro, porém o dinheiro assim ganho vem do trabalho, da produtividade com coisas reais.

O Capital, ao contrário, não trabalha: ele explora quem trabalha, e quer que o explorado colabore com a exploração. 

Uma das palavras mais bonitas em grego é “eudaimonia”. No coração dessa palavra está o nome “Daimon”, pois “eudaimonia” é : “estar na companhia de um bom Daimon”.

“Daimon” é o ser que auxilia nas travessias.  Em português,  “eudaimonia” é   “felicidade”. Assim, felicidade autêntica não é posse, é travessia e processo construídos no dia a dia.

 Para os gregos, assim como para nossos indígenas, a felicidade não é mero triunfo pessoal,  mas  agenciamento coletivo na luta por travessias que nos levem à vida digna.

“Companhia” vem de “com-pane”. Em português, “pane” é “pão”. Fazer companhia é  saber “dividir o pão”. Companheiros: “aqueles que dividem o pão”.

Há o pão que alimenta o corpo: se ele faltar, vem a fome.   Mas há também o pão da dignidade e da justiça, pão que  tem o fermento da arte, da educação e da poesia,   pão que alimenta a luta de quem não se submete, como rebanho, a tir4nias...

 Creio que “colaborador” e “empreendedor” são termos que propagam a ideologia  de que o outro não é um companheiro, mas um “rival-competidor”.

Ser trabalhador  é fazer-se  companheiro das lutas comuns pela conquista e partilha dos dois pães: o que alimenta o corpo e o que nutre/liberta o espírito. Pois ser trabalhador não é só trabalhar, também é ter tempo livre para estudar,  viajar, enfim, viver com dignidade.










                        ( este filme é uma excelente dica para hoje, ele está disponível no youtube)